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Reencantar-se com a Esperança na vida [Frei Carlos Mesters]

Reencantar-se com a Esperança na vida [Frei Carlos Mesters]
8 de março de 2021 Comunicação

 

 

Vamos passar os olhos no álbum do povo de Deus e ver de perto as mulheres que foram contempladas por Deus, para que o testemunho delas nos anime, nos oriente; e faça crescer em nós “a perseverança e a consolação que as Escrituras nos comunicam” (cf Rm 15,4). Veremos:

1. Mulheres contempladas por Deus no AT

2. A imagem da mulher no Antigo Testamento

3. Jesus e as mulheres

4. Jesus, o novo Adão, imagem de todos nós

5. Maria, a Mãe de Jesus, a nova Eva

6. Mulheres contempladas por Deus no NT

1. Mulheres contempladas por Deus no Antigo Testamento

1. Eva, mãe de todos os viventes (Gn 3,20)

A mulher recebeu o nome de Eva por ser “a mãe de todos os viventes” (Gn 3,20). Eva e Adão somos todos nós, seres humanos, independente de idade ou de raça, de condição social ou de grau de cultura, de gênero ou de religião. Os dois representam a nossa pequenez e também a nossa grandeza como seres humanos, criados à “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26). Tropeçando, caminhamos em direção a Deus. Todos e todas nascidos de Deus e querendo voltar para Deus: “Tu nos fizeste para Ti, e o nosso coração está inquieto até que não descanse em Ti”. O coração nos diz e a Bíblia confirma que o paraíso não foi destruído e pode ser alcançado (Gn 3,22-24). O velho Adão e a velha Eva que existem em todos nós (Rm 6,6; Col 3,9) devem ser renovados segundo a imagem do novo Adão e da nova Eva (Ef 4,16.22). A tarefa básica da nossa vida é renovar, passar do Antigo para o Novo Testamento. Nascemos velhos e velhas, e vamos morrer novos e novas, “novinhas”!. Graças a Deus!

Oração: Salmo 8: que valor imenso não deve ter o ser humano!

2. Sara, mãe de muitos povos e nações

Tanto Sara como Abraão, os dois já eram bem idosos quando foram chamados por Deus, ou melhor, quando descobriram o chamado de Deus que estava dentro de suas vidas. Sara era estéril. Quando recebeu o chamado para ser mãe deu risada (Gn 18,12). Adão também riu (Gn 17,17). Todos rimos a risada de incredulidade. Sara não foi capaz de crer na promessa, nem em si mesma, nem em Abraão. De fato, era muito difícil crer, pois ela já era de idade avançada e, além disso, era estéril. Como crer que poderia ser mãe! (Gn 18,9-15). E a promessa era muito grande: “Sua mulher Sarai não se chamará mais Sarai, mas Sara. Eu a abençoarei, e dela darei um filho a você, e eu o abençoarei. Dela nascerão nações e reis de povos” (Gn 17,15-16). Sara significa Princesa. Crer em Deus até que não era tão difícil. Mas Sara crer em Abraão e Abraão crer em Sara, e cada um dos dois crer em si mesmo: esta era e continua sendo a prova de fogo. Ao longo dos anos, Deus ou a própria vida foi tirando o tapete de debaixo dos pés dos dois. No fim, este casal de velhos soube aprofundar as perdas e ganhos do envelhecimento e firmou-se no rumo da sua vida. Isto faz pensar. Dos dois nasceram as três grandes religiões: judeus, cristãos e muçulmanos.

Oração: Salmo 77(76): A mão de Deus mudou. Ele passa pela vida sem deixar rastro.

