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A vida de Mary Daly – Maria Soave

A vida de Mary Daly – Maria Soave
2 de março de 2010 Centro de Estudos Bíblicos
A vida de Mary Daly - Maria Soave

Faleceu em janeiro passado, com a idade de 81 anos, a filósofa e te(…)loga Mary Daly, uma das grande mães da te(…)logia feminista e eco-feminista no mundo.

A vida de Mary tem sido uma "viagem metafísica", desde muito jovem, quando caminhou na errância, de forma malabarista e bonita, em diferentes escolas e universidades.

Realizou, com a idade de 35 anos, o desejo de obter dois doutorados, um em filosofia e outro em teologia, façanha quase impossível nos Estados Unidos dos anos 60, por isso teve que ir estudar na Suíça, na Universidade de Friburgo. De volta aos Estados Unidos, começou a lecionar no Boston College, posição que manteve até poucos anos atrás.

O Primeiro livro de Mary, A Igreja e o Segundo Sexo, era uma dura crítica ao sistema patriarcal, mas escrita com a esperança da modificação da estrutura da igreja católica e não de rejeitá-la. Quando Mary percebeu que a mudança estrutural desde dentro da igreja não era possível, moveu-se rumo a uma aproximação mais radical da questão escrevendo Para além de Deus o Pai que é a compreensão que a revolução das mulheres tem a ver com a participação do Ser.

Isto significa ser um Movimento Ontológico. Mary afirma que, justo porque as mulheres são colocadas fora, excluídas, marginalizadas, possuem mais instrumentos para analisar a estrutura perversa do patriarcado. As mulheres são chamadas, em certo sentido, a ser portadoras da Coragem Existencial na sociedade…a Coragem de Ser é uma chave.

O livro seguinte de Mary, Gyn/Ecology precisou da criação de uma linguagem completamente nova. Enquanto Mary escrevia Para além de Deus Pai o seu mantra de meditação era "tenho que re-volver minha alma", agora Mary percebia um caminho possível errante, sempre em contínuo movimento de espiral.

Fundamental para este trabalho do conhecimento errante em espiral, para aprender a ver e se mover entre os dois planos da realidade, Os conceitos de background (pano de fundo) e de foreground (primeiro plano) são fundamentais. A errância de Mary, sua procura, como aquelas das mulheres em movimento, se deslocaram em espiral continuamente da realidade mundana e destorcida de "um set estagnante de verdades encobertas de poeira de idéias mortas", que o patriarcado construiu nos séculos sobre mentiras, impondo sobre a humanidade, sobretudo as mulheres, uma única verdade, claro, a do patriarcado, uma só estável e permanente (foreground) até o plano de se fazer real e continuo das verdades, este plano foi excluído do patriarcado, virou inominável, este é o plano das energias primárias e em movimento errante, em um contínuo processo de modificação e criação (background). Este é o contínuo nomear das palavras porque nós somos um verbo e não um nome!

Para Mary este é o tema de fundo do Movimento das Mulheres e de todos os Homens que vivem com sofrimento a ordem simbólica e violenta do patriarcado presente. O caminho errante, para Mulheres e Homens é o da nomeação da realidade a partir do que somos, isto é uma prática, uma ética…verbo….

O último livro de Mary "Quintessence", tendo como pano de fundo os livros anteriores é a palavra que procura mostrar o que as Mulheres Selvagens sempre buscaram: conhecer a Vida mais profundamente possível.

Quintessence não é um nome, é um verbo. A autora percebe a urgência de nosso tempo de nomear as atrocidades e de juntar a coragem necessária para enfrentá-las e vencê-las. Se, Mulheres e Homens, conseguem perceber e nomear as conexões que existem entre opressão sexual, racial, econômica, política e religiosa, iremos trabalhar para a Vida, recriaremos a Vida agora e, desde agora, no futuro.

Precisamos nomear a dor. A dor de tantos corpos de mulheres crianças, pessoas empobrecidas violadas de ontem e de hoje. A dor pela terra, pelos animais, pela água, presas, mutiladas, torturadas pelo agro e hidro-negócio.

Mary explica como transformar esta dor em "justa indignação" e como a indignação que tem sua origem na experiência da dor esteja conectada com uma outra paixão fundamental: esperança. A indignação articula as mulheres em movimento junto com as crianças, os homens conspiradores, as pessoas empobrecidas, a terra, a água, o ar, os seres vivos todos para o movimento em espiral que nos faz sair do estado de paralisia patriarcal, rumo a uma Terra de Ausência, perdida e encontrada de novo onde é possível reinventar relações não mais alicerçadas na violência.