| Leconário Comum | Lecionário Católico |
| Dt 11.18-21,26-28 Sl 31.1-5,19-24 Rm 1.16-17, 3.22b-28 (29-31) Mt 7.21-29 |
Ex 34,4b-6.8-9 Dn 3,52.53.54.55.56 (R. 52b) 2Cor 13,11-13 Jo 3,16-18 |
William Tavares, CEBI-BA
Há mistérios que a gente não resolve; apenas contempla. A festa da Santíssima Trindade talvez seja uma dessas janelas abertas para o infinito, onde a razão chega até a porta, mas quem entra é o coração. Durante muito tempo tentaram explicar Deus como quem desmonta uma máquina para entender suas peças. Mas Deus não parece funcionar como engrenagem. Talvez seja mais parecido com mesa posta, abraço demorado, roda de conversa onde ninguém quer ser maior que ninguém. Pai, Filho e Espírito: comunhão. Relação. Amor circulando sem possuir, sem prender, sem competir. E numa sociedade cansada de individualismos barulhentos, a Trindade aparece quase como uma provocação divina: ninguém se realiza sozinho.
A Revelação na Bíblia nos deixa sinais que nossa fé nasce e se expressa na relação com o Deus Uno e Trino. Ele se manifesta por palavras que revelam sua face amorosa. É o Deus da proximidade, caminhante com a humanidade e seu rosto é compaixão. A sua graça se apresenta em amor e comunhão na experiência viva da presença comunitária. As leitura da liturgia dessa festa nos deixa saber e sabor de convocação para viver a vocação ao encontro e a fraternidade… A imagem do Deus Trindade nos inspira relações de escuta e diálogo, partilha e amor.
O evangelho de João lembra algo desconcertante pela simplicidade: “Deus amou tanto o mundo…” Não amou pouco. Não amou alguns. Não amou os perfeitos. Amou o mundo. Esse mesmo mundo contraditório, ferido, apressado, capaz de construir hospitais e guerras na mesma semana. O amor de Deus não nasce porque merecemos; nasce porque Deus é amor. E talvez aí esteja a diferença entre a lógica divina e a nossa. Nós costumamos amar por seleção. Deus ama por transbordamento. Nós classificamos pessoas entre dignas e indignas; Deus insiste em enxergar filhos e filhas até onde nós já desistimos de olhar.
E o mais curioso é que Jesus não diz que veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Estranho, porque boa parte das religiões, às vezes, parece especializada justamente em condenar. Há cristãos que carregam mais pedras do que pão. Mais regras do que misericórdia. Mais medo do inferno do que encantamento pelo Reino. Talvez tenhamos transformado a fé em tribunal quando ela deveria ser hospital de campanha para os cansados da alma. O Cristo do evangelho não aponta o dedo; estende as mãos.
A Trindade também desmonta nossas fantasias de poder. O Pai não apaga o Filho. O Filho não sufoca o Espírito. O Espírito não compete com o Pai. Há unidade sem uniformidade. Diferença sem ruptura. Diversidade sem guerra. Quem sabe o grande problema do mundo não seja a diferença, mas a incapacidade de conviver com ela? Famílias rompidas, amizades desfeitas, povos em conflito, igrejas divididas… talvez tudo isso revele nossa dificuldade de compreender que amar não exige que o outro seja cópia de nós.
E então a liturgia deste domingo comunica uma espiritualidade bonita e exigente: fomos criados à imagem de um Deus-relacionamento. Talvez por isso ninguém sobreviva sem afeto, sem pertencimento, sem ternura. O ser humano pode até acumular bens, diplomas e seguidores nas redes sociais, mas continuará faminto se lhe faltar amor verdadeiro. Há vazios que dinheiro nenhum preenche. O coração humano parece ter sido feito em formato de encontro.
No fundo, celebrar a Santíssima Trindade talvez seja menos entender Deus e mais aprender com Ele. Aprender que viver é sair de si. Que fé sem amor vira fanatismo. Que espiritualidade sem compaixão vira vaidade religiosa. E que o céu começa toda vez que alguém rompe a lógica da indiferença para construir comunhão.
Talvez seja isso que Deus espera de nós: que no meio de um mundo tão fragmentado, sejamos pequenos reflexos da Trindade, gente capaz de acolher, repartir, perdoar e amar sem calcular demais. Porque, no fim das contas, o maior mistério não é que Deus seja Trindade. O maior mistério é que, mesmo conhecendo nossas sombras, ele, o Deus da vida e a mãe da esperança, continue acreditando na humanidade… Amém