3. Agar, a que contemplou Deus face a face

Agar era egípcia, escrava de Sara (Gn 16,1). A pedido de Sara e para poder garantir a realização da promessa, Abraão teve relações com Agar (Gn 16,2-3). Agar deu à luz um filho para Abraão, e Abraão deu o nome de Ismael ao filho que Agar lhe dera. “Abrão tinha oitenta e seis anos quando Agar deu à luz Ismael” (Gn 16,15-16). Tendo um filho, Agar se prevaleceu e perdeu o respeito pela sua patroa Sara que era estéril (Gn 16,4). Sara não agüentou o desaforo e maltratou Agar de tal maneira que esta fugiu de casa (Gn 16,5-6). Mas voltou. Mais tarde, depois que Isaque nasceu, “Sara viu que o filho que Abraão tinha tido com a egípcia Agar estava zombando de seu filho Isaque. Então ela disse a Abraão: “Expulse essa escrava e o filho dela, para que o filho dessa escrava não seja herdeiro com meu filho Isaac” (Gn 21,9-10). Abraão fez o que Sara pediu. Expulsada por Sara, sua patroa, Agar anda errante pelo deserto, carregando seu filho Ismael. Sem recursos, sem comida, não sabendo como enfrentar a situação, coloca o menino debaixo de uma árvore e se afasta: “Não quero ver morrer a criança!” (Gn 21,16). Sentou-se e começou a chorar e gritar. Mãe e criança choram! Aparece um anjo de Deus que diz: “O que é isso, Agar? Não tenha medo não! Deus ouviu os  gritos da criança do jeito que ela está aí” (Gn 21,17). O anjo mandou que ela levantasse o menino e o segurasse com firmeza. Em seguida, assim diz o texto:“Deus abriu os olhos de Agar”, e ela, de repente, enxergou um poço com água que antes não via (Gn 21,19). Imediatamente, se animou e começou a encontrar os meios para alimentar o menino e sobre­viver (Gn 21, 19). E o menino cresceu, lá mesmo no deserto, e se tornou uma nação forte (Gn 21, 20-21). De Agar a Bíblia ainda diz o seguinte: “Agar invocou o nome de Javé, que lhe havia falado, e disse: “Tu és o Deus-que-me-vê, pois eu vi Aquele-que-me-vê” (Gn 16,13). É a mulher que teve uma visão direta de Deus. Na carta aos Gálatas, Paulo reflete sobre o simbolismo de Sara e Agar, as duas alianças (Gal 4,21-31).

Oração: Salmo 63(62): O desejo de ver Deus: Há muito que te procuro com grande ansiedade!

4. Rebeca, esposa de Isaque

Um dos capítulos mais compridos do livro de Gênesis é a história de como o empregado de Abraão foi encontrar uma esposa para Isaque, seu filho (Gn 24,1-67). Parece um pequeno romance. Rebeca aceitou ir com o empregado de Abraão e tornou-se a esposa de Isaque. Como Sara, Rebeca era estéril. Isaque rezou por ela e ela concebeu (Gn 25,21). Ficou grávida de dois filhos. “As crianças, porém, lutavam dentro dela. Então ela disse: “Se é assim, para que viver?” Então foi consultar Javé. E Javé lhe disse: “Em seu ventre há duas nações, dois povos se separam em suas entranhas. Um povo vencerá o outro, e o mais velho servirá ao mais novo”. Quando chegou o dia do parto, Rebeca teve gêmeos. O primeiro saiu: era ruivo e peludo como um manto de pêlos, e lhe deram o nome de Esaú. Em seguida, saiu seu irmão, com a mão segurando o calcanhar de Esaú, e lhe deram o nome de Jacó” (Gn 25,22-26). Quando Isaque ficou velho, seus olhos não enxergavam mais. Querendo dispor todas as coisas antes de morrer, mandou Esaú preparar um prato gostoso, para que ele lhe pudesse dar a benção da primogenitura (Gn 27,1-4). Rebeca, escutou a conversa e, aproveitando-se da cegueira de Isaque, deu um jeito para que Jacó pudesse receber a bênção. Esaú queria que o pai voltasse atrás, mas Isaque, apesar de sentir-se vítima da sua cegueira, manteve a palavra (Gn 27,6-45).

