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Mateus 13, 31-32: Reino dos céus num grão de mostarda [Fábio Py Murta de Almeida]

Mateus 13
Mateus 13, 31-32: Reino dos céus num grão de mostarda [Fábio Py Murta de Almeida]
15 de julho de 2014 Centro de Estudos Bíblicos

     Extraído do livro: O Reino dos céus num grão de mostarda de Fábio Py Murta de Almeida.

O capítulo 13 de Mateus traz uma série de parábolas de Jesus. As parábolas nascem das palavras da vida cotidiana, resgatadas pela prática. As palavras das parábolas são gestos corriqueiros que representam a religião simples. Soam de forma tão simples, que expressam um rascunho de protesto contra a complexidade do culto e do falar de Deus no templo de Jerusalém,que era dominado pelas castas vendidas e vinculadas ao Império Romano. Nosso texto está no bloco das parábolas da primeira coletânea do capítulo 13 que são as parábolas do joio, do grão de mostarda e do fermento.   

Passaremos a dar atenção à parábola do grão de mostarda. Para a estudiosa Luise Schottroff(1), uma parábola constitui-se dos casos da vida cotidiana palestina e são a ponta do iceberg da sociedade do século I a.C. Vejamos a interpretação histórico-social das parábolas de Mateus 13. 

 
Pela indicação de Luise Schottroff, para melhor articular as  parábolas, daremos atenção à questão política e econômica  estabelecida no país de Jesus. Como já foi dito anteriormente, a  época em que teria havido a produção dos belos textos que retratam  a vida de Jesus é o período após a sua morte, a partir da  qual ocorreu um gradual aumento na tensão na Palestina. A violência  cresceu e culminou com o estopim, em 70 d.C. A primeira  indicação do aumento das tensões ocorreu na revolta dos judeus  na Palestina, quando Vitélio Cumano (48-52 d.C.) era procurador.  Ela ocorreu durante a festa da Páscoa, quando um soldado romano  desrespeitou uma tradição judaica, ocasionando a morte  de vinte mil judeus. Outro ponto de tensão foi na época do governador  Antônio Félix (52-60 d.C.), quando alguns grupos de judeus  buscaram provocar Roma, tramando assassinatos de pessoas  importantes. Mais adiante, no governo de Géssio Floro (64-66 d.C.), quando ele requisitou dezessete talentos do tesouro do  templo judeu, estourando a revolta final.      

Após tudo isso, chega a devastação da Palestina. Ela é promovida  pelo general Vespasiano, que ataca a Galileia na primavera  de 67 d.C. com dez legiões (60 mil soldados), e levada a  cabo com a marcha para Jerusalém do general Tito, pouco antes  da Páscoa de 70 d.C., com quatro legiões (24 mil soldados). Tito  ocupa o setor norte da cidade, fazendo um fosso ao seu redor  para que ninguém escape. Em julho de 70 d.C., como os muros  do templo não cedem, ele os incendeia e, de forma violenta, destrói  tudo e todos que se colocam à sua frente. A Palestina é  saqueada, e grande parte dos habitantes é assassinada, vendida  ou condenada a trabalhos públicos forçados. Além disso, suas  plantações são cortadas e/ou queimadas por conta dos cercos  das guerras(2). 

 
    Essas condições são aprofundadas de 70 a 80 d.C., quando a  miséria e a fome cada vez mais se estabelecem na Palestina. Esse  é o pano de fundo, em que se recordam as parábolas. Como diz  Klaus Berger(3): “Uma parábola é um texto em relação ao seu contexto”.  O ponto de partida da parábola da mostarda é a ainda presente  destruição do templo de Jerusalém e a queima das roças e dos alimentos. É a surpresa de ainda brotar algo desse chão tão  roçado e tão destruído pela ação humana. Nesse contexto, é importante  construir uma parábola sobre um elemento da culinária,  indicando, na primeira oração, que “pode-se comparar o reino  dos céus com a situação de um homem que tomou um  grãozinho de mostarda e o semeou no seu campo” (v. 31).  “O reino dos céus”, repare, é comparável às miúdes do trabalho na lida junto a um “grão de mostarda”. O ato de o homem  semear um grãozinho tão pequeno espanta o povo do evangelho.  Intui-se que o trabalho do pequeno tem a oportunidade de  frutificar.   
   

O trabalho se dá a partir dessa pequena semente que se faz  tempero na comida e na vida dos palestinos. O que podemos falar  é que, para que dê frutos, temos que semear. Para o reino de Deus  (“reino dos céus”) consolidar-se, é importante que se trabalhe e  se semeie. Assim, na cultura camponesa dos palestinos, o trabalho  permite o “reino dos céus”. Ele pode até mesmo ser pequeninho  como esta semente, mas irá brotar. Sem o trabalho, não pode haver  colheita e muito menos “reino”. É uma valiosa indicação retirada  do texto de Jesus. Sem o trabalho, não pode haver comida  nem bonança. Não deixa de ser um aviso para os romanos que  viviam da exploração sem muito trabalhar, e também aos partidos  judaicos que só viviam do que se trazia ao templo.   

