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Reflexão do Evangelho: As bem-aventuranças como caminho de santidade

Reflexão do Evangelho: As bem-aventuranças como caminho de santidade
29 de outubro de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Mateus 5,1-12, texto de Ildo Bohn Gass.

Boa leitura!

“Felizes os que são pobres no Espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5,3).

1. Todas as pessoas são chamadas à santidade

Na boa nova das bem-aventuranças, Jesus propõe um caminho de santidade para seus discípulos e suas discípulas em todos os tempos. Portanto, Jesus propõe para nós hoje esse mesmo projeto. Conforme a comunidade de Mateus, as oito bem-aventuranças são as orientações para seguir seguro pelo caminho de Deus.

Todas as pessoas são chamadas à santidade, a fim de serem felizes. “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, sou santo” (Levítico 19,2). Mateus faria uma releitura desse chamado da seguinte forma: “Sede íntegros, como o Pai celeste é íntegro” (Mateus 5,48). Coerente com sua experiência com o Deus compassivo, Lucas formula assim o mesmo convite: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6,36). Aqui, convém lembrar que, junto com a bem-aventurança da “fome e sede de justiça”, a dos “misericordiosos” está no centro das oito atitudes de quem segue pelo caminho de Deus.

2. Jesus, o novo mestre da justiça, nos ensina o caminho da santidade 

Quando Mateus apresenta Jesus fazendo cinco grandes discursos (Mateus 5-7; 10; 13,1-52; 18; 24-25), sua intenção é apresentá-lo como o novo Moisés, a quem eram atribuídos os cinco livros da lei, o Pentateuco.

A lei era considerada a expressão da vontade de Deus e caminho de felicidade. “Feliz a pessoa cujo prazer está na lei de Javé e a medita dia e noite” (Salmo 1,1-2).

No tempo de Jesus, muitos fariseus estavam preocupados em viver as leis do Pentateuco em todos os seus pormenores. Jesus, porém, vive e anuncia essa vontade de Deus indo além da letra da lei. Diz que, mais que a letra, é o espírito da lei que importa. Disse ainda que o espírito da lei consiste na vivência do amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mateus 22,34-40) ou como Jesus nos amou (João 13,34). Assim, o amor passa a ser a orientação fundamental para o nosso agir (cf. Mateus 12,1-8; 23). Mateus chama essa vontade de Deus de justiça do Reino (cf. Mateus 6,33). Se Moisés era o antigo mestre da lei, Jesus é o novo mestre da justiça a nos ensinar o caminho de Deus, o caminho da santidade no amor.

3. Bem-aventuranças: a porta de entrada ao Sermão da Montanha

No primeiro discurso do Sermão da Montanha (Mateus 5-7), o mestre da justiça ensina um conjunto de orientações para a boa convivência na comunidade, chamada a viver as relações do Reino. Tal como Moisés escrevera as palavras da lei encontrando-se sobre um monte, Jesus dá as novas orientações também numa montanha (Êxodo 34,28; Mateus 5,1).

As bem-aventuranças são a porta de entrada ao Sermão da Montanha (Mateus 5-7). Elas são um programa de vida para trazer felicidade plena a quem adere à boa nova de Jesus. São orientações para seguir no caminho da misericórdia. A felicidade já não está em somente meditar a lei de Javé dia e noite, mas felizes são as pessoas pobres, as que têm fome e sede de justiça, as que são misericordiosas…

4. Bem-aventuranças: as atitudes no caminho de santidade 

A justiça do Reino dos Céus, isto é, a vontade de Deus, é o carro-chefe das bem-aventuranças. Convém lembrar que, em Mateus, “Céus” é sinônimo de “Deus” (cf. Lucas 6,20). É importante que tenhamos isso presente para superarmos a tentação de transferir o Reino para depois da morte. Para Jesus de Nazaré, seu projeto do Reino é para esta vida, que é eterna. Ele não diz que as pessoas pobres “serão” felizes. Porém, afirma: porque delas “é” o Reino dos Céus (Mateus 5,3.10). E, ao anunciar a plataforma do Pai, Jesus diz que o Reino está próximo. Estar perto no sentido temporal quer dizer que é para breve e não para um futuro distante. Ao mesmo tempo, o Reino está perto no sentido espacial, isto é, ele já está presente entre nós na vida de Jesus, de um lado, e, de outro, em todos os gestos de misericórdia, de paz e de justiça. E se o Reino de Deus está próximo, próximo também está o fim dos reinos deste mundo.

O Reino é o projeto na primeira e na oitava bem-aventurança (Mateus 5,3.10). E, no centro, estão a busca da justiça (do projeto do Reino) e a busca da misericórdia (ter o coração voltado para quem está na miséria). Uma vez realizada a justiça de Deus, os empobrecidos deixarão de ser oprimidos, pois haverá partilha e solidariedade (cf. Mateus 6,33). Por isso, Jesus os declara felizes.

5. Felizes os pobres no Espírito

A primeira bem-aventurança é a mais importante. As demais são desdobramentos desta. Qual é a porta de entrada para o Reino? Quem são os pobres no Espírito? São aquelas pessoas nomeadas nas demais bem-aventuranças, ou seja, as que choram, as que são humildes e não têm terra (cf. Salmo 37,11), as que têm fome, as que são misericordiosas, as puras de coração, aquelas que promovem a paz e as que são perseguidas por causa da justiça. Observemos que tanto em relação aos pobres no Espírito (primeira bem-aventurança), como aos perseguidos por causa da justiça (oitava), fala-se do mesmo prêmio: deles já é o Reino dos Céus (verbo no presente). Trata-se do mesmo grupo de pessoas. Pobre no Espírito é quem se deixar guiar pelo Espírito de Deus.

