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A liberdade, da teologia à ética

A liberdade, da teologia à ética
29 de abril de 2019 CEBI Secretaria de Publicações

via IHU Online*

“A existência e o drama dos migrantes nos convidam, portanto, a uma séria revisão de nossa maneira de crer e viver a nossa fé, tanto no plano de pensamento como da ação.”, afirma Bernard Sesboüé, jesuíta, teólogo no seu novo livro L’Église et la Liberté, publicado em março de 2019 e comentado por David Roure, em artigo publicado por La Croix, 25-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Com o senso de medida e da pedagogia que o caracterizam, Bernard Sesboüé mais uma vez enfrenta um problema sensível tanto para a teologia como para a história da sua Igreja, o da liberdade. “A relação da Igreja com a liberdade do homem é um tema particularmente delicado, porque algumas páginas da sua história são bastante obscuras nesse âmbito”, escreve logo no início o teólogo jesuíta (Bernard Sesboüé, L’Eglise et la Liberté, Salvator).

A primeira parte do livro, mais curta, trata das “doutrinas cristãs da liberdade”. O percurso começa naturalmente pela Bíblia, do Antigo e do Novo Testamento, e continua com algumas grandes figuras da teologia (Irineu de Lyon, Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero …). Mostra até que ponto “a teologia da liberdade é algo essencial”, apesar da “virada trágica de Agostinho”, quando o bispo de Hipona, “cansado da violência incontrolável dos donatistas, chegou a considerar que era preciso passar para o uso de força do poder civil”… Um tema delicado em que Sesboüé voltará mais adiante.

Sem ser um panegírico, nem uma “justificação unilateral”, a segunda parte mostra como, para o bem ou para o mal, a Igreja tentou, no curso de sua rica e complexa história, ser uma “pedagoga da liberdade cristã”: na época das primeiras perseguições, depois, quando o Império se tornou cristão a partir de 312, durante a Idade Média, nos Tempos Modernos quando a cristandade do Ocidente se viu dividida em dois, na Igreja pós-tridentina, e finalmente durante os “primeiros passos da secularização” até o Vaticano II.

A terceira parte, a mais longa, estuda de maneira precisa e detalhada dois temas pelos quais, ao contrário, a Igreja é hoje muito criticada por não ter conseguido, no passado, levar em conta a liberdade de cada indivíduo: a escravidão (e o tráfico atlântico dos negros do século XV ao século XIX associado a ela) e a Inquisição.

Após uma análise aprofundada, a conclusão de Bernard Sesboüé é inapelável: “Este aspecto já é grave o suficiente para que não precise ser arbitrariamente onerado com juízos de condenação intempestiva. No entanto, mesmo levando em consideração todas as circunstâncias atenuantes que podem ser legitimamente afirmadas nesse comportamento da Igreja, permanece o fato de que por vários séculos esta Igreja de Deus se recusou a condenar o princípio da escravidão e se aliou à desastrosa convicção que, para defender sua fé, devia perseguir o herege e condená-lo, se necessário até à morte. Não apenas implementou essa convicção, mas também quis justificá-la pela razão e, se possível, através das Escrituras, invocando uma necessidade que considerava vinculada à sua missão”.

No capítulo final dessa parte, intitulado “A Igreja em caminho rumo à verdade por inteiro”, tenta, com cautela, responder à pergunta que o leitor inevitavelmente se faz: “Como pôde a Igreja cometer erros por tanto tempo em aspectos tão graves e não reconhecer o caráter antievangélico de seu comportamento sobre dois pontos nada secundários, já que a vida de homens e mulheres dependia deles?”

Finalmente, o capítulo final atualiza a problemática perguntando se, sobre o problema dos migrantes, os cristãos de hoje serão julgados pelas gerações futuras à altura do desafio, porque, mesmo nesse caso, é a liberdade de tantos homens e tantas mulheres que a globalização, quer queiramos ou não, faz com que se tornem o nosso próximo…

E é com um apelo para levar a sério esse desafio que o teólogo conclui seu livro: “A existência e o drama dos migrantes nos convidam, portanto, a uma séria revisão de nossa maneira de crer e viver a nossa fé, tanto no plano de pensamento como da ação. (…) Ora, precisamos reconhecer que a população francesa ainda não tomou consciência das apostas em jogo e da gravidade do problema, simplesmente em virtude do nosso padrão de vida. As advertências do papa estão se tornando cada vez mais urgentes. Estamos entrando em uma nova era em que a justiça social se coloca em um nível mundial e irá repropor o problema da distribuição geográfica da população”.

Publicado no site do IHU Online.