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Reflexão do Evangelho: Quem crê no enviado do Pai tem vida em abundância

Reflexão do Evangelho: Quem crê no enviado do Pai tem vida em abundância
6 de junho de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 3,16-18, texto de Ildo Bohn Gass.

Boa leitura!

A narrativa para a liturgia deste final de semana está no contexto da conversa entre Jesus e Nicodemos (Jo 3,1-21). Porém, as palavras de Jesus, que expressam a experiência das comunidades joaninas com o ressuscitado, são dirigidas a todas as pessoas. 

A fonte da vida plena está no amor de Deus

Pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16).

Antes de tudo, vamos compreender melhor algumas palavras que constam neste evangelho.

“Mundo” é uma referência a toda ordem injusta, designa tudo o que se opõe ao Reino, ao projeto de Deus. Por isso, Jesus diz que ele e os discípulos não são do mundo. É do mundo quem odeia Jesus e os seus (Jo 15,18-19; 17,14.16). O mundo está ligado ao projeto do diabo (cf. v. 15). Hoje, Jesus diria que o mundo é esse submundo das armas, do ódio, das fake news, da injustiça. É nessa perspectiva que, diante de Pilatos, Jesus afirma: O meu reino não é deste mundo (Jo 19,26). Dizendo isso, afirma que o seu projeto não é conforme o reino deste mundo, o mundo de Pilatos. Este era o mundo do império romano, da ocupação militar, da calúnia, da exploração dos pobres, da violência, da mentira. A missão de Jesus é viver e fazer crescer o Reino de Deus entre nós, para superar as relações deste mundo injusto.

Quando o quarto evangelho se refere à “vida eterna” (17 vezes em João), não somente indica a nova dimensão da vida após a morte. Esta é uma expressão que também faz referência à vida presente. Convém conferir alguns versículos, onde assim está escrito: tem a vida eterna (Jo 6,40.47.54). Ali, como também em outras passagens, o verbo ter não está no futuro, mas no presente do indicativo. No texto de hoje, o verbo ter está no tempo presente, porém, do modo subjuntivo. Tudo isso revela que o amor de Deus manifestado em Jesus gera, neste mundo, vida eterna, isto é, vida com Deus, vida definitiva, vida digna, vida cidadã, vida em abundância (Jo 10,10). Esta vida nova inicia no momento em que acreditamos em Jesus, isto é, em que aderimos a ele e vivemos como ele viveu, pois já viveremos como pessoas ressuscitadas (Jo 5,24; Rm 6,4). Paulo escreveria: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Cor 5,17). E ainda: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gl 3,27). Em Jo 17,3, Jesus define em que consiste a vida eterna: que eles te conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo. E conhecer a Deus é viver o amor e a justiça (cf. Jr 22,15-16; Os 2,21-22; 6,6).

Outra palavra muito cara para a comunidade joanina é “crer” ou “acreditar”. Ela aparece 39 vezes neste evangelho. É interessante que este verbete não apareça em forma de substantivo, “crença” ou “fé”. A intenção é enfatizar que a fé deve ser ativa. Crer em Jesus é aderir ao seu projeto, é comprometer-se com a mesma missão de amor que o Pai lhe confiou. Mais do que ter fé em Jesus, acreditar significa ter a mesma fé de Jesus. Não é somente ter a atitude de acolhida e abertura à graça amorosa de Deus. É mais. É responder a essa graça, aderindo a Jesus, vivendo da mesma forma como ele viveu.

Jo 3,16: Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, a fim de que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Deus é Emanuel. Ele quer fazer história junto a suas filhas e seus filhos. Para Moisés, Deus está presente na luta por libertação junto a hebreus e hebreias (Ex 3). Da mesma forma, as comunidades joaninas também fazem a experiência com um Deus que participa visivelmente da história humana em Jesus de Nazaré. Ele é a revelação do amor pleno do Pai presente em nosso meio e agindo na promoção de vida eterna, isto é, vida digna. A motivação para Deus querer fazer parte da história humana é o seu amor ilimitado pelas pessoas, a fim de que tenham vida plena, vida cidadã.

