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O movimento da fé e o imobilismo das certezas

O movimento da fé e o imobilismo das certezas
8 de janeiro de 2020 Comunicação

por Marcelo Barros*

Nesta festa da Epifania ou como o povo chama “festa dos reis”, o evangelho (Mt 1, 1- 12) nos recorda a vinda dos magos a Belém para homenagear Jesus recém-nascido. No tempo do evangelho, se chamavam magos os sacerdotes da antiga religião persa. E o povo da Bíblia os via como gente não recomendável (o contrário de santos). Hoje, a tradição fala em “santos reis magos”. Conforme Mateus, os magos são os primeiros a adorar Jesus.

O evangelho não diz quantos eram. A tradição os coloca como três. Pinta um deles como negro e uma tradição oriental estampava um deles como sendo uma jovem mulher. Assim, se mostra a universalidade desse encontro macro-ecumênico: Jesus menino e os magos que se aventuram por caminhos desconhecidos, seguindo uma estrela.

É comum padres e pastores lerem esse evangelho (Mt 2, 1 – 12) de forma inclusiva (trazer os outros para nós), etnocêntrica e dogmática. Conforme essa leitura, os magos teriam vindo de longe para adorar a Jesus, portanto para ser cristãos. Dizem que o Cristianismo é uma religião universal, aberta a todos e acolhe a todos mas para ser cristãos. Ao contrário, o evangelho diz que depois da visita a Jesus, os magos voltaram a seus países, portanto a suas culturas e religiões (Mt 2, 11- 12).

Uma leitura mais profunda do texto de Mateus nos leva a uma interpretação mais aberta e pluralista. A acolhida de Jesus é abertura ao outro. Belém e o presépio se tornam lugares que simbolizam um encontro de culturas e de religiões e não apenas o outro que entra na nossa.

A história começa dizendo: “Tendo Jesus nascido em Belém, nos dias do rei Herodes, magos vieram do Oriente e perguntavam: Onde está o rei dos judaítas que acaba de nascer. Vimos sua estrela no Oriente e viemos prestar-lhe homenagens”. Para o evangelho, o povo é Israel (assim Mateus cita Miqueias no verso 6). E judeu é quem mora na Judeia. Judaíta (no grego Ioudaios), o mesmo termo usado no quarto evangelho, é o judeu que se coloca como pertencente ao império e pensa a partir do império. São os judeus de Jerusalém que estão sob o domínio de Herodes, inclusive os sacerdotes que o aconselham. É a religião a serviço do poder político. Os magos vêm do Oriente buscando outro tipo de rei. O título “rei dos judaítas” é como um título político do Messias.

O evangelho mostra um contraste violento entre os magos que se movimentam, se aventuram e buscam e, do outro lado, os religiosos que são fixos na capital do poder e apenas consultam as escrituras. Sabem das coisas porque leem, mas sem experimentar nem viver. Hoje ainda, temos esses dois tipos de pessoas: as que fazem o caminho da fé no meio das dúvidas, das crises e das buscas e outro tipo, as que se sentam em cima das certezas, dos dogmas e dos costumes. A história dos magos é contada para avivar em nós o chamado a viver a fé como aventura nômade… caminhada.

Nesse caminho, as instituições religiosas funcionam como pousadas e estalagens. Às vezes, cômodas ou às vezes muito incômodas. Nas pousadas ou hotéis que são as instituições religiosas, muita gente se acomoda, se torna “importante” e desiste de caminhar. Manter-se na estrada implica aceitar ser pequenino, desprotegido e quase sempre marginal… Nem todo mundo topa isso. Conforme os evangelhos, a Igreja é assembleia (Igreja) e não templo ou em si religião. O templo e os elementos religiosos podem ser expressão, mas serão sempre pousadas provisórias do caminho. Este é guiado pela estrela e não pela pousada.

Cada um de nós vive uma busca interior. Uns com intensidade e coragem. Outros deixam a busca meio adormecida e se acomodam no ponto já encontrado. Vivem a banalidade do dia a dia… sem ousar novas interrogações. Alguns nem percebem mais que têm essa busca interior e ela é quem dá sentido à vida. Deus chamou os magos para caminhar, não na direção de algum centro de peregrinação importante ou de uma religião, mas de uma aldeiazinha chamada Belém. No meio do caminho, os magos se perderam. Acharam que deveriam procurar indo ao centro do poder religioso e político. Esse contato com Herodes e com os sacerdotes só deu problema.

Eles acabaram involuntariamente provocando o massacre dos inocentes e a perseguição de Herodes ao menino Jesus. Os sacerdotes da religião correta sabiam a verdade – interpretaram corretamente a profecia – mas isso não os levou a Deus. Os pagãos que não tinham Bíblia e não sabiam nada da verdadeira fé, foram adorar e reconheceram em uma criança pobre a presença divina. É verdade que o texto diz que a estrela levou os magos a Jerusalém, mas depois os leva a Belém.

Deus se encontra na casa da periferia, na gruta que não tem portas nem muros. Adorar é admirar-se, é reconhecer o divino no humano, em todo ser humano, mas especialmente no mais pequenino e pobre. O papa Paulo VI encerrou o Concilio afirmando: “Para se encontrar a Deus, é preciso encontrar o ser humano”.

Publicado originalmente no blog do autor.