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Entrevista com Jon Sobrino

Entrevista com Jon Sobrino
31 de março de 2011 Centro de Estudos Bíblicos
Entrevista com Jon Sobrino

Entrevista com Jon Sobrino

Jon Sobrino nasceu em Barcelona é um sacerdote e teólogo jesuíta que vive em El Salvador, importante expoente da Teologia da Libertação. Licenciado em Filosofia, mestre em Engenharia Mecânica (St. Louis University) e doutor em Teologia (Universidade de Frankfurt), é diretor do centro Monsenhor Romero e professor de teologia na Universidad Centroamericana de San Salvador – UCA.

Durante a ditadura militar salvadorenha, Sobrino escapou de ser assassinado no massacre à comunidade jesuíta ocorrido em 16 de novembro de 1989 quando um grupo paramilitar entrou na Universidad Centroamericana, onde era professor, e assassinou seis jesuítas, a cozinheira e sua filha. Sobrino não estava na casa por estar substituindo Leonardo Boff em um curso de Cristologia na Tailândia.

Foi condenado a silêncio obsequioso pela Congregação para a Doutrina da Fé (o antigo Santo Ofício, cuja função é promover e tutelar a doutrina da fé e da moral em todo o mundo católico romano).

Escreveu diversas obras entre elas: Voz dos sem voz: a palavra profética de D. Oscar Romero (em co-autoria). São Paulo: Paulinas, 1987; Solidários pelo reino (em co-autoria com Juan Hernandez Pico). São Paulo: Loyola, 1992; A fé em Jesus Cristo: ensaio a partir das vítimas. Petrópolis: Vozes, 2001; Fora dos pobres não há salvação: pequenos ensaios utópico-proféticos. São Paulo: Paulinas, 2008.

Escobar: Em um de seus livros "Fora dos pobres não há salvação", você diz que a igreja se perde a partir do momento em que se centraliza na culpa e não no sofrimento do ser humano. É ainda possível reverter essa centralidade?

Jon Sobrino: O que eu quis dizer é o que está no fundo da conhecida frase de J.B. Metz: "O primeiro olhar de Jesus não se dirige ao pecado, mas ao sofrimento dos outros […]. A doutrina cristã da redenção dramatizou em excesso a questão da culpa e relativizou a questão do sofrimento" (Memoria passionis, pp. 164-165).

Isto em absoluto ignora o "pecado", que há muitos anos defini como "o que gera morte". Pecado é aquilo que "deu morte ao Filho de Deus e pecado é o que gera a morte dos filhos e filhas de Deus". Nessas mortes, e em todo tipo de sofrimento infligido, deve se centralizar antes de tudo a igreja.

O central são as vítimas, e convém ter muito presente os que geram as vítimas, o que também a igreja tem dificuldade de fazer. Estes podem ser pessoas, grupos como oligarquias, exércitos, paramilitares, bem como estruturas econômicas e políticas que geram morte. Também os meios de comunicação, ambientes culturais, uma vez que podem facilitá-las ou acobertá-las.

Em breves palavras, quero agora citar uma das últimas frases de José Comblin, que acaba de morrer: "Não é preciso enrolar muito. O mundo se divide entre opressores e oprimidos". Indubitavelmente há que se levar em conta "a culpa" – sobretudo dos opressores, e também, em menor medida, a dos frágeis. Mas primeiro é o sofrimento dos frágeis. Assim começou tudo. Sejam quais forem os "pecados" das tribos de escravos do Egito, o olhar de Javé dirigiu-se a seus sofrimentos, e seus ouvidos a seus clamores. É possível ser humano e cristão desta forma? Sim. Assim foi Monsenhor Romero.

Escobar: Algumas correntes dizem que a Teologia da Libertação, com o passar dos anos, não se renovou e inclusive tendem a dizer que morreu. Como você vê esta afirmação?

