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Sob o signo da Morte. Nota sobre governos e seus obituários

Sob o signo da Morte. Nota sobre governos e seus obituários
4 de março de 2021 Comunicação

Por Romero Venâncio*

 

Seja para negacionistas ou para não-negacionistas; seja para direita ou esquerda, chegamos no ponto: temos um obituário quase que diário nas últimas semanas para todos os lados e idades. Obviamente que as responsabilidades nunca são iguais para todos/todas. Um negacionista pobre de alguma periferia não tem a mesma reponsabilidade de um presidente de uma (esfrangalhada) república. Mesmo que ambos seja negacionistas É obvio também que não-negacionistas se cuidam mais e se preocupam mais com a devastadora situação de vivermos sob o signo da covid19.
A morte é sempre uma noticia grave ou como pensava o filósofo Sartre, o duro da morte é que é sempre a morte do outro. Sabemos dela porque o outro morre. quando chega nossa vez, não sabemos… Porque já não estamos na vida. Na lógica do pensador francês, esse é o pior da morte: saber sempre da morte do outro. Como se fosse mais trágico do que a nossa própria morte. Não sei se o filósofo tem razão, mas faz todo sentido nesse momento de Brasil apequenado, medíocre, sem rumo e sem uma cultura no presente que nos faça ver-viver as dores com mais dignidade. Até a dor nesse país tá indigna de se sentir. Parece que nada tem dignidade nesse país. Só parece. Não acredito que seja assim, apesar de parecer assim.

Esse covid poderia ser inevitável porque nos veio de fora e em forma da pandemia, mas a forma de combatê-lo jamais seria inevitável. Poderíamos tá fazendo algo racional, planejado, honesto e que traria mais esperança aos desesperançados nesse momento. A coisa tá tão grave que vou me permitir um minuto de “futurologia” no presente. Direi de maneira um tantinho romântica, o que faria se fosse eu o presidente da república (vejam que loucura pensei agora nesse momento triste!). Primeira coisa: transformaria todo o gabinete da presidência num grande ministério da saúde e com “super-poderes” para contratar agentes de saúde, para pesquisar sobre vacinas, para negociar com tudo que é instituição pública do país (desde o STF até os catadores de lixo das periferias…). Numa pandemia não é que tudo vale, mas tudo se justifica no combate ao vírus e na defesa da vida enquanto bem fundante.

Não precisa ser da área de saúde para saber que o Brasil tem tradição de vacinação em massa desde os anos 70. Eu fui vacinado várias vezes enquanto criança numa cidade do interior de Pernambuco de maneira sistemática e segura. Devemos sempre lembrar como se combateu e erradicou “poliomielite”. Será que não temos registro algum dessa jornada? Por que não recuperar essa história e aproveitar o que esse passado tem a ensinar no combate e esse vírus mortal de hoje? Em conversa com meus botões me pergunto se o Brasil já possuiu ou preparou o que poderíamos chamar em sentido latino/republicano de “estadista” (Dic. “Pessoa que revela grande domínio na arte de governar, grande habilidade e discernimento no que diz respeito às questões políticas, à administração do Estado”). Se teve no passado, pode até ser. Hoje, não vejo. Quem tá nesse governo, não perderei meu tempo em dizer o que desastrosamente tá fazendo todo dia e numa promovida incompetência sem tamanho na história desse pobre Brasil… E as ditas “oposições” usando a vacina para se promover no futuro. Dentro e fora desse governo, vacina e luta contra a covid19 virou plataforma de campanha eleitoral e grandes jogadas publicitárias. (salvo alguns pouco grupos da sociedade civil, que, como Quixotes, lutam dignamente contra a tragédia maior que ainda vem…). O resto tem sido aquele jogo de cena parlamentar cretino de palavrório vazio e autocentrado. Percebamos que assim, não se combate vírus algum e o pânico pode ser nosso horizonte… O “cada um por si” já tá mostrando suas garras…

O medo generalizado começa a ser pedagógico e pródigo, para nossa pior piora. Entendamos. Seria preciso em sentido pessoal uma força espiritual descomunal para aguentar o que estamos vendo e vivendo com alguma serenidade. Mas até nesse brasil (com “b” minúsculo mesmo), a religião, a religiosidade tá se tornando algo degradado, semelhante a uma suposta “Basílica” no meio de um planalto do nada que já acumulou bilhões em ofertas e ainda está nos alicerces (altamente simbólico nesse momento. Ou seria alegórico?). Como dizia um poeta do Século XX: Morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício. Nesse brasil é assim. Estamos assim.

* Professor no departamento de filosofia – UFS