Partilhas

Ano-Novo

Fazendo ecoar a esperança do inicio de um novo ciclo, partilhamos o artigo “Ano-Novo”, de Hebert Rodrigues de Souza, parte do ebook: Advento, Natal e Ano Novo / Ebook PDF – CEBI. Boa leitura!


Situando o contexto

Mais um fim de ano está chegando. Até já consigo imaginar como será: um corre danado para as compras da ceia, das roupas e

dos acessórios novos. As empresas, instituições e escolas correm para encerrar orçamentos, metas, relatórios e notas, e até na vida das igrejas e comunidades de fé acontece o mesmo – há urgência para deixar tudo pronto e finalizado para começar o novo ano sem pendências. Apesar desse clima que permeia essa época do ano, temos a impressão de que nem tudo foi resolvido, exatamente encerrado como gostaríamos que tivesse acontecido. E, como tem sido com qualquer outra data ou tempo litúrgico ou de alguma comemoração significativa, o mercado tomou conta. Datas como Natal, Ano-Novo e Páscoa (apenas para citar as mais populares), infelizmente, giram em torno da comercialização, e seu sentido original fica totalmente esvaziado. Tempos de globalização! O que não significa que tenhamos que aceitar tudo, mas podemos e devemos trazer novos sentidos como faziam as profetisas e os profetas da Bíblia.

A proposta deste texto é voltarmos um pouco nas origens da comemoração e das celebrações do Ano-Novo, dentro ou fora da tradição judaico-cristã, e sugerir uma pequena liturgia que possa ser celebrada em família ou em comunidade para irmos além do padrão co memorativo ou litúrgico habitual.

 

Comemorações de Ano-Novo – quando começaram?

A passagem ou a mudança de ano é um evento que se dá quando uma determinada cultura celebra o fim de um tempo e aguarda a chegada e começo do próximo. Todas as culturas que têm seus calendários anuais têm por costume celebrar o Ano-Novo. Na cultura ocidental judaico-cristã, há o hábito de nomear este evento de réveillon, palavra francesa que vem do verbo réveiller, que em português significa despertar. Embora se tenha o costume de celebrá-lo, não há uma data fixa que sirva de padrão para comemorá-lo. As primeiras comemorações do Ano-Novo, chamadas“festival de ano-novo”, ocorreram na Mesopotâmia aproximadamente em 2000 a.C. Na Babilônia, os festejos para o Ano-Novo aconteciam por ocasião da lua nova, in- dicando o equinócio da primavera, isto é, um daqueles momentos em que o sol se aproxima da linha do Equador e, assim, os dias e as noites têm a mesma duração.

Foram os romanos, contudo, os primeiros a estabelecer um dia fixo no calendário para a comemoração desde evento de grande importância. Segundo o calendário romano, o ano iniciava em primeiro de março, mas foi substituído por primeiro de janeiro em 46 a.C. por conta de um decreto do imperador Júlio César. Mas por qual razão? Os romanos dedicavam esse dia a Janus (o mês de janeiro deriva do seu nome), divindade conhecida como o deus dos inícios e protetor das portas de passagem. Na Antiguidade, muitas cidades tinham sido construídas com fortificações tendo portas que necessitavam de constante vigilância e proteção. Assim, Janus era o protetor ideal. Devido sua dupla face – uma atrás da outra –, podia olhar tanto para frente como para trás, para esquerda e para direita ao mesmo tempo. Janus era também reconhecido como um porteiro celestial, pois as suas duas faces podiam olhar as entradas e as saídas e tinham como tarefa especial abrir as portas do ano que iniciava. Essa característica própria de Janus lhe permitia olhar tanto o presente, que é o tempo em que estamos, como o futuro, aquilo que a de vir, ou seja, ele tinha a visão do ano corrente e a do ano que estava por vir.