E quais são as dádivas para esses empobrecidos ou para quem com eles é solidário? Jesus anima a sua esperança anunciando-lhes o Reino para o tempo presente. Não é difícil para nós hoje perceber quem é pobre e quem com ele é solidário. É só ver as perseguições que sofrem injustamente, tais como calúnias, mentiras, condenações sem crime, intolerâncias e violências.

E quais são os frutos de quem vive, movido pelo Espírito de Deus, as orientações do caminho do Reino? São o consolo, a terra repartida, fartura, misericórdia, contemplação de Deus e filiação divina. E ser filha e filho de Deus é agir à sua imagem e semelhança, isto é, ter as mesmas atitudes de Deus. É viver como irmãs e irmãos (Mateus 23,8-9). É “amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem” (Mateus 5,44-45).

6. É suficiente ser pobre?

Não. Ser pobre não é suficiente. Está claro que os empobrecidos são os preferidos de Deus, justamente porque ele não pode ver nenhum de seus filhos e nenhuma de suas filhas passando por necessidades. Ainda mais, quando a pobreza é fruto da injustiça humana. A preferência de Deus é sua misericórdia para com seus filhos que sofrem violência, como vítimas de seus próprios irmãos. É interessante notar que esta mesma bem-aventurança, no Evangelho segundo Lucas, reza assim: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lucas 6,20).

Quando a comunidade de Mateus acrescentou “no Espírito” à primeira bem-aventurança de Jesus, também estava preocupada com o fato de que há pobres que têm corações e mentes possessos pelo espírito de rico, de ódio, de intolerância de classe, de gênero. Buscam o sentido mais profundo para a vida na riqueza, no prestígio, na violência, na arrogância e no poder. Por isso, Mateus quis deixar bem claro que não basta ser pobre, mas que é preciso ser “pobre no Espírito”, isto é, viver de acordo com o Espírito do próprio Deus. Ser pobre também por dentro, interiormente. Ser amante da verdade, do respeito à diversidade, sem preconceito contra pessoas pobres, negras ou indígenas, mulheres ou da diversidade sexual.

É provável que a comunidade de Mateus, ao acrescentar na parábola do banquete a presença de um homem sem a veste nupcial (Mateus 22,1-14; comparar com Lucas 14,16-24), queira justamente referir-se à necessidade de também ser pobre no Espírito, ou seja, livre de tudo que escraviza e vestir a veste do amor e da misericórdia de Deus revelada em Jesus. Ser pobre no Espírito também é a opção pelo projeto da justiça e da misericórdia, é viver na total confiança e dependência de Deus, é confiar na partilha, na vida simples e na irmandade.

Aliás, são justamente as pessoas que buscam a felicidade no consumismo, na acumulação e no individualismo que perseguem a quem luta pela justiça do Reino, pela paz e pela partilha. Foi assim que, no passado, os poderosos perseguiram os profetas (Mateus 5,10-12) e, ainda hoje, caluniam e perseguem a quem luta por um Brasil em que também as pessoas excluídas possam fazer, pelo menos, três refeições ao dia, ter casa, atendimento médico digno, educação de qualidade, etc.

7. A felicidade proposta pelo capitalismo e a felicidade do Reino de Deus

Faz alguns anos, o padre Renzo Flório, celebrando conosco na comunidade São Judas Tadeu, em São Leopoldo, confrontou as bem-aventuranças com as promessas de felicidade da sociedade consumista. Em sua reflexão, Flório disse mais ou menos o que segue.

Enquanto a ideologia capitalista declara felizes os que acumulam, Jesus anuncia a bem-aventurança para os pobres no Espírito, para as pessoas totalmente livres e desapegadas de qualquer riqueza idolatrada.

O projeto mundano proclama feliz quem vive em festanças, ao passo que Jesus afirma que bem-aventuradas são as pessoas que agora choram, uma vez que irão superar as seus sofrimentos.

Para o sistema do capital, felizes são os donos de grandes extensões de terra. Para Jesus, no entanto, bem-aventurados são os pobres que não têm terra, pois irão conquistá-la para nela viver e trabalhar. 

Enquanto a mentalidade do projeto deste mundo diz que são felizes as pessoas que praticam a injustiça, Jesus atesta que bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, lutando para que essa fome e essa sede sejam saciadas.

A mística do capital declara felizes os individualistas voltados somente para seus próprios interesses, ao passo que Jesus anuncia que bem-aventuradas são as pessoas misericordiosas, solidárias.

Na propaganda de quem defende o poder financeiro, são felizes os desonestos e falsos, os cínicos, debochados e mentirosos. Para Jesus, porém, são bem-aventurados os puros de coração, as pessoas transparentes, sinceras, honestas, autênticas.

O sistema deste mundo proclama felizes os que alcançam o que querem através da violência e da guerra. Jesus afirma que bem-aventurado é quem promove a paz.

Por fim, os poderosos dizem que feliz é quem calunia, condena e persegue aqueles que lutam por vida digna para todos. Jesus, contudo, declara felizes os perseguidos por causa de seu engajamento na luta pela justiça.

Hoje, Jesus renova o convite para nós: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mateus 6,33). E o caminho da justiça do Reino, o caminho da santidade, está na prática, não da letra da lei, mas do espírito da lei proposto nas orientações fundamentais para a vida, e que Jesus sintetiza nas bem-aventuranças. É um projeto que abrange a vida toda, envolvendo as relações com os bens, com as pessoas, conosco mesmos e com Deus.

Quem é verdadeiramente feliz? Qual a verdadeira felicidade?