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Liberdade religiosa na perspectiva Islâmica

Liberdade religiosa na perspectiva Islâmica

Dentro da concepção islâmica, a humanidade descende de um mesmo pai e de uma mesma mãe: Adão e Eva. Portanto, somos todos irmãos na humanidade. Não fazemos distinção alguma quanto à cor da pele, se é homem ou mulher, se é pobre ou rico, de que etnia pertence, etc.
 
Para nós, muçulmanos, Deus, o Altíssimo, ao criar o ser humano o dotou de razão e lhe concedeu o livre-arbítrio. Mas Ele não o deixou sem rumo, perdido. Ao contrário, indicou o caminho que, se fosse seguido pelo homem, este obteria o êxito nesta vida e na outra. E que caminho é este? Agir de acordo com o que agrada a Deus e se afastar de tudo aquilo que O desagrada.
 
Portanto, Deus, Todo-Poderoso, permitiu ao ser humano utilizar a sua razão e avaliar o caminho que deseja seguir, informando ao mesmo que será responsabilizado por suas escolhas e atitudes. Partindo deste princípio, fica terminantemente proibido ao muçulmano forçar quem quer que seja a seguir o que ele acredita ser o caminho correto, pois se Deus, o Clemente, proporcionou esta liberdade ao ser humano, quem somos nós para negá-la?
 
Diz Deus, o Misericordioso, no Alcorão: “Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro. Quem renegar o sedutor e crer em Deus, ter-se-á apegado a um firme e inquebrantável sustentáculo, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo” (2:256).
 
Logo, percebemos que a diversidade existente entre os seres humanos não deverá de forma alguma ser motivo para ódio ou animosidade, e sim de amor e respeito, pois devemos seguir o que nos ensina o Alcorão.
 
Diz Deus, o Perdoador: “Ó humanos, em verdade, nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado” (49:13).
 
Ou seja, aqui somos informados de que fomos divididos em povos e tribos com características, línguas, hábitos distintos para que pudéssemos, através disto, reconhecermos uns aos outros. E de que forma? Através do conhecimento mútuo que se dá através do diálogo, de falar e ouvir o outro. Deste modo, com certeza respeitaremos mais o nosso semelhante, pois conheceremos mais sobre como pensa e em que se baseiam os seus costumes e práticas.
 
Outro ponto que devemos destacar é a forma respeitosa com a qual o Alcorão se dirige a judeus e cristãos, o “Povo do Livro”. Em outras palavras, aqueles que receberam, por intermédio de seus profetas, uma mensagem revelada através de Livros, como a Torá e o Evangelho. E nós, muçulmanos, acreditamos na cadeia de profetas e mensageiros comuns a judeus e cristãos, bem como cremos nos Livros revelados aos mesmos, como a Torá e o Evangelho. No entanto, nos baseamos no último Livro que acreditamos ter sido revelado por Deus, o Alcorão, ao seu último profeta e mensageiro, Muhammad, que a benção e a paz de Deus estejam sobre todos eles.
 
Diz Deus, o Criador: “O mensageiro crê no que foi revelado por seu Senhor, e todos os crentes creem em Deus, em Seus anjos, em Seus Livros e em Seus mensageiros. Nós não fazemos distinção entre os Seus mensageiros. Disseram: ‘Escutamos e obedecemos. Só anelamos a Tua indulgência, ó senhor nosso! A Ti será o retorno!’” (2:286).
 
“Então, revelamos-te o Livro com a verdade, corroborante do que foi revelado do Livro anteriormente, e encarregado de sua guarda. Julga-os, pois, conforme o que Deus revelou e não lhes sigais os caprichos, desviando-te da verdade que te chegou. A cada um de vós temos ditado uma lei e uma norma; e se Deus quisesse, teria feito de vós uma só nação; porém, fez-vos como sois, para testar-vos quanto àquilo que vos concedeu. Emulai-vos, pois, na benevolência, porque todos vós retornareis a Deus, o Qual vos inteirará das vossas divergências” (5:48).
 
O Alcorão também nos ensina como devemos lidar com as divergências de opinião no âmbito teológico e no diálogo inter-religioso.
 
Diz Deus, o Eterno: “E não disputeis com os adeptos do Livro, senão da melhor forma, exceto com os injustos, dentre eles. Dizei-lhes: ‘Cremos no que nos foi revelado, assim como no que vos foi revelado antes; nosso Deus e o vosso são Um e a Ele nos submetemos’” (29:46).
 
“Convoca (os humanos) à senda do teu Senhor com sabedoria e uma bela exortação: dialoga com eles de maneira benevolente, porque o teu Senhor é o mais conhecedor de quem se desvia da Sua senda, assim como é o mais conhecedor dos encaminhados” (16:125).
 
O Alcorão também nos informa da sacralidade dos templos do Povo do Livro, nos quais são mencionados o nome de Deus.
 
Diz Deus, o Provedor: “São aqueles que foram expulsos injustamente dos seus lares, só porque disseram: ‘Nosso Senhor é Deus!’. E se Deus não tivesse refreado os instintos malignos de uns em relação aos outros, teriam sido destruídos mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas, onde o nome de Deus é frequentemente celebrado. Sabei que Deus socorrerá quem o Socorrer, em Sua causa, porque é Forte, Poderosíssimo” (22:40).
 
Diz Deus, o Soberano, quanto ao profeta Muhammad (que a bênção e a paz de Deus estejam sobre ele): “E não te enviamos senão como misericórdia para a humanidade” (21:107).
 
“Jamais poderão equiparar-se a bondade e a maldade! Repele (Ó Muhammad) o mal da melhor forma possível, e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-á em íntimo amigo!”
 
É desta forma que o Islam valoriza a humanidade e defende a liberdade religiosa, com respeito e bondade. Não trataremos aqui dos inumeráveis exemplos históricos quanto ao respeito à crença do nosso semelhante, mas apenas citaremos o caso da Andaluzia, onde os muçulmanos a governaram por aproximadamente oito séculos e durante esse período conviveram em perfeita harmonia judeus, cristãos e muçulmanos, com total liberdade de crença, tendo seus templos preservados e respeitados.
 
Quaisquer atitudes fora destes princípios não têm nenhum respaldo islâmico, mesmo que quem as cometa o faça em nome da religião.

Texto: Sami Armed Isbelle (diretor do Departamento Educacional da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, SBMRJ, além de autor de livros que trabalham a temática islâmica, entre eles, Islam – A sua Crença e Prática, da editora Azzan.)

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