Outras culturas também celebram o Ano-Novo com seus ritos, mitos e suas divindades como é o caso da festa popular chinesa de Ano-Novo chamada de Hsin Nien, celebrada em fins do mês de janei- ro e início de fevereiro. Segundo o costume, o fim de ano velho é sim- bolizado pela expulsão da força escura yin (Yin-Yang) em que as pessoas iniciam uma limpeza e repintura das casas. Conforme a mito- logia chinesa, dois ou três dias antes do fim do ano, a divindade do fo- gareiro Tsao Chun, despachado para a corte celestial do imperador de Jade Yu Huang, leva informações sobre o comportamento dos seus hospedeiros (o povo) durante o ano. Esse ato é expresso pelos fiéis queimando a imagem de Tsao Chun e fazendo oferendas de ar- roz-doce e vinho na tentativa de amenizar o relatório prestado por esse deus. Na véspera do Ano-Novo, que simboliza o retorno de Tsao Chun, é representado pela montagem de uma nova imagem e pela queima de fogos de artifício. O Céu, a Terra, os deuses domésticos e os antepassados são homenageados pelas famílias com ofertas de co- mida, incenso, velas, dinheiro e muitas inclinações diante dos altares, seja nas casas ou nos templos.

Na tradição judaica, o Ano-Novo também segue um calendário diferenciado, o Rosh ha Shaná (cabeça do ano ou ano-novo), sendo celebrado entre os meses de setembro e outubro. No calendário judai- co, o ano inicia no mês de Tishri, e os dias um e dois são comemora- dos como a festa de Ano-Novo. Segundo a mitologia judaica, foi nes- sa data que Deus criou Adão, o primeiro ser humano. Rosh ha Shaná também é conhecido como o “Dia do Julgamento”. Acredita-se que tem início um período de julgamento para a humanidade, quando Deus, o Rei Celestial, senta em seu trono e determina o destino de cada indivíduo no ano que se inicia. Três livros são abertos no céu, um para os verdadeiramente justos, um para os verdadeiramente iní- quos e um para os que não se enquadram em nenhuma categoria. Se- gundo o costume, são instituídos dez dias de penitência, em que oram e realizam atos de arrependimento como jejuns e atos de caridade, de acordo com a tradição para assegurar que seus nomes sejam incluídos no livro dos justos que sobreviverão àquele ano, e que não sejam puni- dos por seus pecados. Há a saudação comum nesta época para a comu- nidade judaica: “Que sejas inscrito para um bom ano”. Como forma de demonstrar sua confiança na compaixão divina, os judeus vestem suas melhores roupas para as festividades. Na sinagoga, a cor predominante nas roupas dos fiéis e dos que assistem o serviço religioso é o branco. Sopra-se um chifre de carneiro (o shofar) que, de acordo com a tradi- ção, tem a intenção de “despertar os pecadores para o arrependimento e confundir satã, na acusação contra os fiéis”. Na celebração no lar, recebe destaque a ceia em que são servidos alimentos de significado es- pecial como a cabeça de algum animal ou peixe, que, conforme a sim- bologia, a pessoa que o consome seja uma cabeça e não uma cauda.

 

A linguagem do tempo na tradição cristã

O tempo sempre foi objeto de estudo em todas as épocas e em várias áreas de conhecimento, nos mitos, na ciência e na religião. Presente, passado e futuro foram questões abordadas nos aspectos cronológicos, existenciais, reais e imaginários. Por isso, o calendário constitui a base para não apenas se contar os dias e ter um certo controle sobre o tempo, mas também para marcar a passagem de tempos e eras. Conforme o teólogo metodista estadunidense James White, “o calendário constitui a base para a maior parte do culto cristão” (WHITE, p. 37). E por quê? Porque é na história que Deus se torna conhecido, pois sem o tempo não há como conhecer a Deus, e é por meio de eventos efetivos que acontecem no tempo histórico que ele se revela. Assim para as tradições cristãs o tempo é crucial para expressar e vivenciar sua fé. A salvação para o Cristianismo não é fala- da ou tratada em termos genéricos, mas a salvação realizada por meio de ações específicas de Deus em tempos e lugares definidos. Fala de eventos que são culminantes e que apontam para um final do tempo.

