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Música de resistência: Deus é mulher

Música de resistência: Deus é mulher
21 de junho de 2018 Centro de Estudos Bíblicos
foto de Larissa Zaidan

VICE entrevista Elza Soares.

Ela fala sobre seu novo disco, ‘Deus É Mulher’, feminismo, preconceito e rock.

Elza Soares sai do quarto de hotel como uma entidade, vestida de branco da cabeça aos pés para dar entrevista e falar sobre o disco que lança nessa sexta (18), Deus É Mulher. Não lembra nem um pouco aquela cantora cuja biografia é extremamente comovente. Nascida numa comunidade do Rio de Janeiro, foi obrigada a se casar aos 11 anos, pariu aos 12 e passou muita dificuldade durante a vida.

Tudo sempre esteve concentrado na garganta de Elza: da potência à superação. Assim como no disco anterior, A Mulher do Fim do Mundo (2015), ela mais uma vez interpreta letras pesadas que abordam feminismo, sexo (“Sexo tá aí. É nosso. Precisamos dele”, explicou durante a conversa) e religião. “Exu nas escolas / Exu no recreio / Não é show da Xuxa / Exu brasileiro”, canta na segunda faixa, “Exu nas Escolas“.

A produção do álbum, que sai pela Deck, é novamente assinada por Guilherme Kastrup, respaldada pelos músicos Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci com Mariá Portugal (bateria, percussão e MPC) e Maria Beraldo (clarinete e clarone) na banda.

Tulipa Ruiz assina a faixa “Banho”, cuja letra viaja por um corpo de mulher. “Misturo sólidos com os meus líquidos / Dissolvo pranto com a minha baba / Quando tá seco, logo umedeço / Eu não obedeço porque sou molhada.”

Abaixo, leia nossa entrevista com Elza Soares.

Noisey: Quando ouvi Deus É Mulher, pensei: Elza Soares está rock. Você concorda?

Elza Soares: Eu já nasci rock. Eu sempre fui roqueira demais. Pra quem convivia com Lobão, Cazuza, com os Titãs. Tem que ser roqueira mesmo. O samba dentro do rock. Ou o rock dentro do samba. Uma coisa assim.

O disco novo tem política, feminismo, sexo, religião. Você acha que o Brasil está num momento em que os artistas precisam se posicionar politicamente na arte que fazem?

A gente precisa disso, a gente precisa se posicionar. Já temos o privilégio de ganhar um microfone. Na música, precisamos ter essa postura de fortaleza.

Minha vida é feminina, feminista. Já nasci nisso. Me botaram nesse país, num Brasil que é o país mais preconceituoso do mundo.

Sua história de vida é muito intensa. As pessoas sempre falaram e ainda falam sobre quão forte você é. Em “Dentro de Cada um” você canta que “a mulher dentro de cada um não quer mais silêncio”. Em que momento da vida você se entendeu feminista?

Não foi agora. Eu já nasci isso, cara. A minha vida já é uma vida de repressão, uma vida dura, de “meu Deus, e agora, que que eu faço? Meu Deus, cadê você, pra onde vou?”. Entendeu? Como eu posso criar filhos tão menina? Como eu posso ter uma mãe tão sofrida? Minha vida é feminina, feminista. Já nasci nisso. Me botaram nesse país, num Brasil que é o país mais preconceituoso do mundo.

Eu pensava, na minha santa ignorância, que era a Alemanha, que a Europa era mais preconceituosa, mas o Brasil não. No Brasil não tinha preconceito. Éramos tão negros. Como é que vai ter tanto preconceito? Aí depois você descobre que não é mentira. Aqui é o maior preconceito. Você está dentro de um país preconceituoso. Você nasceu com uma missão, de gritar.

Eu grito uma música, a Beyoncé grita outra lá. Na minha época, eu gritava aqui e a Nina Simone não podia me responder.

Você acha que estamos caminhando prum Brasil melhor em termos de LGBTfobia, racismo?

Acho que hoje estamos gritando mais, falando mais. Eu venho de uma época de rádio, de caixinha de rádio. A comunicação era pouca. E mesmo que eu gritasse tanto, como sempre fiz, acho que o meu grito saía espremido. Ele não tinha eco. Ele não tinha uma abertura muito grande. Não tinha por onde sair. Mas hoje com a internet e tanta coisa moderna, você grita aqui e nos Estados Unidos eles entendem. Eu grito uma música, a Beyoncé grita outra lá. Na minha época, eu gritava aqui e a Nina Simone não podia me responder. Eu gritava aqui e a Ella Fitzgerald não podia me responder. Até que nos encontramos na Itália, aquelas duas negras maravilhosas. Eu tive de substituí-la. Então, eu via duas mulheres pretas, que coisa boa, né. Era um susto. “Meu Deus, olha eu e ela.” Ella e Elza, dois nomes juntos. Aí você começa a ver que o mundo tá aí, aberto. Preciso trilhar esse caminho que tá aí.