Jon Sobrino: A Teologia da Libertação surgiu com a irrupção dos pobres e de Deus neles, ao redor de Medellin. Houve uma geração de bispos que temos chamado de Padres da Igreja latino-americana: Don Helder Camara, Leonidas Proaño, Don Sergio e Don Samuel, Oscar Romero, grupos sacerdotais. Ocorreu a renovação da vida religiosa, que se cristalizou na CLAR, e a proliferação das comunidades de base… Nesse contexto surgiram teólogos como Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo, José Comblin, Leonardo Boff, Ignacio Ellacuría…

É certo que essa geração de teólogos passou, e não vejo que tenha surgido outra semelhante. Mas, sim, acredito que a irrupção original do pobre tem facilitado outras irrupções: os indígenas, afro-americanos, a mulher, a mãe terra… E essas irrupções seguem gerando pensamento teológico. Positivamente, vejo em vários teólogos e teólogas que as raízes da Teologia da Libertação estão vivas e que continuam produzindo pensamento. Outra coisa é qualidade intelectual, metafísica se assim se quer, que não tem porque ser como a dos pioneiros.

Em qualquer caso, chame-se como se chame, a Teologia da Libertação continua sendo uma necessidade em nosso continente e em nosso mundo. Enquanto for vista como necessidade, não está morta. O dia em que não for mais necessária, pensaria sim que morreu. E tampouco estaria muito vigorosa uma Cristologia de Jesus de Nazaré, nem uma teologia do Deus cuja glória é que o pobre viva, como dizia Monsenhor Romero.

E não há que esquecer que Rockefeller, em 1968, e Ronald Reagan, em 1981, declararam guerra à Teologia da Libertação. E que o Cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação da Fé, atacou-a com pouco conhecimento e sem rigor científico, na instrução de 1984. As cúrias e os seminários não a têm acolhido. Se a faísca permanece é meritório. Mas acima de tudo é frutífera porque a faísca continua sendo coisa real.

Escobar: Qual é o desafio da Teologia da Libertação diante do crescimento da Teologia da Prosperidade na América Latina?

Jon Sobrino: Desconheço dita teologia. O nome me produz surpresa e acima de tudo suspeita.

Escobar: Algumas correntes eclesiásticas tendem a monopolizar a salvação ou dogmatizá-la. Qual é sua visão da salvação humana?

Jon Sobrino: Monopolizar e dogmatizar são expressões que, logicamente, não podem acompanhar o conceito "salvação". Quem salva é "Deus", através de mediações, como dizemos hoje, ou de causas segundas, como se dizia antes. O que há que salvar é "o ser humano", pessoal e socialmente. O conteúdo é o "Deus tudo em todos", como diz Paulo; "o reino de Deus", como diz Jesus. O modo fundamental na salvação é a graça: "Deus nos amou primeiro". E, uma vez agraciados, "nós agraciarmos os demais".

Isto pode ser formulado de muitas maneiras na tradição bíblica e cristã, e em outras. Há que pensar em como fazê-lo real na história: a libertação, a humanização… Pessoalmente impacta-me e anima o que nos diz Deus em Miqueias 6,8: "Foi-te anunciado, ó homem, ó mulher, o que é bom, e o que o Senhor deseja de ti. Que pratiques a justiça, que ames com ternura e que caminhes humildemente com teu Deus". Jesus anima a um caminhar em seu seguimento. E Casaldáliga, com Antonio Machado, adverte ao caminhante, que não há caminho, senão que se faz caminho ao andar. Mas acrescenta que é preciso caminhar "de modo que os atrasados possam nos alcançar", isto é, para que possamos caminhar todos juntos. E certamente com os pobres e as vítimas deste mundo.

Viver assim é viver salvos, cada um e cada uma. Coloca-nos na direção de um mundo humano, com relações e estruturas humanas. E encaminha-nos, na confiança e disponibilidade, ao mistério, "o que os olhos não viram, nem ouvidos ouviram". A esse Deus Jesus chamou Pai e nele descansou. É esse Pai que não nos deixa descansar.

Escobar: Qual é o grande desafio das lutas populares no século XXI diante da globalização?

