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Pedro Casaldáliga, o eterno lutador

Pedro Casaldáliga, o eterno lutador
16 de fevereiro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações
Confira o texto de João Pedro Stedile, integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobre os 90 anos de Pedro Casadáliga.

Boa leitura!

Pedro, Profeta e Poeta.

Em Homenagem aos 90 anos (16 de fevereiro de 2018) do mestre de todos nós.

Quem poderia imaginar um catalão, sair de sua terra, nunca mais voltar e apaixonar-se pelos povos indígenas da América Latina? Quem poderia imaginar em plena ditadura empresarial-militar, nos confins da Amazônia, um homem franzino, usar a fé e a coragem para denunciar e exigir justiça, em defesa dos trabalhadores, posseiros, povos indígenas e camponeses, humilhados e explorados?

Quem poderia imaginar , que jurado de morte pelos latifundiários da região, em 1976, foram à Delegacia interceder por duas mulheres pobres que estavam sendo torturadas. E um dos policiais, confundiu a aparência de bispo e assassinou seu colega, padre João Bosco Burnier, em seu lugar?

Quem poderia imaginar, que um homem de igreja relutasse até os últimos instantes por que
não queria ser nomeado bispo, até ser convencido pelo seu melhor amigo, o bispo Dom Tomas Balduino?

Quem poderia imaginar, que quando poucos podiam, ele se engajou desde a década de
setenta em defesa da causa dos povos nicaraguense, cubano, guatemalteco..

Quem poderia imaginar que esse homem, além de pastor e profeta, era um grande poeta?
Usou as letras e a força das palavras, para denunciar o injusto, solidarizar-se com os
trabalhadores e pregar as mudanças. Com sua vocação literária, ajudou a escrever a Missa da terra sem males, a Missa dos quilombos.. cantada por nosso querido Miltom Nascimento e outros músicos. E escreveu centenas de poemas, que expressam a linguagem da alma e do
coração.

Quem poderia imaginar, que apesar de viver no longínquo São Felix do Araguaia, e das
dificuldades de comunicação da época, contribuiu decisivamente para articular e fundar,
primeiro, o Conselho Missionário Indígena (CIMI), na CNBB, para defender os povos indígenas. E depois a Comissão Pastoral da Terra (CPT), como um serviço ecumênico dos cristãos em apoio à organização dos camponeses brasileiros?

Quem poderia imaginar que um bispo brasileiro, com todo seu poder e influencia, preferisse
viver como pobre, entre os pobres, com suas sandálias havaianas e sua sabedoria de
verdadeiro mestre?

Quem poderia imaginar sua coragem, de ir a Roma e dizer umas verdades para o todo
poderoso cardeal Ratzinger? Pedro foi um defensor e praticante do ecumenismo, de todas as práticas e crenças religiosas, de um Deus-pai- mae-irmão, de todos e todas, que aparece em diferentes formas e práticas. Às vezes, até nas manifestações da natureza e sobretudo na voz do povo!

Quem poderia imaginar, que apesar de conviver muitos anos com seu “primo” parkison, como o chama, nunca desanimou , recusando-se a mudar para outros centros com maior atenção médica.

Pedro tornou-se um grande brasileiro e latino-americano. Um exemplo de luta, dignidade e
coerência. É nosso orgulho , dos povos indígenas, dos camponeses, dos pobres e de todas as
igrejas. Com seus noventa anos de corajosa teimosia, palavra, que gosta muito de usar.
Certa vez disse aos jornalistas da imprensa burguesa, que criticavam nossas ocupações de
terra, “Se o MST não existisse teríamos que criá-lo!”

O MST se orgulha de seu carinho e agradece seu exemplo!

Conheci Dom Pedro numa ocupação urbana, Vila Santo Operário, em Canoas-RS, nos idos de 1979, junto com o Irmão Antonio Cecchin. Cultivo desde então, admiração e amizade. Ele esteve em muitas atividades do MST, sempre nos ajudou com sua presença, reflexões, escritos e sobretudo seu exemplo. Foi um dos privilégios que a vida me deu.

Fonte: Texto de João Pedro Stedile, publicado em ALC – Agência Latino-americana e Caribenha de Comunicação, 14/02/2018.