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Sínodo da Igreja Católica sobre a família é tentativa de olhar pastoral. Entrevista com o teólogo Cesar Kuzma

Sínodo da Igreja Católica sobre a família é tentativa de olhar pastoral. Entrevista com o teólogo Cesar Kuzma
Sínodo da Igreja Católica sobre a família é tentativa de olhar pastoral. Entrevista com o teólogo Cesar Kuzma
13 de maio de 2015 Centro de Estudos Bíblicos

“Não se quer mudar a doutrina, se quer sim ampliar a maneira como a Igreja a compreende, vendo a verdade revelada além do que se tem à frente. A intenção do Sínodo quer olhar o coração e não a lei. Com isso, propõe-se um olhar pastoral e não meramente doutrinário”, diz o teólogo.

“A grande novidade desta discussão sinodal sobre a família é que ela trata de um tema bem presente e bem próximo à vida eclesial e social das pessoas, sobretudo dos leigos, o que por si só já traz e gera uma grande expectativa”, avalia Cesar Kuzma em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail.

Ao comentar os dois questionários do Sínodo Extraordinário sobre a Família, o teólogo afirma que o primeiro, enviado em 2013, “foi seguramente mais direto e ousado em suas propostas. Ao mesmo tempo em que aludia uma determinada realidade, ele confrontava a Igreja em sua postura e já impunha uma tensão pastoral. Projetavam-se ali novas questões, novas leituras e uma abertura a alguns casos, também em revisão de pontos ainda polêmicos da relação da Igreja — enquanto instituição — com as famílias”.

O segundo, pontua, apresenta perguntas mais longas, com pressupostos “já definidos” e “impede um diálogo mais ousado e livre. (…) Como todo questionário, as perguntas já induzem uma resposta ou ao menos uma intenção”.

De modo geral os questionários apresentam uma “preocupação” com a realidade das famílias, “mas já se aponta para a responsabilidade destas no campo da missão específica, sobre a transmissão da fé e no assegurar da lei natural e da transmissão da vida”. Para o teólogo, as três partes do questionário, denominadas “o escutar, o olhar e o confrontar”, podem ser recolocadas e provocadas do seguinte modo, para “dar outro tom às respostas”: “O que e a quem escutar? O que e a quem olhar? O que e a quem confrontar?”.

Na entrevista a seguir, Kuzma argumenta a favor de algumas mudanças, como a permissão da comunhão para casais separados/divorciados e/ou recasados ou em segunda união, sugere novas discussões sobre a situação dos homoafetivos e alterações nos processos de nulidade matrimonial e segundo matrimônio. Entre os pontos abordados no Sínodo, o teólogo afirma que o “questionário não avançou nas discussões que dizem respeito à Encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, que toca em questões sérias e bem próximas à realidade das famílias e nas questões da sexualidade e do planejamento familiar”.

Cesar Kuzma é teólogo, casado, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. Atualmente realiza pesquisas em Teologia sistemática e pastoral e leciona na PUC-Rio.

Confira a entrevista:

IHU On-Line: Como o segundo questionário enviado pelo Vaticano por ocasião do "Sínodo dos Bispos: os desafios pastorais da família no contexto da evangelização", foi recebido pelas dioceses brasileiras e pelos leigos? Qual foi a reação dos leigos frente ao questionário?

Cesar Kuzma: Primeiramente, precisamos destacar a qualidade do processo que está sendo proposto pelo Papa Francisco, que é novo, para que na sequência possamos falar sobre o seu conteúdo. Vejamos. A grande novidade desta discussão sinodal sobre a família é que ela trata de um tema bem presente e bem próximo à vida eclesial e social das pessoas, sobretudo dos leigos, o que por si só já traz e gera uma grande expectativa.

Falar em família, hoje, implica muitas coisas, novas formas, novas abordagens, novas configurações, inclusões, ressentimentos, culpas, dores e alegrias, e por aí vai. As inúmeras situações que avançam sobre as famílias na atualidade e as novas formas com que se solidificam merecem atenção, e isso pelo simples fato de que esta discussão trata de pessoas, toca na sua dignidade, em seus direitos e em sua vocação última, que é a realização humana, plena.