Os meus médicos, que conheci quando criança, eram os médicos de terreiros. Eram meus pais de santo, era minha religião. Era aquela religião que pegava uma criança, num tem doutor, leva pra uma benzedeira.

“Exu nas Escolas” é uma das músicas mais fortes do álbum. Você acha que essa música pode incomodar?

Ela veio pra incomodar. Ela veio pra dizer a existência dela. Ela foi roubada, calaram esse trabalho. Eu estava falando com o Bial [na noite anterior à entrevista, Elza esteve no programa de Pedro Bial]: os meus médicos, que conheci quando criança, eram os médicos de terreiros. Eram meus pais de santo, era minha religião. Era aquela religião que pegava uma criança, num tem doutor, leva pra uma benzedeira. Não tem doutor pra dar remédio, vou levar e vão te dar um chá de folhas. Eu fui criada com folhas, com matos. Tudo isso veio da cultura negra, africana, religiosa. Imagina você eu agora negar essa existência, renegar. Loucura. Ela existe. Ela me curou. Ela me fez gente, me fez mulher.

O Guilherme Kastrup, que produziu A Mulher do Fim do Mundo e Deus É Mulher, disse numa entrevista que quando vocês caíram na estrada pra fazer shows, o público era muito jovem, 19, 20 anos. Por que sua música dialoga com a geração mais nova hoje?

A linguagem. Acho que estamos falando a mesma língua. E essa garotada é muito inteligente. Ela precisa dessa comunicação, precisa saber o que você tá dizendo. Ela não quer falar besteira. Nesse trabalho, nos preocupamos muito com o que vai ser dito. São as letras, são letras boas, letras fortes. Tem o Kiko Dinucci aí com “Exu nas Escolas”, que é forte. E acho que a garotada se identificou muito com A Mulher do Fim do Mundo, que era um trabalho muito forte, dark, aquela coisa: “Meu Deus, mulher do fim do mundo”.

Os dois discos têm muitas coisas em comum. Esse ar soturno, carregado. Pegando A Bossa Negra, seu segundo LP como exemplo, é muito, muito diferente, mas ainda é a Elza. Como você vê essa transição?

São tantas Elzas. Não sei dizer qual é a Elza, mas todas elas têm uma missão muito forte, desde Se Acaso você Chegasse, desde A Bossa Negra. Ela vem gritando, abrindo caminhos por aí.

Notei vários trechos sexy, como a letra de “Banho” e de “Eu Quero Comer Você”. Sempre foi natural ser uma mulher que fala e canta sobre sexo?

Lógico. Sexo existe. Sexo tá aí. É nosso. Precisamos dele. Precisamos falar nele, falar muito. Muito, muito. Eu quero comer você, gente.

Um dos grandes lances do seu timbre de voz é a roquidão. Sempre me pergunto: como Elza Soares cuida da própria voz?

Coitada da minha garganta, eu cuido deixando ela sossegada. Converso com ela: “Calma, fica bonitinha”. Vou ao médico, dou uma olhada em como ela tá se portando, se ela tá sendo linda, rosada, maravilhosa. Não castigo com cigarro porque acho um crime castigar minha garganta. Não castigo com bebida alcoólica, que eu acho um crime. Deus me deu esse presente. É um presente pelo qual tenho muito carinho.
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[Nesse momento, Pedro Loureiro, empresário de Elza, fala: “Conta o que o médico disse na sua última consulta da garganta”.]

Ele falou que é uma garganta tão limpa, tão rosada, que assusta. Que é uma garganta de 20, 30 e poucos anos.

Mas você faz alguma coisa, tipo comer bala de gengibre?

Não. Até esqueço. Não faço nada. Esqueço até de tomar água.

Qual é a sua música preferida do disco?

Ainda não sei, cara. A gente tá com “Banho”, que acho uma coisa louca, muito maravilhosa. Mas ainda não sei. “Dentro de Cada um” eu acho foda. “A mulher dentro de cada um não quer mais silêncio.” Isso é uma coisa muito forte.

Entrevista por Débora Lopes, fotos de capa por Larissa Zaidan. Publicado por VICE Brasil.