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Pernilongo comum pode fazer parte do ciclo de transmissão do Zika vírus

Pernilongo comum pode fazer parte do ciclo de transmissão do Zika vírus
10 de agosto de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Pernilongo comum pode fazer parte do ciclo de transmissão do Zika vírus

Entrevista especial com Constância Ayres Lopes

"Nós mostramos em laboratório que o Culex quinquefasciatus (muriçoca ou pernilongo) cumpre estas duas etapas, ou seja, é possível infectá-lo artificialmente em laboratório e este mosquito consegue replicar o vírus na glândula salivar e liberar o vírus na saliva”, informa a bióloga.

"Coletamos amostras de mosquitos nas casas de pacientes com Zika e conseguimos detectar o vírus em algumas amostras do pernilongo, o que demonstra que ele pode fazer parte do ciclo de transmissão deste vírus”, diz Constância Ayres Lopes, integrante da equipe do Instituto Aggeu Magalhães – IAM, da Fiocruz em Recife, Pernambuco, que classificou o pernilongo comum, também conhecido como muriçoca (Culex quinquefasciatus), como um dos vetores que tem transmitido o Zika vírus no Brasil.

Apesar dos testes já realizados, Constância frisa, na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, que ainda não se sabe "qual a importância do Culex na epidemia de Zika, ou seja, se ele é um vetor importante ou não”. Caso seja confirmado que o Culex é um vetor primário, diz, "estratégias de controle deverão ser criadas para combater esta espécie também, e não só o Aedes aegypti”.

Inclusive, pontua, "os países que não têm o Aedes aegypti e que acreditavam estar livres do Zika, deverão se preocupar também, pois muito provavelmente nesses países tem o Culex”.

De acordo com a bióloga, no Brasil, o Culex "não é combatido porque não é um vetor importante”. Apenas em Recife há o controle dessa espécie, porque lá "ele é vetor da Wuchereria bancrofti, um verme que causa a filariose”, também conhecida popularmente como elefantíase, e que causa inchaço e engrossamento da pele e tecidos subjacentes.

As evidências sobre a relação do pernilongo comum com o Zika vírus foram divulgadas no início do mês passado, mas segundo a pesquisadora, por enquanto não há novas informações a respeito e o Culex está sendo analisado em outras cidades do país.

Constância Ayres Lopes é graduada em Ciências Biológicas, com mestrado em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e doutorado em Biologia Celular e Molecular pela Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz. É pesquisadora Titular em Saúde Pública do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fiocruz-PE. Atualmente ocupa o cargo de Vice-diretora de Ensino e Informação na Fiocruz-PE.

Confira a entrevista.

 
IHU On-Line – Como foi feita a descoberta de que o mosquito Culex quinquefasciatus, conhecido como pernilongo doméstico, também pode transmitir o vírus que causa microcefalia? O que faz com que o pernilongo doméstico também possa transmitir o Zika vírus?

Constância Ayres Lopes – Para incriminar uma espécie como vetor é necessário cumprir algumas etapas: primeiro, provar que aquela espécie é suscetível à infecção pelo patógeno; segundo, provar que ela pode transmitir aquele patógeno. Essas duas são etapas experimentais feitas em laboratório através de alimentação sanguínea artificial com o vírus. São estudos de competência vetorial, que demonstram que o mosquito se infecta e permite a replicação do vírus em seu interior até atingir a glândula salivar, de onde ele é transmitido para outro hospedeiro. Nós mostramos em laboratório que o Culex quinquefasciatus (muriçoca ou pernilongo) cumpre estas duas etapas, ou seja, é possível infectá-lo artificialmente em laboratório e este mosquito consegue replicar o vírus na glândula salivar e liberar o vírus na saliva.

Depois, em terceiro, é preciso mostrar que esta espécie de mosquito se alimenta daquele hospedeiro (no caso, o homem). Isso não precisamos provar, pois todo mundo já sabe e já está bem estabelecido na literatura a preferência do mosquito pelo homem. Por último é necessário mostrar que, na natureza, o mosquito se encontra naturalmente infectado. Então coletamos amostras de mosquitos nas casas de pacientes com Zika e conseguimos detectar o vírus em algumas amostras do pernilongo, o que demonstra que ele pode fazer parte do ciclo de transmissão deste vírus.

IHU On-Line – A partir desta descoberta, o que muda em relação ao modo como os cientistas estavam trabalhando em relação ao Zika vírus até o momento?

Constância Ayres Lopes – Não sabemos ainda qual a importância do Culex na epidemia de Zika, ou seja, se ele é um vetor importante ou não. Caso se comprove que ele é um vetor primário, estratégias de controle deverão ser criadas para combater esta espécie também, e não só o Aedes aegypti.

IHU On-Line – Quais os riscos de aumentar a transmissão de Zika, dado que o vírus pode ser transmitido pelo pernilongo comum?

Constância Ayres Lopes – Se ele é um vetor importante, a transmissão já devia estar acontecendo com o envolvimento desta espécie, então não muda muito daqui para frente. O que deverá mudar são as formas de controle. Outra coisa importante é que os países que não têm o Aedes aegypti e que acreditavam estar livres do Zika deverão se preocupar também, pois muito provavelmente nesses países tem o Culex.

IHU On-Line – Segundo notícias da imprensa, foram feitos testes com o pernilongo comum encontrado na região de Pernambuco. Como está sendo desenvolvida a pesquisa com o mosquito Culex neste momento?

Constância Ayres Lopes – Sim, estamos analisando Culex de outras cidades do país.

IHU On-Line – Recentemente você declarou que não existem estratégias de controle do Culex no Brasil. Como se tem lidado com o Culex no país? Dado que se trata de um pernilongo comum, é normal que não tenha havido uma estratégia de controle até o momento?

Constância Ayres Lopes – No Brasil ele não é combatido porque não é um vetor importante, apenas em Recife ele é vetor da Wuchereria bancrofti, um verme que causa a filariose, uma doença que no Brasil só existe em Recife atualmente. Então temos um programa para o controle desta espécie nas áreas de transmissão. Mas em todo o resto do país não há nada para seu controle. Em outros países, como os EUA, o Culex é vetor do vírus do oeste do Nilo (West Nile virus), então ele é fortemente combatido.

IHU On-Line – Dada essa nova descoberta, o que deve mudar nas medidas de controle do Zika vírus, por exemplo? Já é possível vislumbrar o que seriam medidas adequadas e efetivas para enfrentar as doenças vetoriais no país?

Constância Ayres Lopes – Saneamento básico é fundamental, e formas de controle que visem também a muriçoca (pernilongo), que seria o tratamento de criadouros com água poluída como fossas e esgotos. A prevenção da picada também é importante principalmente pelas gestantes, e isso deverá ser feito durante a noite já que o pernilongo pica à noite. Isso poderia ser feito pelo uso de mosquiteiros, por exemplo, ou pelo uso de repelentes na hora de dormir.

*Por Patricia Fachin, do IHU