Oração: Salmo 38(37): Súplica de um velho cego e enfraquecido que quer ser fiel

5. Raquel, a mulher mais amada de Jacó

Fugindo da vingança do seu irmão Esaú, Jacó foi para o Norte, para Harã, a terra dos seus antepassados (Gn 28,10). Chegou perto de um poço, onde descansou (Gn 29,1-2). Foi lá no poço que ele encontrou Raquel que vinha buscar água. Foi amor à primeira vista (Gn 29,6-14). Jacó logo falou com o pai da moça pedindo para poder casar com Raquel. Ofereceu trabalhar sete anos para poder casar com ela (Gn 29,18). No fim deste namoro prolongado de sete anos, Labão, o pai de Raquel, em vez de dar Raquel a Jacó, enganou-o deu a ele Lia, a irmã de Raquel. Jacó reclamou e aceitou trabalhar mais sete anos para poder casar com Raquel (Gn 29,20-30). Lia teve vários filhos, mas Raquel era estéril (Gn 29,31). Raquel ficou com inveja de Lia e, para poder ter um filho, fez como Sara: deu a Jacó sua empregada chamada Bala (Gn 30,1-8). No fim, Raquel, ela mesma, teve um primeiro filho, chamado José, que se tornou o filho mais querido de Jacó (Gn 30,22-24). O nome José significa: “Que Deus me dê mais um filho!” (Gn 30,24). Grávida pela segunda vez, Raquel deu à luz. O parto foi muito difícil e Raquel morreu. Antes de morrer ainda teve tempo de dar um nome ao recém-nascido nome de Benoni (i.é. filho da minha dor), mas Jacó o chamou de Benjamim (Gn 35,16-20) (filho da minha direita). Raquel foi enterrada na estrada de Belém.

Oração: Salmo 128: Salmo da esposa feliz com muitos filhos

6. Miriam, irmã de Moisés, e as parteiras

O Êxodo foi desencadeado não por Moisés, mas por quatro mulheres: Sefra e Fua, duas parteiras (Ex 1,15), e Miriam e Joquebed, sua mãe. Miriam e Moisés são ambos filhos de Amram e Joquebed (Ex 6,20). Miriam, a irmã mais velha, é chamada por Deus pelo seu próprio talento e pela necessidade do momento. Moça experta, ela soube salvar a vida do irmão Moisés e conseguiu que Joquebed, a mãe de Moisés, fosse paga pela filha do faraó para criar seu próprio filho (Ex 2,1-10). Assim, graças à esperteza da irmã, Moisés foi salvo das águas, foi criado pela mãe e recebeu sua formação na casa do faraó. No momento mais crítico da saída do Egito, quando estavam sem saída diante das águas fechadas do Mar Vermelho, Moisés rezou a Deus e Deus respondeu: “Por que você está clamando por mim? Mande o povo dar um passo!” (Ex 14,15). O povo deu um passo, o mar se abriu e o povo pôde escapar para a liberdade. Neste momento, Miriam, também já bem idosa, convoca as mulheres para celebrar a vitória depois da travessia do Mar Vermelho (Ex 15,20). O Cântico de Miriam é um dos textos mais antigos da Bíblia. Ao redor dele foi se acrescentando o resto como cera ao redor do pavio (Ex 15,21). A Bíblia informa que Miriam, por castigo de Deus, ficou coberta de lepra por ter tida a coragem de criticar a liderança excessiva de Moisés (Nm 12,1-16). Depois da ressurreição, assim espero, vamos ficar sabendo se Miriam não tinha um pouco de razão em levantar a crítica que lhe mereceu um tão grande castigo.

Oração: Cântico de Miriam e Moisés (Ex 15,1-21): Javé é a minha força e o meu canto

