Bem vindo(a) ao CEBI ! (51) 3568-2560

Carta aberta. A paz no mundo não pode prescindir de um pedido de desculpas às mulheres pelas hierarquias eclesiásticas

Carta aberta. A paz no mundo não pode prescindir de um pedido de desculpas às mulheres pelas hierarquias eclesiásticas
9 de junho de 2020 Comunicação

“Se a Igreja Católica teme um cisma dentro dela – devido às manobras esquálidas urdidas pelo conservadorismo – também deveria se questionar sobre a possibilidade de um cisma por parte das mulheres. Até agora, na Itália, teve as características de um movimento silencioso, embora crescente. Por enquanto não somos defensoras de rupturas, mas nossa sede de justiça importa a alguém?”.

A carta é de vários autores, publicada por Fine Settimana, 06-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a carta.

1. Introdução

A carta que segue deveria ter sido enviada à imprensa em 8 de março deste ano (2020). Não foi possível fazê-lo pelas razões a todos/as conhecidas. As assinaturas na parte inferior da carta, que serviam como apresentação para o lançamento da coleta de assinaturas, abrangem uma variedade de posições. Esse é um fato relevante; destaca que a “questão” que levantamos não se limita ao mundo católico. Ela traz uma questão transversal. As representações do feminino elaboradas e dispensadas pela Igreja Católica, de fato, têm efeitos performativos não apenas sobre os católicos/as, mas se estendem a latitudes muito mais amplas. A fenomenologia com a qual a Igreja Católica Romana se relaciona com as mulheres é determinante no plano da economia dos bens simbólicos, uma economia transversal e generalizada, baseada em uma estrutura patriarcal e em uma ideologia androcêntrica. As outras instituições/comunidades religiosas acabam sendo (em variado grau), todas afetadas. Durante o período transcorrido, tivemos a oportunidade de conversar com muitas mulheres que em origem não eram signatárias. A troca renovada de ideias foi muito proveitosa, fortaleceu o compartilhamento do texto da carta e a decisão de divulgá-la, permitindo também desfazer algumas questões que queremos explicitar aqui.

1. Esse é um aviso, não uma lamúria vitimista. Nesse documento está escrito que não haverá paz sem uma profunda conversão do clero em relação à iniquidade com a qual ele agiu em relação às mulheres. Com isso, a carta instituía a evidência de um fato que em nossa liberdade afirmamos. Se a igreja não enfrentar esse nó de maneira teológica, operacional e coerente, não silenciaremos sobre o perseverar na sinceridade e na falta de credibilidade. Se a Igreja Católica teme um cisma dentro dela – devido às manobras esquálidas urdidas pelo conservadorismo – também deveria se questionar sobre a possibilidade de um cisma por parte das mulheres. Até agora, na Itália, teve as características de um movimento silencioso, embora crescente. Por enquanto não somos defensoras de rupturas, mas nossa sede de justiça importa a alguém?

2. A lista de frases injuriosas que nos foram reservadas (seção mínima de um “patrimônio” ilimitado) designa um passado que pesa e não passa; cuja memória não deve ser apagada nem ignorada virando a página. Acreditamos que somente a partir da assunção responsável dessas afirmações, os representantes do poder clerical masculino possam tomar consciência dessa triste “arqueologia” que os moldou. Se as frases não são mais citadas, não por isso os sintomas causados por elas desapareceram – como bem sabe qualquer pessoa que conheça os rudimentos da psicanálise. Para despotenciá-las devem ser assumidas e processadas. Somente repercorrendo a origem e o caminho do mysterium iniquitatis será possível alcançar uma autêntica praxe redimida, visível em seus efeitos, a comportamentos que, no autênticos sentir e agir, deem prova de não temer as mulheres e compreender o valor e o poder espiritual desse recíproco “estar diante”, expresso em Gênesis 2,18. A carta não é uma mônada sem relações. Para nós, é uma “pedra angular” (Sl. 118) e, ao mesmo tempo, uma semente de mostarda (Mc 4,31), da qual gostaríamos que nascesse um questionamento, um confronto, um relacionamento, um devir que não podemos prever. Entre as próximas etapas, pensamos em um encontro, no qual se poderá participar e construir juntos, compartilhando a sede de justiça e a alegria do Ruah!

3. Carta aberta.

Não foram mulheres ateias, anticlericais ou agnósticas que promoveram e assinaram este texto; mas mulheres de fé, mulheres que orientaram sua consciência para uma espiritualidade simples e ao mesmo tempo abertas ao sopro do Ruah, mulheres sedentas de verdade e justiça, em busca de horizontes de fé cada vez mais profundos e dilatados, mulheres que acreditam e praticam – na humildade, mas também na coragem do testemunho – a sororidade e a irmandade humanas das quais Jesus foi testemunha clarividente. É à questão da presença de mulheres na Igreja que queremos nos referir: não é absolutamente um pedido de compartilhamento de poder, de cooptação para dentro no atual sistema clerical, mas é, em vez disso, a questão de assumir nos fatos da centralidade das relações, à qual remete o enunciado fundador: “Homem e mulher os criou”.