A centralidade do tempo na fé cristã se reflete em sua adoração, isto é, nas celebrações cristãs. Essa adoração – as celebrações – se estrutura com base em ritmos repetitivos da semana, do dia e do ano. Além disso, a adoração cristã reflete um ciclo do tempo de vida. A maneira como o tempo é usado por nós é uma boa indicação do que consideramos importante na vida. O uso do tempo não só mostra o que é importante para nós, mas também indica quem ou o que é mais significativo para nossa vida.

O tempo é considerado também uma linguagem de comunicação em nossa vida diária. A fé cristã baseia-se numa percepção humana natural do tempo como transmissor de significado ao tratar de situações que fazem parte do ciclo da vida em suas celebrações como: o nascimento (batismo), o crescimento (crisma, confirmações, profissão de fé), o amadurecimento (bênção matrimonial, casamento, bodas e bênção para residências, etc.) e a morte (velórios, funerais e sepultamentos), bem como as passagens e os ciclos relacionados ao calendário marcados por datas e períodos do ano litúrgico: fim e início do ano (Advento, Natal e Epifania), volta das férias escolares e do trabalho (Quaresma e Páscoa) e tempo da colheita (Primícias e Ação de Graças).

Assim, percebe-se uma necessidade por parte das pessoas em marcar os períodos do ciclo da vida e do tempo com a realização de rituais. Não só os rituais e as celebrações nas comunidades de fé, porém, rituais pessoais que marquem o cotidiano, seja em família, nas escolas, nos estádios esportivos, em repartições públicas, nas empresas ou em outros agrupamentos humanos. Isto tudo demonstra a necessidade do ser humano de marcar o tempo e de ir além dele, abrin do-se para uma transcendência.

 

Celebrar o Ano-Novo – bênção para um novo começo

O início do ano civil se tornou, de fato, o começo segundo o qual ritmamos a sucessão dos acontecimentos da nossa vida. Como podemos observar no começo desse texto, a despedida do ano anterior e a passagem do novo ano exercem um fascínio especial sobre as pessoas. Assim, ao invés de sermos influenciados pelos “ritos” da comercialização dessa data, podemos celebrá-la de forma que ofereça uma mensagem significativa para nós. Geralmente, essa época do ano é caracterizada pela reunião em família ao redor da mesa com um banquete ou uma ceia especial. Infelizmente, por conta do comércio, determinados produtos não podem faltar à mesa, devido ao marketing que obriga a população a consumi-los. Esse fator pode na verdade não provocar uma atmosfera de festa e celebração, mas criar um clima de insatisfação perante aqueles que organizaram esse evento. Com isso, o real sentido ou um sentido significativo para se celebrar o Ano-Novo acaba sendo sufocado pela comerciali zação desse rito importante.

Tradições antigas atribuem ao período de fim e começo de ano festividades em memória de personagens bíblicos ou não. Isso pode despertar lembranças e suscitar atenção bem maior que a simples vi- rada objetiva de uma página do calendário. Desse modo, o tempo não é visto como uma sucessão cíclica de acontecimentos e de estações, mas como uma ocasião sempre renovada para a irrupção da eternidade na história. No último dia do ano, 31 de dezembro, na tradição católica, comemora-se como o dia de São Silvestre, que foi um papa que teve um papel importante para a Igreja no ano 300 da Era Cristã, no tempo do governo do imperador Constantino, em que a fé cristã sai da clandestinidade e se torna religião oficial do império, surgindo a cristandade. No dia primeiro de janeiro, é comemorado a “Circuncisão e o nome de Jesus”. Celebrar a circuncisão de Jesus é a maneira de estabelecer uma conexão entre aquilo que se conhece por “Antiga Aliança” com a “Nova Aliança”, ou seja, é um sinal da participação da descendência de Abraão (Antiga Aliança) estabelecida por Deus e a promessa da continuidade através de uma outra aliança que não se extinguiria, agora em Jesus de Nazaré (Nova Aliança). E segundo o costume, a circuncisão é também o momento em que se dá o nome à criança. O que acontece com Jesus por seus pais José e Maria (ver Mateus 1,21; Lucas 2,21-24). Esse é o nome pelo qual as pessoas serão salvas.