7. Ana, mãe de Samuel

Ana, esposa de Elcana, era estéril e era maltratada pela sua rival Fenena. Por ocasião da romaria ao santuário de Silo, ela entrou na capela e derramou sua alma na presença do Senhor. Ela queria ter um filho. Fazia sua prece não em voz alta como era o costume, mas apenas suspirando e movendo os lábios (1Sm1,10-11). Eli, o sacerdote levita que tomava conta do santuário, foi mal educado com ela e disse: “Até quando você vai ficar embriagada? Acabe primeiro com essa bebedeira!”. Mas Ana soube manter sua dignidade e respondeu com muita educação: “Não, meu senhor. Eu sou uma mulher que sofre; não bebi vinho, nem bebida forte. Eu estava apenas derramando minha alma diante de Javé. Não pense que esta sua serva seja uma mulher vadia. Falei até agora, porque estou muito triste e aflita”. (1Sm 1,15-16). Então, Eli mudou de atitude e teve uma conversa muito boa com ela. Através de Eli ela recebeu o chamado de Deus para ser mãe: “Vá em paz. Que o Deus de Israel conceda o que você lhe pediu”. Em ação de graças, por ter recebido a graça de ser mãe, ela fez um cântico bonito, no qual expressa a alegria do reen­contro com o ideal da sua vida (1Sm 2,1-10). Foi neste Cântico de Ana que Maria, a mãe de Jesus, se inspirou para fazer o Magnificat. Por isso, a tradição diz que o nome da mãe de Nossa Senhora, a avó de Jesus, se chamava Ana.

Oração: Cântico de Ana (1Sm 2,1-10): A mulher estéril dá à luz sete filhos

8. Gomer e Oséias, casal profético

A monarquia soube manipular a antiga religião de fertilidade de Baal. Os reis aconselhavam as moças a irem nos “lugares altos” para serem prostituídas, em nome de Deus, pelos freqüentadores dos “lugares altos”. Os filhos e as filhas que assim nasciam eram propriedade do rei e serviriam como soldados, como trabalhadores ou como empregadas domésticas, amantes e para serem prostituídas nos “lugares altos”. Este costume era apresentado ao povo como sendo a vontade de Deus. Assim, Oséias, como todos os rapazes da época, freqüenta o lugar alto, onde ele encontra Gomer, moça prostituída. Os dois se querem bem e casam. Ao mesmo tempo, continuam freqüentando o lugar alto. Mas acontece algo novo. Eles experimentam o amor sincero entre os dois como um dom de Deus e, pouco a pouco, a experiência do amor humano leva os dois a desconfiar da ideologia com que a monarquia apresentava o culto da fertilidade. Eles tomam a decisão de romper com o culto da prostituição sagrada e resolvem seguir a vocação nova que estão sentindo a partir da experiência do amor. Diz Oséias: “Então eu a comprei por quinze moedas de prata e uma carga e meia de cevada, e lhe (Gomer) disse: “Por um bom tempo você ficará em sua casa para mim, sem se prostituir, sem relação com homem nenhum, e eu farei a mesma coisa por você” (Os 3,2-3).

Oração: Cântico dos Cânticos 8,6-7: A força do amor

9. Noemi e Rute

Duas mulheres, uma bem idosa, Noemi, e a outra bem jovem, Rute. Numa época de fome, Noemi junto com o marido e seus dois filhos migrou para a terra de Moab, terra estrangeira do outro lado do Jordão. Estando por lá os dois filhos casaram com moças moabitas. Rute é uma delas. A outra se chamava Orfa. Morreram tanto o marido de Noemi como os dois filhos. Sobraram três viúvas, sem filhos. De acordo com as leis da época, as três estavam, humanamente falando, sem futuro. Noemi resolveu voltar para sua terra. As duas noras quiseram ir com ela. Mas Noemi disse: “Fiquem aqui. Javé vai dar um marido para vocês!” Orfa voltou atrás, mas Rute nãoquis saber de abandonar Noemi: “Teu povo, meu povo; teu Deus,meu Deus!” Ficaram só Noemi e Rute. Serão elas que vão conduzir toda a história, orientando-se sempre pela reflexão sobre os acontecimentos à luz da Palavra de Deus. É delas que vai nascer o futuro do povo e que surgirá o Messias. Esta novela tão envolvente é uma crítica velada à política clerical de Esdras e Neemias e da elite de Jerusalém que queriam expulsar as mulheres estrangeiras e isolar o povo no conjunto das nações. Rute, estrangeira, através da sua solidariedade com Noemi, tornou-se a bisavó do futuro rei Davi. É muito bonita a maneira como Rute expressou a sua opção pela pobre e velha Noemi que gerou um novo futuro para o povo de Deus (Rute 1,15-18).