As relações entre mulheres e homens na Igreja estão doentes há muito tempo, porque estão imbuídas de estereótipos engessados sobre as mulheres: visões degradantes, que deformam sua imagem negando a integridade. A partir de tais premissas, o desvalor do feminino é a lógica consequência. E não venham nos responder que a Igreja venera Maria, que seria superior a todos os apóstolos e, portanto, com ela venera todas as mulheres; porque é a pessoa encarnada que deve ser respeitada, as mulheres em carne e osso, e não sua transfiguração imaginária. Do quanto “a exaltação ideal da mulher tenha servido para cobrir sua insignificância histórica”, fizemos – infelizmente – uma milenária experiência. O Evangelho falava outra língua: a do discipulado de iguais, para usar a famosa expressão do teólogo Schüssler-Fiorenza; a mensagem do evangelho é um testemunho de liberdade para mulheres e homens. As Jornadas Mundiais da Paz foram instituídas na Igreja Católica – e nós as apoiamos. Almeja-se a paz, mas, ao mesmo tempo, reconhece-se a contradição de um mundo que prega a paz, porém invocando-a com base em relações falsas, imbuídos de suspeitas/ desconfianças mútuas. Mas há uma contradição ainda mais originária. Por que não se compreende que a primeira raiz de uma relação de submissão, o primeiro núcleo fundador de relações de dominação, reside nas relações mulher/homem?

Não haverá paz sem essa consciência e sem uma conversão profunda. Portanto, chegou a hora de retornar à mensagem do Evangelho e para que a Igreja repare seus erros históricos. Tomamos nota dos primeiros passos realizados: em 1992, João Paulo II reabilitou Galileu Galilei, reconhecendo que “foi um erro condenar Galileu … [que] sofreu muito – não podemos esconder – por homens e organismos da Igreja”. No “dia do perdão” do Jubileu do ano 2000, o papa pediu perdão pelos erros cometidos com os tribunais da Inquisição; naquela ocasião mencionou as mulheres, mas foi apenas um aceno irrelevante: “rezamos pelas mulheres muitas vezes humilhadas e marginalizadas”. Em 2018, o Papa Francisco pediu desculpas pelo comportamento da Igreja em relação às vítimas de padres pedófilos: “Algumas vítimas acabaram tirando a própria vida. Essas mortes pesam tanto no meu coração quanto na consciência de toda a Igreja”.

Todas essas tomadas de posição são etapas louváveis. Ainda mais esta última, que não se limitou a ser um ato genérico de contrição, mas tornou-se operacional no reconhecimento do direito das vítimas e dos tribunais estatais, de restaurar a justiça condenando os culpados e compensando as vítimas. Precisamente como mulheres de fé, acreditamos que chegou a hora, agora, de a hierarquia da Igreja Católica peça desculpa às mulheres, dos séculos passados e dos dias atuais. Ela nunca negou ou se distanciou das afirmações injuriosas dos Padres da Igreja, Apologistas cristãos ou Santos, frases que atestam esse teor: “Você não sabe, mulher, que você também é Eva? Neste mundo, ainda vige a condenação de Deus contra o seu sexo; também deve permanecer a condição de acusada […] Você é a porta do diabo! Você enganou o único a quem o diabo não foi capaz de ludibriar! Você destruiu a imagem de Deus, o homem! Por causa do que você fez, o Filho de Deus teve que morrer! ” (Tertuliano, De Cultu Feminarum, I, 1-2). “Quanto a mim, acredito que as relações sexuais devem ser radicalmente evitadas. Penso que nada degrade o espírito do homem tanto quanto as carícias de uma mulher e as relações corporais que fazem parte do matrimônio” (Agostino, Soliloquia I, 10,17).

4. “A esposa será salva se gerar filhos que permanecerão virgens, se o que ela perdeu for recuperado em seus descendentes e se a queda e a corrupção da raiz forem compensadas pela flor e pelo fruto” (Jerônimo, Adversus Jovinianum 1, 27; PLXXIII, 260). “O homem nasceu da mulher! Não há nada mais abjeto” (São Bernardo, Sermo in Feria IV ° Hebdamodae Sanctae, 6, SBO V, 60). “Em relação à natureza particular, a fêmea é um ser defeituoso e deficiente. […] De fato, a virtude ativa contida na semente do homem tende a produzir uma semente perfeita, semelhante a si mesmo do sexo masculino. O fato de que possa derivar uma mulher pode depender da fraqueza da virtude ativa ou da disposição da matéria”(São Tomás, Summa Theologica I, 92, I, ad I).

