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Ninguém é dono de Jesus

Ninguém é dono de Jesus
16 de setembro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 9.30-37, texto do Mesters e Lopes

Boa leitura!

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O texto de Evangelho que vamos meditar hoje traz uma grande incoerência da parte dos discípulos de Jesus. Enquanto Jesus anunciava a sua paixão e morte, os discípulos discutiam entre si quem deles era o maior. Jesus queria servir, eles só pensavam em mandar! A ambição os levava a querer subir às custas de Jesus. Vamos conversar sobre isto.

SITUANDO

Esta reflexão traz o segundo anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Como no primeiro anúncio – Mc 8,27-38 -, os discípulos ficam espantados e com medo. Não entendem a palavra sobre a cruz, porque não são capazes de entender nem de aceitar um Messias que se faz empregado e servidor dos irmãos. Eles continuam sonhando com um messias glorioso. O texto ajuda a perceber algo da pedagogia de Jesus. Mostra como ele formava os discípulos, como os ajudava a perceber e a superar o “fermento dos fariseus e de Herodes”.
Tanto na época de Jesus como na época de Marcos, havia o fermento da ideologia dominante. Também hoje, a ideologia das propagandas do comércio, do consumismo, das novelas influi profundamente no modo de pensar e de agir do povo. Na época de Marcos, nem sempre as comunidades eram capazes de manter uma atitude crítica frente à invasão da ideologia do império. A atitude de Jesus com relação aos apóstolos, descrita no evangelho, as ajudava e continua ajudando a nós hoje.

COMENTANDO

Marcos 9,30-32: O anúncio da cruz
Jesus caminha através da Galileia, mas não quer que o povo o saiba, pois está ocupado com a formação dos discípulos e discípulas e conversa com eles sobre a cruz. Ele diz que, conforme a profecia de Isaías – Is 53,1-10 -, o Filho do Homem deve ser entregue e morto. Isto mostra como Jesus se orientava pela Bíblia, na formação aos discípulos. Ele tirava o seu ensinamento das profecias. Os discípulos o escutam, mas não entendem a palavra sobre a cruz. Mesmo assim, não pedem esclarecimento. Eles têm medo de deixar transparecer sua ignorância.
Marcos 9,33-34: A mentalidade de competição
Chegando em casa, Jesus pergunta: Sobre que vocês estavam discutindo no caminho? Eles não respondem. É o silêncio de quem se sente culpado, pois pelo caminho discutiam sobre quem deles era o maior. Jesus é bom formador. Não intervém logo, mas sabe aguardar o momento oportuno para combater a influência da ideologia dos seus formandos. A mentalidade de competição e de prestígio que caracteriza a sociedade do Império Romano já se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas começando! Aqui aparece o contraste! Enquanto Jesus se preocupa em ser o Messias Servidor, eles só pensam em ser o maior. Jesus procura descer. Eles querem subir!
Marcos 9, 35-37: Servir, em vez de mandar
A resposta de Jesus é um resumo do testemunho de vida que ele mesmo vinha dando desde o começo: Quem quer ser o primeiro seja o último de todos, o servidor de todos! Pois o último não ganha nada. É um servo inútil (cf. Lc 17,10). O poder deve ser usado não para subir e dominar, mas para descer e servir. Este é o ponto em que Jesus mais insistiu e em que mais deu o seu próprio testemunho (cf. Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16).
Em seguida, Jesus coloca uma criança no meio deles. Uma pessoa que só pensa em subir e dominar não daria tão grande atenção aos pequenos e às crianças. Mas Jesus inverte tudo! Ele diz: “Quem receber uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe. Quem receber a mim recebe aquele que me enviou! Ele se identifica com as crianças. Quem acolhe os pequenos em nome de Jesus acolhe o próprio Deus!

ALARGANDO

Um retrato de Jesus como formador
“Seguir” era um termo que fazia parte do sistema da época. Era usado para indicar o relacionamento entre o discípulo e o mestre. O relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem às aulas do professor sobre uma determinada matéria. Os discípulos “seguem” o mestre e convivem com ele. Foi nesta “convivência” de três anos com Jesus que os discípulos e as discípulas receberam a sua formação.
Não é pelo fato de uma pessoa andar com Jesus que ela já é santa e renovada. No meio dos discípulos, cada vez de novo, a mentalidade antiga levantava a cabeça, pois o “fermento de Herodes e dos fariseus” – Mc 8,15 -, isto é, a ideologia dominante, tinha raízes profundas na vida daquele povo. A conversão que Jesus pede quer atingir a raiz e erradicar o “fermento”. Já vimos como Jesus combatia a mentalidade antigo de competição e de prestígio – Mc 9,33-37 e a mentalidade fechada de quem se considera dono de tudo – Mc 9,38-40. Eis alguns outros casos desta ajuda fraterna de Jesus aos discípulos.