Oração: Opção de Rute por Noemi (Rt 1,15-18): A opção pelos pobres gera o futuro do povo

10. Judite e Ester, elas salvaram o seu povo

Tanto a história de Judite como a de Ester são novelas populares, narradas e transmitidas nas rodas de conversa e nas celebrações populares para estimular a fé, a esperança e a resistência do povo nas épocas de perseguição. Difícil de saber até onde vai a história e onde começa o bom conselho. Pouco importa. O que importa é ler estas histórias como expressão da vontade do povo de não entregar os pontos. São histórias populares de resistência que não têm medo de criticar a opinião diferente do clero. Judite era uma viúva jovem, muito respeitada. Ela criticou a atitude entreguista dos sacerdotes de Jerusalém. Usou a arma da sua beleza para poder derrotar Holofernes, o general poderoso de Nabucodonosar. Ester é o nome persa de Hadassa, uma órfã de pai e mãe, criada pelo tio Mardoqueu. Ela se tornou rainha por acaso, mas soube usar a sua posição de destaque para defender o seu povo contra a prepotência de alguns antisemitas que queriam eliminar o povo de Deus

Oração: Judite 9,5-12: Oração de Judite. Ester 4,17k a 17z: Oração de Ester

11. Ana, esposa de Tobit

O que dissemos a respeito das histórias de Ester e Judite vale também para a história de Tobias. O pai de Tobias se chamava Tobit. Era um homem muito religioso e observante da lei de Deus. Certo dia, após ter enterrado um morto, descansou de rosto descoberto e uns pardais deixaram cair excremento quente nos olhos de Tobit e ele ficou cego. Não podendo mais trabalhar, sua esposa Ana começou a trabalhar para fora para poder sustentar a família. Recebia encomendas de fazer roupa. Numa destas entregas, ela recebeu de presente um cabrito. O próprio Tobit conta: “Eles lhe pagaram tudo e ainda lhe deram um cabrito para o almoço. Quando ela chegou em casa e o cabrito começou a berrar, eu a chamei e lhe perguntei: “De onde veio esse cabrito?! Será que não foi roubado? Devolva ao dono! Não podemos comer nada que seja roubado!” Ana me respondeu: “Eles me deram o cabrito, além do pagamento”. Eu não acreditei, e insisti para que devolvesse o cabrito aos donos. Eu estava envergonhado por causa dela. Então ela me disse: “Onde estão as suas esmolas? Onde está o bem que você fez? Está vendo a que ponto chegou?!” (Tobias 2,12-14) Ana perdeu a paciência e criticou o marido. E com razão, pois por causa do excesso de observância, Tobit chegou a ofender a esposa e ele mesmo chegou a perder o sentido da vida. Não agüentou a crítica a rezou a Deus: “Sim, é melhor morrer do que viver agüentando esta prova e ouvindo tantos ultrajes” (Tobias 3,6).  É melhor ser bem humana e não exagerar na rigidez das observâncias, pois elas afastam de Deus e desvirtuam o sentido da vida.

Oração: Tobias 3,1-6: Oração de Tobit.

12. A mãe dos sete filhos macabeus

Na perseguição movida contra os judeus pelo rei Antíoco, esta mãe foi presa com seus sete filhos. Mulher forte, teve de presenciar a tortura até à morte de seus sete filhos pelo rei. Mas ela não se deixou intimidar pela dor. Ficou firme e soube animar seus filhos a perseverar na fé dos pais até à morte (2Mac 7,1-42).

Oração: Salmo 34(33): uma mãe de família transmite sua fé para seus filhos e netos

 

2. A imagem da mulher no Antigo Testamento

No relato sobre a manifestação da Sabedoria Divina na história do povo de Deus (Eclo 44-50), o autor do livro do Eclesiástico só conservou os nomes dos homens. Esqueceu as mulheres. Quando fala da mulher, manifesta um certo desprezo (Eclo 25,13); e quando diz coisas boas sobre ela, é só a partir do ponto de vista do homem (Eclo 26,1-2.13; 36, 21-27). Porém, quando fala da Sabedoria Divina, ele a personifica e a elogia sob a figura de uma mulher (Eclo 4,11-19; 14,20-15,10; 24,1-29).

