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‘O fogo que destrói a Amazônia não é o do Evangelho’, diz papa em abertura do Sínodo

‘O fogo que destrói a Amazônia não é o do Evangelho’, diz papa em abertura do Sínodo
7 de outubro de 2019 CEBI Secretaria de Publicações

por Edison Veiga via Terra*

Há grande expectativa sobre debates, principalmente por conta da crise climática e de recentes declarações de Bolsonaro sobre a Amazônia, que repercutiram mal no exterior; maior delegação presente é a brasileira

Com presença de grupos indígenas brasileiros, a missa deste domingo na Basílica de São Pedro, no Vaticano, foi especial: o papa Francisco abriu oficialmente o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia. A cerimônia começou pontualmente às 10 horas deste domingo, 6, no horário de Roma.

“Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazônia, para que não se apague o fogo da missão. O fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome. É fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora. Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo. Contudo quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos. O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros. Pelo contrário, o fogo devorador alastra quando se quer fazer triunfar apenas as próprias ideias, formar o próprio grupo, queimar as diferenças para homogeneizar tudo e todos. Reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade”, disse o papa.

Em sua homilia, o papa acolheu os bispos sinodais e falou sobre a importância de “caminhar juntos”, citando o apóstolo Paulo. “Somos bispos porque recebemos um dom de Deus. Recebemos um dom para sermos dons. Um dom não se compra, não se troca e não se vende. Recebe-se e se dá de presente”, disse, falando sobre a importância de que os religiosos sejam pastores, e não funcionários. “Dom recebido é para servir.” A cerimônia contou com leituras em português e espanhol, idiomas falados nos países com territórios amazônicos.

Dos cerca de 250 convocados pelo papa para participar do Sínodo, 58 são brasileiros – é a maior delegação. O relator-geral do Sínodo é o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). O encontro, que ocorre deste domingo até o dia 27, deve tratar de temas sociais, ambientais e religiosos dos nove países que têm territórios na Amazônia. Além do Brasil, são Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.

Papa Francisco também lembrou daqueles que foram mortos em lutas e missões na região amazônica. “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Muitos irmãos e irmãs gastaram a sua vida na Amazônia. Permiti que repita as palavras do nosso amado Cardeal Hummes: quando fores àquelas pequenas cidades da Amazónia, vai aos cemitérios procurar o túmulo dos missionários. Um gesto da Igreja por aqueles que gastaram a vida na Amazónia. E depois, com um pouco de astúcia, disse ao Papa: «Não se esqueça deles. Merecem ser canonizados”. Por eles, pelos que agora estão a dar a vida, pelos outros que lá gastaram a própria vida, com eles, caminhemos juntos”, afirmou Francisco.

Entre os participantes estão religiosos como bispos, padres e freiras, mas também leigos convidados – cientistas e pessoas ligadas a Organização das Nações Unidas (ONU). A expectativa é grande sobre os debates, principalmente por conta da crise climática contemporânea e de recentes declarações do presidente brasileiro Jair Bolsonaro sobre problemas ambientais na Amazônia, que repercutiram mal no exterior.

Um dos cientistas que participam do evento é o climatologista brasileiro Carlos Nobre, que integrou a equipe que venceu o Nobel da Paz em 2007 e é um dos mais renomados especialistas do mundo em sua área. Nobre é do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Em conversa com a reportagem, ele avaliou que o Sínodo mostra que a Amazônia “tornou-se um assunto de preocupação mundial”. “Ainda que não tenha sido planejado para tanto, o Sínodo acontece num momento no qual os desmatamentos e queimadas vêm aumentando perigosamente e a discussão vem recebendo grande atenção”, disse ele ao Estado. “O encontro permitirá que se discuta novos modelos de desenvolvimento para a Amazônia, uma bioeconomia de floresta em pé e com o empoderamento de suas populações.”

Em conversa com o Estado, o padre jesuíta norte-americano James Martin, consultor do Vaticano, definiu o Sínodo como “um tempo para a Igreja se reunir e meditar sobre os muitos desafios que enfrenta, não apenas em termos de meio ambiente”. “Mas também como ajudar a Igreja a alcançar pessoas em lugares que muitas vezes não são servidos por padres e paróquias”, comentou ele. “E a maneira como essa região responde a essas perguntas ajudará outras áreas a enfrentar seus próprios problemas através desse importantes modo de discernimento.”

“O papa Francisco convocou um Sínodo sobre a Amazônia porque essa região merece um Sínodo“, afirmou ele.

Segundo o Instrumento de Trabalho, o documento divulgado anteriormente para nortear as discussões do Sínodo, os temas que devem ser debatidos vão desde a situação das comunidades indígenas e ribeirinhas até a exploração internacional dos recursos naturais da região. Os bispos também vão discutir a violência, o narcotráfico e a exploração sexual que vitimiza os povos locais, as práticas de extrativismo ilegal, o desmatamento, a poluição dos rios e as ameaças à biodiversidade, a crise climática global, os danos possivelmente irreversíveis da floresta e o posicionamento de governos quanto a projetos econômicos prejudiciais à natureza.

Publicado originalmente no site do portal Terra.

 

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