 

O interessante é que no versículo posterior continua a argumentação  sobre o grão de mostarda: “Não existe nenhum grão  menor. Mas quando cresce é a maior de todas as hortaliças; torna-se  uma árvore forte, tanto que os passarinhos vêm do céu para  fazer ninhos em seus ramos”. Ora, depois de discorrer sobre o  trabalho humano, Jesus, nas palavras de Mateus, se detém no  valor do grão. Na verdade, passa a realçar sua importância e a  surpresa de sua frutificação. Ele, mesmo sendo o menor dos grãos  e um mero acompanhamento na alimentação diária da população,  tem a possibilidade de se tornar “uma árvore forte”, chegando  a ter na região do Jordão quatro metros de altura(4).   

Podemos dizer que, se bem trabalhado, o “reino dos céus”,  de algo tão pequeno e difícil, pode frutificar, ganhar forma e expressão.  E o que antes era despretensioso poderá se transformar tal como a hortaliça mostarda que tem quatro metros de altura. É algo impressionante! Assim, se bem trabalhado, o “reino  dos céus” poderá até ser forte o suficiente para sustentar e auxiliar  os outros tipos de vidas ou de frutos, como o evangelista escreve  “torna-se uma árvore forte, tanto que os passarinhos vêm  do céu para fazer ninhos em seus ramos”. Dizemos que o “reino  dos céus”, como fruto das mãos humanas, deve ser trabalhado.  Pelo trabalho, algo inicialmente tão pequeno, insignificante e difícil  de imaginar, deverá brotar e se tornar algo exuberante. Algo tão esplêndido que até os seus cultivadores terão que repartir  com outras vidas igualmente massacradas pelo sistema econômico,  como o eram os pássaros nas parábolas de Jesus.  Diante da destruição de Jerusalém e de toda a Palestina, o  texto de Mateus 13,31-32 é um alento de esperança.

Olhando  para o presente de destruição, após a passagem e as queimadas  patrocinadas por Tito e pelos governos posteriores, e lembrando  o passado recente com hortaliças, plantas e o trabalho dos semeadores junto ao rio Jordão (local destes cultivos), a parábola aponta  esperançosamente para a construção do “reino dos céus”. Dizendo  indiretamente que, era só trabalhar novamente junto às pequenas  coisas que restaram nas mãos, para que os frutos e o  novo voltassem à Palestina. Torna-se algo tão impactante que  passa a ser utilizado por outros povos e outros grupos. Mas deve  haver o trabalho para que haja o “reino de Deus”! Ora, de braços  cruzados, não se pode abrir novas perspectivas e novos planos  para a construção de outro/novo mundo!(5) Pelo trabalho, e só por  ele, o novo de Deus poderá chegar à Palestina. O novo só é experimentado  com o suor do trabalho na seara. Os dois elementos se  completam: um não pode ser dissociado do outro. Pelo trabalho,  possibilita-se a surpresa na humanidade!   

A relação da parábola da mostarda com nossa vida e realidade
  

O que interessa é que a mensagem da Palavra de Deus, por  meio da reflexão sobre a parábola da mostarda, seja compreendida  e reconhecida. Por isso, vale a pena lembrar os irmãos e as  irmãs dos fatos da vida que foram citados. Primeiro, é interessante  que se reporte ao que vem ocorrendo com os índios em Niterói,  que antes era apenas um movimento de poucas famílias que buscava  um local para manter a vida, a identidade, e que, agora,  desabrocha num movimento mais perceptível, com mais frutos.  Assim, parece que é a situação na tribo indígena que primeiro  era um movimento pequeno e sem influência, mas passando a se  articular, transformou-se num movimento que tem uma parcela  da opinião pública da cidade a seu favor. E, ainda, pela repercussão  que obteve, passou a ser um movimento canalizador das expressões  de indígenas na região fluminense, recebendo mais e  mais famílias da própria etnia e de outras da região.  Da mesma forma, pode-se perceber a articulação em torno da  água que brotou do olho d’água no sertão. Ele foi trabalhado pelas  pessoas para que desse o que comer e o que beber ao seu Chico e  ao seu pessoal.

Podemos perceber que, nos dois casos, a terra e o  movimento por si só são bons, mas que dependem muito do trabalho  e das condições humanas para que apareçam mais. Para que  possam ser percebidos e ganhar força, precisam ser trabalhados  com afinco e, assim, frutifiquem.

No caso do grãozinho de mostarda,  tem que ser colocado no local certo do solo, com uma quantidade  de água diária para que frutifique, tornando-se algo a olhos  vistos, chamando a atenção das pessoas, que podem ter até mesmo  outras percepções e ser de outros lugares.

1 SCHOTTROFF, Luise. As parábolas de Jesus: uma nova hermenêutica. São Leopoldo: Sinodal, 2010, p. 281-282.

2 GRABBE, Laster. Judaism from Cyrus to Hadrian. The Roman Period. Volume II. Minneapolis: Fortress Press, 1991, p. 441-442.

3 BERGER, Klaus. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1999, p. 441-442.

4 Esses dados da vegetação da época podem ser vistos em LANCELLOTTI, Angelo. Comentário ao Evangelho de São Mateus. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 131-133.

5 Para a questão de novos mundos e de novas perspectivas mais sociais pelo trabalho, veja SADER, Emir. El balance de outro mundo possible. São José, Costa Rica: Passos. Departamento Ecuménico de Investigación (DEI), n. 147, 2010, p. 33-34.