Jon Sobrino: Não sou nenhum experto em lutas populares. Relembrando o que vivi em El Salvador nas décadas de setenta e oitenta, desejaria que os de baixo, oprimidos, reprimidos, exprimidos, tenham consciência coletiva de que "eles e elas" são povo, o povo da terra e o povo de Deus. Que não se deixem enganar pelos não pobres. Que não procurem o que é viver em abundância arrogante e cruel, "a civilização da riqueza" como dizia Ignacio Ellacuría. Que não percam o que lhes tem ensinado o viver em baixo da história: acolhida, fé, muitas vezes entrega, às vezes sem limites, até o martírio. Que tenham a grandeza, alguma vez, de nos perdoar. Obviamente, que se organizem, que acumulem energia social, que trabalhem e lutem sem desfalecer.

Aos pobres, esperaria que os ajudemos e possamos dar-lhes ânimo em tudo, como fazia Monsenhor Romero. É o milagre que formulou para os não-pobres com estas palavras metafísicas, se me é permitida a expressão: "o real não somos nós".

Podem ver que não tenho muito a dizer.

Escobar: É possível melhorar o capitalismo ou somente uma nova alternativa pode ser mais humana?

Jon Sobrino: Até o dia de hoje, parecem-me de plena atualidade as palavras que pronunciou Ellacuría em Barcelona no dia 6 de novembro de 1989, dez dias antes de ser assassinado. O diagnóstico era, e é, o seguinte: "A análise cropológica, isto é, o estudo das fezes da nossa civilização, parece mostrar que esta civilização está gravemente doente e que para evitar um desenlace fatídico e fatal é necessário tentar mudá-la a partir de dentro de si mesma". E junto com a profecia do diagnóstico, indicou o caminho da utopia. "Somente utópica e esperançadamente podemos acreditar e ter ânimo para tentar, com todos os pobres e oprimidos do mundo, reverter a história, subvertê-la e lançá-la em outra direção". São palavras de um analista, um cristão e um mártir.

Repito que não sou experto em análise. Somente me ocorrem duas coisas. Uma, a mais realista, é apontar ao "mal menor", em meio a gente boa e comprometida. A outra é a obstinação cristã e latino-americana de Dom Pedro Casaldáliga: apesar de tudo há que manter sempre a esperança. E sempre há sinais de que alguma coisa se move em nosso mundo. A eles é preciso indicar e não abandoná-los nunca.

Escobar: A ideia em relação a Deus e que prevalece, em grande maioria no meio do atual sistema, é a figura de um Deus vencedor e soberano. Você fala de uma visão de um Deus que sofre e que se encontra em lugares onde não costuma ser procurado. Poderia nos deixar, para finalizar, uma pequena reflexão sobre esta forma de ver Deus?

Jon Sobrino: Acredito que hoje prevaleçam várias ideias de Deus. Uma, pode ser a de um Deus vencedor e soberano, à qual se poderia acrescentar a de um Deus juiz e castigador no fim dos tempos. Outra, a de um Deus que se tem desentendido com este mundo. E há também o agnosticismo, a incredulidade e, cada vez mais, o desinteresse em um mistério último.

Outros tomam – procuramos tomar – a sério o Emanuel, um Deus conosco. Escutam clamores. Querem colocar de pernas para o ar o mundo: "aos pobres os enaltece e aos ricos despede-os de mãos vazias". Querem salvar os escravos. Sua transcendência faz-se transdescendência para chegar a ser condescendência. É um Deus conosco, para nós e, às vezes, à mercê de nós. É o Deus da cruz de Jesus. Ama-nos impensavelmente, como dizem Paulo e João. Atualizamos suas palavras como estas de Martin Luther King:

"Vocês podem fazer o que queiram, mas nós os seguiremos amando. Enfiem-nos nas cadeias, e ainda assim os amaremos. Lacem bombas contra nossas casas, ameacem nossos filhos e, por difícil que seja, os amaremos também. Enviem assassinos às nossas casas na escuridão da meia-noite, espanquem-nos, e ainda estando moribundos, os amaremos".

É o Deus crucificado, presente em nós. E é também o Deus da ressurreição, a de Jesus, a de Monsenhor Romero, bem como a de muitos mártires e caídos. Historicamente, faz-se realidade o intenso desejo de que "o carrasco não triunfe sobre a vítima".

[Tradução: Paulo Escobar].