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Uma pessoa que morre de fome é uma pessoa assassinada!

Uma pessoa que morre de fome é uma pessoa assassinada!
22 de julho de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 6,1-15, texto de Itacir Brassiani.

Boa leitura!

Há uma lei “sagrada” que é ensinada em lições que vão do berço à sepultura: “Cada um pra si e Deus por todos”. Um complemento mais violento fala de “lei da oferta e da procura”, que eu traduzo como lei “quem pode mais, chora menos”. Não é difícil perceber que este princípio vai se impondo tranquilamente na arena política, no sistema econômico, na área cultural e até no âmbito da religião. Basta prestar atenção aos líderes religiosos e Igrejas que prometem bênçãos em forma de imediata prosperidade econômica e apresentam exemplos de gente que enriquece dando as costas aos necessitados. Isso tem nada a ver com o Evangelho.

No evangelho de hoje João nos apresenta Jesus em plena ação missionária. Já havia realizado três sinais de demonstração da chegada dos tempos esperados, da utopia do Reino de Deus, da Vida plena e gratuita para todos: transformara água em vinho numa festa de casamento fadada ao fracasso; curara o filho de um funcionário do rei; curara um paralítico que há três décadas não abandonava a esperança de recuperar a saúde e a plena cidadania. Impactada por esses sinais, uma grande multidão seguia Jesus. O povo intuía que da periferia e da pobreza estava nascendo uma grande e promissora novidade.

Jesus sente compaixão pelo povo do povo, cansado, carente e crente. A compaixão é filha da fraqueza, da humana vulnerabilidade, das periferias anônimas. Diferentemente, os palácios se sustentam sobre o poder e o medo. No entardecer das possibilidades de ajuda, quando as leis do mercado revelam que não têm coração, Jesus percebe a fome do povo e desperta os discípulos da indiferença que os envolvia inteiramente. Para ver o povo e resgatar a compaixão ativa e redentora também as Igrejas também precisam migrar para as periferias, deixar as discussões abstratas e estéreis, sair da própria barca.

Os discípulos não conseguiam ver saída para o drama do povo fora da lógica do império. “Onde vamos comprar pão para eles comerem?” Sem um plano alternativo, constatam desolados que estão num beco sem saídas: “Nem meio ano de salário bastaria…” Mas, avaliando suas próprias possibilidades, descobrem que entre eles há alguém que tem cinco pães e dois peixes que trazia para as necessidades da comunidade. “Mas o que é isso para tanta gente?”, questionam-se. Parece que eles querem disfarçar o egoísmo elitista, característico de quem pensa apenas nas próprias necessidades.

Como está longe de Jesus uma Igreja que se compraz apenas em palavras e de ritos religiosos, que lava as mãos diante das tragédias que se abatem sobre o povo! O mundo está farto de instituições que entregam seus membros à implacável lógica dos impérios. E não nos desculpemos perguntando o que representam cinco pães e dois peixes para uma multidão de famintos! “O pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada”, ensina a sabedoria popular. Num mundo que produz alimentos de sobra, a morte anual de milhões de pessoas por causa da fome é um escândalo. Uma pessoa que morre de fome é uma criança assassinada.

A saída não é simples, mas seguramente não consiste em cada um cuidar apenas de si mesmo, nem em considerar povo faminto um simples objeto de caridade. O povo é soberano, e as autoridades devem colocar-se a seu serviço. E não se trata de povos nacionais, mas de um único povo, aquele que congrega todos os homens e mulheres. Paulo enfatiza que há um só corpo e um só espírito, uma só fé, uma só esperança, um só batismo, um só Senhor. Ou seja: todas as divisões são arbitrárias e fadadas a desaparecer. Certamente a luta pelo pão na mesa de todos não pode ser estranha à unidade do gênero humano.

A solução para a crise alimentar sistêmica que fere a humanidade, agravada ainda mais pela pandemia, não está ao alcance de um país ou de uma Igreja particular. A saída começa com a adoção de um consumo moderado pelos ricos e com a erradicação da exploração comercial por parte dos países poderosos. E prossegue na defesa da soberania alimentar dos povos e na pressão para que os organismos multilaterais tomem medidas efetivas que garantam o acesso universal aos alimentos. E isso não é algo estranho à fé! A comida suficiente aparece quando Jesus assume o protagonismo e os discípulos se associam à sua ação.

Jesus de Nazaré, peregrino incansável no santuário das dores humanas, próximo de todos/as os/as sonhadores/as e construtores/as de um mundo outro! Dá-nos olhos abertos e lucidez intelectual para que encontremos os recursos necessários para evitar as tragédias que golpeiam teus irmãos e irmãs. Dá-nos um coração que nos leve ao encontro deles/as para servi-los com tudo o que somos e temos. Dá-nos um coração forte que nos livre de pregar doutrinas escapistas ou soluções violentas. Assim seja! Amém!