  • Mentalidade de grupo que se considera superior aos outros. Certa vez, os samaritanos não queriam dar hospedagem a Jesus. Reação dos discípulos: “Que um fogo do céu acabe com esse povo” (Lc 9,54). Achavam que, pelo fato de estarem com Jesus, todos deviam acolhê-los. Pensavam ter Deus do seu lado para defendê-los. Era a mentalidade antiga de “Povo eleito, Povo privilegiado!” Jesus os repreende: ”Vocês não sabem de que espírito estão sendo animados” (Lc 9,55).
  • Mentalidade de quem marginaliza o pequeno. Os discípulos afastavam as crianças. Era a mentalidade da cultura da época em que criança não contava e devia ser disciplinada pelos adultos. Jesus os repreende: ”Deixem vir a mim as crianças!” (Mc 10,14). Ele coloca a criança com professora de adulto: “Quem não receber o Reino como uma criança não pode entrar nele” (Lc 18,17).
  • Mentalidade de quem pensa conforme a opinião de todo mundo. Certo dia, vendo um cego, os discípulos perguntaram: ”Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9,2). Como hoje, o poder da opinião pública era muito forte. Fazia todo o mundo pensar de acordo com a cultura dominante. Enquanto se pensa assim não é possível perceber todo o alcance da Boa Nova do Reino. Jesus os ajuda a ter uma visão mais crítica: ”Nem ele, nem os pais dele” (Jo 9,3). A resposta de Jesus supõe uma leitura diferente da realidade.

Jesus, o Mestre, é o eixo, o centro e o modelo da formação. Pelas suas atitudes, ele é uma amostra do Reino, encarno o amor de Deus e o revela (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). Muitos pequenos gestos refletem este testemunho de vida com que Jesus marcava presença na vida dos discípulos e das discípulas, preparando-os para a vida e a missão. Era a sua maneira de dar forma humana a experiência que ele mesmo tinha de Deus como Pai:

  • Envolve-os na missão – Mc 6,7; Lc 9,1-2; 10,1.
  • Na volta, faz revisão com eles – Lc 10,17-20.
  • Corrige-os quando erram e querem ser os primeiros – Mc 9,33-35; 10,14-15.
  • Aguarda o momento oportuno para corrigir – Lc 9,46-48; Mc 10,14-15.
  • Ajuda-os a discernir – Mc 9,28-29.
  • Interpela-os quando são lentos – Mc 4,13; 8,14-21.
  • Prepara-os para o conflito – Jo 16,33; Mt 10,17-25.
  • Manda observar a realidade – Mc 8,27-29; Jo 4,35; Mt 16,1-3.
  • Reflete com eles sobre as questões do momento – Lc 13,1-5.
  • Confronta-os com as necessidades do povo – Jo 6,5.
  • Ensina que as necessidades do povo estão acima das prescrições rituais – Mt 12,7.12.
  • Tem momentos a sós para poder instrui-los – Mc 4,34; 7,17; 9,30-31; 10,10; 13,3.
  • Sabe escutar, mesmo quando o diálogo é difícil – Jo 4,7-42.
  • Ajuda-os a aceitar a si mesmos – Lc 22,32.
  • É exigente e pede para deixar tudo por amor a ele – Mc 10,17-31.
  • É severo com a hipocrisia – Lc 11,37-53.
  • Faz mais perguntas que dá respostas – Mc 8,17-21.
  • É firme e não se deixa desviar do caminho – Mc 8,33; Lc 9,54.
  • Prepara-os para o conflito e a perseguição – Mt 10,16-25

Este é um retrato de Jesus como formador. A formação do “seguimento de Jesus” não era, em primeiro lugar, a transmissão de verdades a serem decoradas, mas sim a comunicação da nova experiência de Deus e da vida que irradiava de Jesus para os discípulos e discípulas. A própria comunidade que se formava ao redor de Jesus era a expressão desta nova experiência. A formação levava as pessoas a terem outros olhos, outras atitudes. Fazia nascer nelas uma nova consciência a respeito da missão e a respeito de si mesmas. Fazia com que fossem colocando os pés do lado dos excluídos. Produzia, aos poucos, a “conversão” como consequência da aceitação da Boa Nova (Mc 1,15).