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Vinde Senhor Jesus! (Lucas 1,39-45) Marcel Domergue

Vinde Senhor Jesus! (Lucas 1
Vinde Senhor Jesus! (Lucas 1,39-45) Marcel Domergue
19 de dezembro de 2012 Centro de Estudos Bíblicos

Sacrifícios

Ficamos felizes por ouvir Deus dizer que não deseja os nossos sacrifícios (citação do Sl 40 na 2ª leitura). No Salmo 50 (7-14), ouvimos Deus declarar que não come a carne dos touros e que todos os animais da terra lhe pertencem. O antropólogo René Girard explica que, divididos por suas invejas e cobiças, os homens, para se reconciliarem, tomam uma vítima supostamente carregada de todas as violências do povo e que, sendo imolada, ela leva embora a violência toda cometida, tornando-se sagrada desde então. Diversos outros elementos se conjugam a esta perspectiva. Trata-se também de satisfazer e, portanto, de apaziguar a cólera de um Deus ultrajado. Acrescente-se, no caso de Israel, a vontade de instituir-se um rito que signifique que todas as riquezas naturais que nos alimentam nos são dadas por Deus.

Todos estes aspectos do sacrifício foram aplicados ao Cristo, mas valem apenas a título de metáforas. A Epístola aos Hebreus, frequentemente mal interpretada, explica que, com o Cristo, tudo o que se refere ao sacrifício muda de sentido. Em primeiro lugar, não se trata mais de oferecer alguma coisa, mas sim de oferecer-se a si próprio, de reconhecer que pertencemos à nossa origem, Deus. Além disso, não se trata mais de “o Pai acalmar o seu furor”, mas de amar até o fim, até o fim de si mesmo. Donde se conclui que o termo “sacrifício” é cheio de ambiguidades e que só podemos usá-lo com muitas precauções.

O verdadeiro sacrifício

No Antigo Testamento, é com muito trabalho que, aos poucos, este “sacrifício” vai perdendo o seu sentido arcaico para se tornar “sacrifício de louvor”. O Salmo 50 conclui assim os versículos sobre a recusa de Deus aos holocaustos: “quem por sacrifício me oferece a ação de graças, este me glorifica”. Deus dá, nós recebemos. O reconhecimento, portanto, é o verdadeiro sacrifício. Santo Agostinho escreve que “o verdadeiro sacrifício é toda a boa ação pela qual nos fazemos um só com Deus, em comunhão de amor”. Vê-se logo, portanto, que não se trata de causar sofrimento contra si mesmo nem despojar-se de qualquer coisa a não ser por amor; não se trata mais de comprar a boa vontade divina por algum mérito qualquer; nem tampouco de pagar um preço pelos nossos pecados. Tudo isto já nos foi dado e é por isso que o único sacrifício é a ação de graças.

Não é este o sacramento central da vida cristã? O sinal maior pelo qual significamos para nós e para os outros a obra de Deus entre nós? A Eucaristia, quer dizer, a Ação de Graças? Se tudo para nós se recapitula neste reconhecimento, se este reconhecimento, este agradecimento é a nossa atitude normal e constante para com Deus, se é este o conteúdo privilegiado de nossa oração, é porque é a expressão maior de um duplo movimento que exprime toda a nossa relação para com Deus: o nosso desejo por Ele e o dom de Si Próprio que Ele nos faz.

Maria e Isabel

O que encontramos no evangelho de hoje? Este jorrar de reconhecimento brotado desde o ventre de Isabel e a explosão do reconhecimento de Maria. Uma dupla ação de graças. É este o autêntico sacrifício. É duplo. Era preciso que se alegrassem juntas a mãe do Senhor e a mãe do servidor. A esta passagem do evangelho chamamos “visitação”. Além da visita que faz Maria a Isabel, temos também a visita de Deus. Estas duas mulheres representam a humanidade em seu acolhimento de Deus. Não vamos esquecer que nossa vida, toda a vida, depende deste acolhimento. Exatamente por isso, o nascimento é a razão da ação de graças destas duas mulheres.

Por que das mulheres? Temos também, com certeza, a ação de graças de Zacarias, o pai de João Batista; mas a mulher, nesta cultura, é o símbolo da abertura e do acolhimento. E, também, da vida: “Eva” significa “mãe dos viventes”. A gratidão das duas mulheres representa o reconhecimento de todos os que, desde o início da Bíblia, viveram a história da vinda de Deus aos homens: o texto da visitação é um tecido de referências ao Antigo Testamento, sobretudo o Magnificat (ausente de nossa leitura). O “sim” de Maria no “cumprimento das palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor” nos faz repensar a passagem já citada do Salmo 40, retomada na segunda leitura: “Eu vim para fazer a tua vontade.”

"Ampliar

Aprofunde a reflexão sobre O Magnificat com o livro "O CANTICO DA BEM-AVENTURADA", de Maria das Graças Vieira. Coleção A Palavra na Vida/268.  

Exegese e interpretação do cântico de Maria em Lucas 1,46-55 na perspectiva da libertação que se atualiza cada vez que o pão é partilhado, a justiça se realiza e o pobre encontra-se com o deus-libertador.