Jesus é Filho único de Deus porque, na fidelidade ao Pai, revela o seu amor incondicional à humanidade. Jesus é filho humano de Deus. Nele, o divino se humaniza e o humano é divinizado. O Pai ama tanto que é capaz de entregar tudo o que possui, o seu único filho. Deus se comporta como Abraão, capaz de oferecer o que lhe é mais caro, em total desprendimento (Gn 22).

Deus deu o seu filho por amor. Em Jo 3,14, está escrito que é necessário que seja levantado o filho do ser humano. É importante superar a falsa compreensão de que Deus queria a morte de Jesus. Não. O Deus de Jesus não é conivente com a morte. Nem ele mesmo é um assassino. Assassino é o Diabo desde o princípio (Jo 8,44). Jesus mesmo afirma que seu Pai é Deus de vivos (Mc 12,27). Jesus é ressuscitado por Deus, justamente porque ele não é a favor de sua morte. É fato inconteste que Jesus mesmo, por fidelidade ao projeto de Deus, dá a sua vida livremente (Jo 10,18). Só o amor é capaz de doar a vida. Além disso, Jesus diz para Pilatos: quem a ti me entregou tem maior pecado (Jo 19,11). Entregar Jesus à morte, portanto, é pecado. E o pecado não vem de Deus. Matar Jesus é ação do diabo, encarnado no representante do império romano, o príncipe deste mundo (Jo 12,31; 14,30; 16,11; 1Cor 2,7-8).

Na tradição de Israel, a fonte da vida está na lei (Sl 119,37.40.50; Ne 9,29). É ela que orienta as posturas e atitudes dos israelitas. No entanto, para as comunidades joaninas, não é mais a letra da lei, mas o amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8,39), que é fonte de vida eterna, de vida em abundância.

Jo 3,17: Pois Deus enviou o seu filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele.

Deus “enviou” o seu filho. No grego, a palavra “apóstolo” significa “enviado”, mensageiro. Interessante notar que nenhuma vez este evangelho usa o título de apóstolo. A única vez que aparece esta palavra, ela tem o sentido de mensageiro, de enviado (cf. Jo 13,16). É provável que essa escolha pretenda enfatizar que Jesus é o único “apóstolo” do Pai (Jesus como o “enviado” do Pai, 39 vezes em João: 3,17; 4,34; 5,23.24.30.36.37.38, etc.). Mas, o fato é que o próprio Jesus nos inclui em seu apostolado. Envia Madalena, tornando-a apóstola da ressurreição (Jo 20,17-18). Também nos envia como apóstolos e apóstolas com a mesma missão que o Pai lhe confiara (Jo 20,21).

Jesus, embora tenha sido condenado por este mundo injusto, não quer o mundo seja julgado. Deus enviou Jesus não para julgar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele. O amor de Deus quer trazer salvação, isto é, vida eterna, vida em abundância para todas as pessoas (Jo 10,10). A fonte da salvação é o amor ilimitado de Deus.

Jo 3,18: Quem nele crê não é julgado. O que não crê já está julgado, porque não creu no nome do único filho de Deus.

O Pai oferece o dom do amor a todas as pessoas indistintamente. Deus não faz distinção entre pessoas, mas, em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça lhe é agradável (At 10,34-35; cf. Dt 10,17). Mas há quem não adere ao nome de Jesus, isto é, à sua pessoa, revelação do amor de Deus. Quem assim decide não é julgado por Deus, mas a si mesmo se julga. O critério do julgamento é a prática a favor da vida ou da morte. Diante de Jesus, ou optamos ser contra ele e seu projeto, posicionando-nos ao lado dos poderosos que golpeiam a democracia, ou aderimos a seu amor, agindo em favor da vida das vítimas da mentira, da calúnia e da injustiça. Jesus provoca uma decisão, uma tomada de posição.

Jesus foi enviado ao mundo para que este seja salvo, isto é, para que tenha vida eterna. Da mesma forma, também ele nos envia para sermos seus cooperadores na promoção de vida digna neste mundo (Jo 17,18; 20,21).