Ao celebrarmos o Ano-Novo com a sugestão desses significados, poderemos estabelecer uma conexão com esse conteúdo e elaborar uma celebração ou liturgia que possa contemplá-lo.

Segue uma sugestão de celebração com uma ceia no estilo ágape, com indicações de como se pode realizá-la nas casas em família ou em nossas igrejas e comunidades de fé.

 

Celebração de Ano-Novo – Ceia Ágape

 Abertura

 Antes do horário da meia-noite, as pessoas presentes devem reunir-se ao redor de uma mesa – o que pode ser numa sala, salão ou até ao ar livre –, em cima da qual há pratos, talheres e tigelas com comida. No centro da mesa, há um pão caseiro grande coberto com uma toalha branca, uma jarra com algum suco de uma fruta típica da estação ou outra que seja característica de uma região e cálices que podem variar no seu tamanho, formato ou material: vidro, madeira ou acrílico.

Acolhida

A pessoa responsável pela condução da liturgia deve acolher os presentes de forma espontânea ou dizer breves palavras que recordem alguns fatos e experiências que marcaram o ano passado, principalmente em relação às pessoas presentes.

Oração

Uma prece espontânea ou a que segue

Deus de Amor, agradecemos pelo ano que terminou. E te pedimos que nos liberte de nossas distâncias de nós mesmos, do/a outro/a e da tua criação. Permite-nos o reencontro da tua face na face do/a nosso/a irmão/ã, nesse momento de encontro, festa e alegria. Por Jesus. Amém.

Cântico

Um canto que seja conhecido por todos

Palavra

 Leitura bíblica

(Ou outro texto: poesia, comentário que fale de um novo começo.)

🠊 AT: Deuteronômio 6; Josué 1,1-9; Salmo 23; Salmo 95

🠊 NT: Lucas 2,21-24; Apocalipse 3,7-13

Breve reflexão

(Pode ser feita pela própria pessoa que está conduzindo a liturgia ou outra previamente escolhida.)

Ágape

🠊 Partilha do pão – O pão é distribuído em pequenos pedaços entre todas as pessoas e comido. Após se pronuncia a se- guinte prece:

Bendito seja Deus, que da terra fez brotar o trigo e, dele, o pão, para saciar, em todos os tempos, a fome do povo. Dá-nos fome e sede de justiça e desejo de repartir o pão que é vida e solidariedade. Amém.

🠊 Partilha do cálice – O conteúdo da jarra é despejado nos cá- lices individuais. Então todos bebem e, após, se pronuncia a seguinte prece:

Bendito seja o Deus de toda criação, pelo fruto da terra que, depois de ser colhido em mutirão, hoje nos alegra e nos faz agradecer pela bênção da natureza. Amém.

🠊 Partilha da vida – Após a partilha, todos são convidados a se abraçar e desejar uma boa entrada de ano.

Bênção para a chegada do Ano-Novo

Os presentes formam um círculo ao redor da mesa ou fora dela.

O dirigente diz a seguinte bênção:

Que este ano, seja ele ensolarado ou nublado, permita a passagem dos raios da tua luz divina.

Que nossos passos sejam de fé, que nossos gestos sejam de paz, que nossas palavras sejam de amor.

Que a bênção de Deus esteja sobre você no começo desse novo ano. Amém.


Autor: Hebert Rodrigues de Souza

É pastor da Igreja Presbiteriana Independente – IPI, cursou Teologia na Facul- dade de Teologia da UMESP e fez mestrado no Programa de Pós-Gradução em Comunicação Social (UMESP). Atualmente está trabalhando na IPI de Vila Sa- brina, área norte da cidade de São Paulo.


Referências

 RAMOS, Luiz Carlos (Org.). Anuário Litúrgico. São Bernardo do Campo: Editeo, 2006.

BIANCHI, Enzo. Dar sentido ao tempo – as grandes festas cristãs. São Paulo: Loyola, 2007.

DICIONÁRIO DAS RELIGIÕES. Pensamento. São Paulo: Cultrix, 1988. GRÜN, Anselm. 50 rituais para a vida. Petrópolis: Vozes, 2010.

WHITE, James. Introdução ao Culto Cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1998.

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