Não podemos deixar de mencionar o que expoentes oficiais da Igreja escreveram, disseram e realizaram contra as chamadas bruxas. Um florilégio de retórica misógina é o Malleus Maleficarum (em 1484, o Papa Inocente VIII emitiu a Bula Summis Desiderantes Affectibus, com o qual dava mandato a dois inquisidores alemães para redigir um Corpus de sentenças para combater a bruxaria). Relatamos a seguinte passagem da obra, porque não deve ser deixada na sombra:

“Mas como nestes tempos esta perfídia se encontra com mais frequência entre as mulheres do que entre os homens, podemos agregar, ao que foi dito o seguinte: que como são mais débeis de mente e de corpo, não é de se estranhar que caiam em maior medida sob o feitiço da bruxaria…. de fato, parecem ser de natureza diferente daquela dos homens …; a razão natural é mais carnal que o homem, como fica claro analisando suas muitas abominações carnais. E devemos apontar o defeito na formação da primeira mulher, que foi formada de uma costela curva, isto é, a costela do peito, que se encontra encurvada, por assim dizer, em direção contrária à do homem. E devido a este defeito é um animal imperfeito, sempre engana…. no caso da primeira mulher, que tinha pouca fé; pois quando a serpente perguntou por que não comiam de todas as árvores do Paraíso, já em sua resposta mostrava que duvidava, e que tinha pouca fé na palavra de Deus. E tudo isso é mostrado pela etimologia da palavra; pois Femina provem de  e Menos, considerando que é muito débil para manter e conservar a fé…. Embora tenha sido o diabo que induziu Eva a pecar, foi Eva que seduziu Adão, e já que o pecado de Eva não teria nos levado à morte de alma e corpo, se não tivesse seguido a culpa de Adão, induzida por Eva e não pelo diabo, portanto a mulher é mais amarga que a morte”. Esses são apenas fragmentos de um sistema simbólico e de uma economia teológica kyriarcal muito maior e mais difundida, um sistema tão poderoso e de ação profunda que para decifrá-lo exigiria um volume inteiro – e talvez não fosse suficiente.

5. Sobre pronunciamentos dessa natureza não deveria haver sinais de conversão? Não seria por esse gesto que se abririam as condições de possibilidade de uma convivência baseada no reconhecimento mútuo de igual dignidade? “Nelson Mandela e Desmond Tutu nos ensinaram com os processos sobre a verdade, a justiça e a reconciliação na África do Sul: é a admissão de violência cometida por quem a exerceu que deixa as vítimas livres e permite que falem e recomecem a viver”. (1 Letizia Tomassone, Violenza e giustizia di genere nelle chiese protestanti, in Paola Cavallari (ed), Non solo reato anche peccato. Religioni e violenza contro le donne, Effatà, 2019)

No contexto dessa economia teológica kyeriarcal, sintetizamos brevemente algumas violações graves das quais o clero masculino se manchou (com a cumplicidade às vezes de mulheres consagradas) contra o sexo feminino: durante séculos, excluiu a mulher do reconhecimento de ser imagem de Deus, pois a imago Dei era atributo reservado exclusivamente para o homem. Estruturou através dos séculos uma visão cultural da mulher que prejudicou seriamente as relações entre homens e mulheres, legitimando com o carisma do sagrado (que é um projeto divino, foi dito por séculos) as relações de dominação e submissão que caracterizaram as culturas patriarcais. Muitas vezes usou e explorou o trabalho das mulheres consagradas como trabalho escravo, sem reconhecimento econômico e social. Exerceu (não sabemos quanto, porque tudo está coberto pelo sigilo) abusos espirituais, de consciência e sexuais.

Contribuiu, com a demonização do corpo feminino e a construção da imagem da “mulher tentadora“, para legitimar a visão de que as mulheres são as responsáveis pelas atitudes de assédio/abuso de homens. Quis controlar em detalhes a sexualidade e o corpo feminino, ignorando a esfera do desejo sexual feminino e nunca colocando em discussão as formas de autorreferenciais e não interativas da sexualidade masculina. Não tomou uma distância radical do consumo da pornografia e da prostituição, através de um profundo questionamento da sexualidade masculina.

Ainda não implementou uma reforma séria da liturgia, da linguagem pastoral e catequética, que reconheça a subjetividade das mulheres. Não alertou as traduções dos textos sagrados impregnadas de preconceito patriarcal.

Perpetua uma visão desequilibrada da relação homem / mulher através da exclusão das mulheres não só de ministérios, mas também de todos os órgãos de decisão dentro da Igreja.

O reconhecimento de tais frases injuriosas seria um primeiro passo, especialmente se não fosse uma simples declaração de princípio, mas fosse acompanhada de ações concretas e um começo de colaboração com as mulheres comprometidas em colocar uma barragem, por meio da geração de uma nova visão cultural, ao dramático fenômeno de violência contra as mulheres e aos feminicídios.

Esta carta com as assinaturas de quem a assina será enviada ao Presidente da Conferência Episcopal. E, em seguida, à imprensa e aos sites.

As mulheres que, embora não sejam crentes, acreditam que o simbólico religioso tenha sido e continue sendo determinante na construção de relações injustas entre os sexos são calorosamente convidadas a se juntarem a nós. Agradecemos a todas.

Para comunicações e adesões, podem escrever para [email protected].

Primeiras signatárias:

Paola Cavallari – Observatório inter-religioso sobre violência contra as mulheres – OIVD
Carla Galetto – Grupos de mulheres Comunidade de Base – CdB Doranna Lupi – Grupos de mulheres Comunidade de base – CdB
Paola Morini – Observatório inter-religioso sobre violência contra as mulheres – OIVD

Matéria publicada no site do Instituto Humanitas-UNISINOS