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Trabalhemos pelo pão que tem sabor de partilha e justiça!

Trabalhemos pelo pão que tem sabor de partilha e justiça!
28 de julho de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 6. 24-35, texto de Itacir Brassiani .

Boa leitura!

 

As comunidades católicas teimam em desdizer algumas crenças populares que veem o mês de agosto como portador de azar, e o consagram às vocações eclesiais, dedicando uma semana às vocações ao ministério ordenado, uma semana aos pais e às famílias, uma semana à vida religiosa consagrada e uma semana às vocações à vida leiga, especialmente aos catequistas. Então, celebremos hoje a vocação e a missão do ministro ordenado à luz da Palavra que a Igreja sugere para o primeiro domingo de agosto.

Com a ajuda de Felipe, dos demais discípulos e de um adolescente anônimo, Jesus havia saciado a fome da multidão contando apenas com alguns pães e peixes. Depois de pedir que as sobras não fossem desperdiçadas, Jesus, se retirara sorrateiramente, pois o povo, entusiasmado, queria entroná-lo como rei. Ainda chocados com o que Jesus havia feito, os próprios discípulos se surpreendem quando percebem que Jesus não está mais com eles. Desconcertados com o sinal realizado pelo mestre e com sua recusa do poder, tiveram que empreender sozinhos a travessia do lago, enfrentando o vento, a noite e a agitação das águas.

Confusos, os discípulos abandonam à própria sorte o povo carente e sofrido. Mas, dando-se conta de que Jesus e os discípulos haviam partido, este mesmo povo consegue vaga em outros barcos e vai procurar Jesus do outro lado do lago. Jesus é para eles a uma última tábua de salvação, aquele que pode assegurar a eles o humano direito à alimentação. Entretanto, a atitude de Jesus diante da multidão parece rude e desconcertante. “Vocês estão me procurando, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos…” Sua discordância com as motivações que moviam o povo é mais do que clara.

Será que a compaixão de Jesus diante de um povo cansado e abatido se havia esgotada? Será que vem desta compreensão errônea que vem a frieza com que recebemos o povo pobre que, alentado por sua fé tradicional, vem às nossas capelas, paróquias e santuários pedindo sacramentos e bênçãos? O que Jesus faz é chamar a atenção para algo mais fundamental que a simples ação de matar a fome de um dia: pede o empenho de todos/as numa prática alternativa, a única capaz de garantir para todos/as um pão que não se corrompe. Jesus aponta para o projeto do Reino de Deus, centrado na partilha, e não na esmola.

Está claro que Jesus não se limita a reprovar o povo que conta resignadamente com sua ajuda material e não consegue entender que ela apenas sinaliza algo mais importante e fundamental. Ele exorta: “Não trabalhem pelo alimento que se estraga; trabalhem pelo alimento que dura para a vida eterna… É este o alimento que Filho do Homem dará a vocês, porque é ele que Deus marcou com seu selo”. Jesus não veio distribuir o duro e amargo pão das sopas populares, mas aquele fermentado, cozido e multiplicado pela Justiça, obra coletiva do povo organizado e seus apoiadores. E confia esta obra de Deus aos seus discípulos e discípulas…

Fazer a obra de Deus, ou agir como Deus age, significa acreditar naquele que enviou Jesus, dar crédito àquele que achou bem não enviar alguém sabido e poderoso, mas uma pessoa vulnerável, incapaz de oferecer pacotes de soluções, mas que coloca sinais e metas de mudança, e dá o melhor de si pelos outros. O pão que não se estraga e dura para sempre é o dom de si mesmo, o dom da própria vida. E é essa é a obra que glorifica a Deus. Não podemos esquecer que doutrina religiosa dá segurança mas também escraviza, e que o alimento distribuído sem custos também embota a inteligência, acomoda e humilha.

Quem pergunta a Jesus “qual é a tua obra?” tem dificuldades reais de reconhecer na ação solidária e compassiva de um/a simples filho/a de homem a potente e transformadora ação de Deus. Jesus não está preocupado apenas distribuir pão para matar a fome. O sinal que ele oferece é a cooperação e a articulação dos dons e possibilidades que estão escondidas no próprio povo, inclusive nas pessoas aparentemente mais fracas e mais humildes. É aqui que reside o fermento que resulta num pão que não se estraga. E é a serviço que disso que os ministros são primordialmente ordenados.

Jesus, mestre nos caminhos da vida, ajuda-nos a compreender os sinais que realizas, a começar pela Eucaristia. Não deixes que a transformemos em ritualismo mágico e intimista. Ajuda os ministros ordenados, generosos e limitados como todos nós, a continuarem tua obra, tornando visíveis teus sinais de compaixão e de solidariedade. Que eles sejam homens novos. E ajuda-nos a vencer a tentação de canonizar os poderes e poderosos e menosprezar a mística do fermento e da semente, própria dos pobres. Assim seja! Amém!