Destaca-se, também, que estas pessoas, a maioria delas, não estão fora, mas dentro de nossas comunidades, são pessoas próximas a nós, logo as suas dores são também as nossas. É preciso ser sensível e não meramente doutrinal. Tais pessoas se aproximam de nossas comunidades em busca de respostas, de sentido e de alimento. Não podemos ignorar ou fechar os olhos e achar que elas não existem, ou pior, que estão totalmente erradas. Seria incoerente. Esta realidade está aí, está bem na nossa frente; está em nossas casas, fazem parte dela os nossos amigos e irmãos.

É aí que entra a intenção dos questionários do Sínodo, pois ouvir essas pessoas e suas realidades se tornou uma tarefa fundamental, e, além disso, descer até o lugar onde se encontram é um passo necessário para se comprometer, e faz-se isso com o olhar da ternura, com um sentimento gerado por Cristo e que nos aponta ao concreto do seu Reino: a vida de todos.

Sendo assim, o segundo questionário do Sínodo, como também o primeiro, teve esta intenção de ouvir, de saber a realidade, de dar voz às famílias e às comunidades, com a novidade que coloca as famílias no processo da evangelização, como responsáveis no testemunho. O questionário foi disponibilizado em várias instâncias e houve um pronunciamento da CNBB em torno dele, garantindo a sua legitimidade e importância. Nos lugares aonde ele chegou, por certo, encontrou posturas e reações, em várias frentes, o que é natural e importante para o que se quer. Enfatizo os “lugares aonde ele chegou” porque sabemos que ele não chegou a todos os lugares, infelizmente. Mas aí entram questões de comunicações e estruturas eclesiais, também de vontades e interesses.

IHU On-Line – Como o segundo questionário enviado pelo Vaticano por ocasião do "Sínodo dos Bispos: os desafios pastorais da família no contexto da evangelização", foi recebido pelas dioceses brasileiras e pelos leigos? Qual foi a reação dos leigos frente ao questionário?

Cesar Kuzma – Primeiramente, precisamos destacar a qualidade do processo que está sendo proposto pelo Papa Francisco, que é novo, para que na sequência possamos falar sobre o seu conteúdo. Vejamos. A grande novidade desta discussão sinodal sobre a família é que ela trata de um tema bem presente e bem próximo à vida eclesial e social das pessoas, sobretudo dos leigos, o que por si só já traz e gera uma grande expectativa.

Falar em família, hoje, implica muitas coisas, novas formas, novas abordagens, novas configurações, inclusões, ressentimentos, culpas, dores e alegrias, e por aí vai. As inúmeras situações que avançam sobre as famílias na atualidade e as novas formas com que se solidificam merecem atenção, e isso pelo simples fato de que esta discussão trata de pessoas, toca na sua dignidade, em seus direitos e em sua vocação última, que é a realização humana, plena.

Destaca-se, também, que estas pessoas, a maioria delas, não estão fora, mas dentro de nossas comunidades, são pessoas próximas a nós, logo as suas dores são também as nossas. É preciso ser sensível e não meramente doutrinal. Tais pessoas se aproximam de nossas comunidades em busca de respostas, de sentido e de alimento. Não podemos ignorar ou fechar os olhos e achar que elas não existem, ou pior, que estão totalmente erradas. Seria incoerente. Esta realidade está aí, está bem na nossa frente; está em nossas casas, fazem parte dela os nossos amigos e irmãos.

É aí que entra a intenção dos questionários do Sínodo, pois ouvir essas pessoas e suas realidades se tornou uma tarefa fundamental, e, além disso, descer até o lugar onde se encontram é um passo necessário para se comprometer, e faz-se isso com o olhar da ternura, com um sentimento gerado por Cristo e que nos aponta ao concreto do seu Reino: a vida de todos.

Sendo assim, o segundo questionário do Sínodo, como também o primeiro, teve esta intenção de ouvir, de saber a realidade, de dar voz às famílias e às comunidades, com a novidade que coloca as famílias no processo da evangelização, como responsáveis no testemunho. O questionário foi disponibilizado em várias instâncias e houve um pronunciamento da CNBB em torno dele, garantindo a sua legitimidade e importância. Nos lugares aonde ele chegou, por certo, encontrou posturas e reações, em várias frentes, o que é natural e importante para o que se quer. Enfatizo os “lugares aonde ele chegou” porque sabemos que ele não chegou a todos os lugares, infelizmente. Mas aí entram questões de comunicações e estruturas eclesiais, também de vontades e interesses.

Confira a entrevista completa em:  Sínodo: a tentativa de um olhar pastoral sobre as famílias. Entrevista especial com Cesar Kuzma

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