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Um presente de Maria para nossas vidas

Um presente de Maria para nossas vidas
24 de dezembro de 2020 Comunicação

Por Izaías Torquato*

 

Irmãs e irmãos, gente querida,

Concluímos mais um tempo de Advento. Nossas tradições cristãs nos animam a pensar e a passar esse tempo sob a condição da expectativa onde a presença de Jesus, entre nós, nos fará e trará dias melhores. Essa é nossa esperança, pois é chegado o Natal. Assim renova-se a esperança, Jesus nasceu e temos agora a oportunidade da criança renascer para nossas vidas. Renascer, ressurgir, ressuscitar são expressões bem presentes em nossas vivências de fé. Ou em nossa maneira de viver e crer na existência.

Que tempo difícil vivemos. Os meses que se passaram nos trouxeram várias reações em nossos próprios corpos e em toda Criação. Toda criação esteve em condição de gemido e choro, como expressa bem o texto de Romanos 8, 18-21:

“Penso que os sofrimentos do momento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós. A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus. a criação abriga a esperança, Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora”.

As nossas mentes foram bombardeadas com vários sentimentos de ameaça, medo, ansiedade, estresse, angústia e a presença real da morte, nossa irmã companheira na vida. Mas no contexto da família de Jesus tudo isso, todas essas sensações eram muito presentes. Uma adolescente que recebe a notícia de que vai ser mãe como está narrando no Evangelho de Lucas (Lc. 1, 26-38); o milagre do ventre de Isabel, com mais experiência de vida que sua prima Maria, um corpo se fazendo pronto em profecia como em encontramos narrado também neste mesmo Evangelho (Lc. 1, 36-37). Esses acontecimentos extraordinários não podem de maneira alguma esconder o contexto de ansiedade e dúvida que essas duas jovens viveram ao saber que estavam esperando seus filhos. Tudo isso num ambiente de ameaças sociopolíticas e religiosas daquele tempo. Duas mulheres fortes no plano de salvação e de implementação do Reino de Deus entre  nós. Os corpos de mulheres como o centro do mundo com a disposição de irradiar resistência e profetismo numa perspectiva cosmológica. Talvez aqui, quem sabe, poderíamos dedicar o ano de 2021 para refletir sobre teologias mulheristas e feministas numa perspectiva ecológica. Urge esse tempo de pensar a Bíblia e a vida ainda mais pela ótica das meninas e das mulheres.

Ao doar seu corpo Maria não é apenas protótipo e modelo para a Igreja ou para o mundo cristão, modelo de pureza e santidade inalcançável e absoluta sem conexão com nossa condição humana e nossas realidades. Ela sacrifica seu corpo com suas dores, seus medos e pesares para a encarnação de Jesus entre nós, Deus presente. Uma nova história surge para revelar que a Deidade deseja sentir as mesmas dores e desafios humanos que vivemos. Ela em nós e nós mesmas com toda Criação e as outras pessoas nessa comunidade cosmológica de sofrimentos e alegrias.

Você sentiu medo neste ano que termina? Monitorou seu corpo em busca de sintomas que poderiam colocar em risco sua saúde? Sentiu que a sua mente quase fracassou? Adoeceu? Teve de ir com urgência para o hospital? Para uma emergência? Está questionando como serão os próximos meses? Teme por sua integridade e de sua família? Sofreu com as dores deste mundo em cada notícia que apresentava os corpos de pessoas negras sacrificadas com tirania e tantas violências? Esse era o contexto de Jesus e das vidas em seu entorno.

Uma nova história surgia a partir das periferias, dos guetos, das vielas, dos corpos ameaçados e machucados de Belém da Judéia. Uma nova história, repito, que já não se faz nova entre nós depois de um ano em que perdemos quase 200 mil vidas para o COVID-19, onde as violências praticadas contra povos indígenas e quilombolas, pessoas idosas, crianças, meninas e mulheres aumentaram consideravelmente. Depois deste ano e de centenas de anos de racismo estrutural e naturalização das violências cometidas contra as populações empobrecidas e marginalizadas, teremos o desafio de resistir e enfrentar as injustiças cada vez mais presente em nossas vidas.

A pessoa pobre está no centro da história de Jesus mas não está presente na prática de nossas lideranças políticas, sociais e até mesmo religiosas. O muito falar pode estar até repleto do discurso adequado mas a prática – na intimidade –, expõe as nossas incoerências e contradições, nossos pecados ocultos nas nossas relações interpessoais e institucionais. Vamos aproveitar para revelar, para confessar cada pecado cometido na intimidade doméstica e em nossas relações eclesiais.  Vamos considerar a possibilidade de outro estilo de vida mais condizente com o modelo de vida de Isabel, Maria, Jesus e José.

Mas aqui dentro da nossa humanidade surge um canto de esperança: Deus está entre nós!

“O Senhor está aqui,

Seu Espírito está conosco!

Elevemos os corações,

Ao Senhor os elevamos!

Demos graças a Deus,

Assim fazê-lo é digno e justo”.

E podemos ainda acrescentar em nossas orações diárias:

“Maria nos presenteou Jesus,

Seu corpo e sua vida, doou por nós!  

Elevemos os corações,

A Ela os elevamos!

Demos graças,

Assim fazê-lo é digno e justo”.

Vivemos um tempo litúrgico em 2020 diferente de todos os outros já vividos por nossa geração, por nossas anciãs e por nossas ancestralidades nos últimos anos. Pareceu que não houve intervalo para descanso e só vivemos a Quaresma e o sentimento do Advento sem expectativa real do Natal. Porque a vida foi exigente e pesada por demais da conta para cada qual de nós. Mas é preciso reconhecer que reside em nós a teimosia profética da resistência e da esperança que se renova e que se manifestou a partir do ventre de Isabel e de Maria.

Que venham todos os tempos que temos para viver! E logo mais adiante colheremos frutos dessas causas e circunstâncias que temos vivido. Pois, “os que semeiam com lágrimas, ceifam em meio a canções. Vão andando e chorando ao levar a semente. Ao regressar, voltam cantando, trazendo seus feixes (Salmo 126, 5-6).

 

*Reverendo Anglicano, Teólogo e Cientista da Religião

Paróquia Anglicana São Felipe, Goiânia-GO

Diocese Anglicana de Brasília – IEAB.

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