Estas duas tendências, marginalização e valorização da mulher, aparecem em todo o Antigo Testamento, e de maneira progressiva. Na medida em que cresce a marginalização, crescem também a resistência e a valorização da mulher.

Marginalização progressiva da mulher

Comparando a posição da mulher no período depois do exílio com a de antes do exílio, nota-se um retrocesso. Desde Esdras e Neemias, a tendência oficial era de excluir a mulher de toda a atividade pública e de considerá-la inapta para qualquer função na sociedade e no plano de Deus, a não ser para a função de mãe e de trabalhadora em casa, que educa os filhos.

O que mais contribuiu para a marginalização foi a lei da pureza. A mulher era declarada impura por ser mulher, por ser filha, por ser esposa, por ser mãe. Por ser mulher: a menstruação a torna impura durante sete dias, e causa impureza nos outros. Quem toca na mulher menstruada deve purificar-se (Lv 15,19-30). Por ser filha: o filho que nasce traz 40 dias de impureza (Lv 12,2-4); mas a filha, 80 dias! (Lv 12,5). Por ser esposa: a relação sexual a torna impura durante um dia (Lv 15, 18). Por ser mãe: dando à luz, ela se torna impura (Lv 12,1-5). E não havia meio para uma mulher manter sua impureza em segredo, pois a lei obrigava as outras pessoas a denunciá-la (Lv 5,1-6).

Esta legislação fez nascer a mentalidade, segundo a qual a mulher era inferior ao homem. Alguns provérbios revelam esta discriminação (Eclo 42,9-11; 22, 3). A marginalização chegou a ponto de considerar a mulher como perigo, como a causa de todos os males (Eclo 42,13-14; 25,13; 25,24).

As causas que contribuíram para este inacreditável desprezo são várias: (1) vontade do homem em manter o domínio; (2) interesse do sistema monárquico em aumentar a reprodução e ter um maior número de pessoas para trabalhar e produzir; (3) interesse do Templo em garantir as ofertas pelas purificações; (4) tabus culturais relacionados com vida, morte e sangue; (5) mulher como objeto de prazer para o homem.

Alguns levam susto quando descobrem estas coisas na Bíblia. Não leve susto não! Dê graças a Deus! A Bíblia registra sem erro os erros do passado. Retrata sem mentira a sociedade mentirosa tal como era, com todas as suas falhas e lutas. São Paulo diz que todas estas coisas, tanto as boas como as más, foram escritas para servir de instrução para nós que tocamos o fim dos tempos, para não errarmos onde eles erraram (1 Cor 10,6-11). Tudo isto mostra como Deus ajuda o seu povo a crescer. Mostra sobretudo a alegria da Boa Nova de Jesus para o povo daquele tempo e para nós até hoje!

Valorização e resistência da mulher

Dentro do contexto da época, a situação da mulher no povo da Bíblia não era pior do que nos outros povos. Era a cultura geral. Até hoje, em muitos povos continua esta mesma mentalidade. Mas como hoje, assim também antigamente, desde o começo da história do povo da Bíblia, sempre houve reações em contrário à marginalização da mulher: (1) Agar, rejeitada por Sara e Abraão, foi aceita por Deus e teve uma visão divina (Gn 16,1-15; 21,1-20); (2) Sefra e Fua, as duas parteiras, estão no início da libertação do Egito (Ex 1,15-22); (3) Miriam, irmã de Moisés, convoca as mulheres para cantar e animar a caminhada do povo (Ex 15,19-21); (5) Débora conduz o exército para libertar o povo da opressão (Jz 4,1-16; 5,1-31); (6) Jael, a mulher quenita, vence e mata Sisara, o general do exército de Jabin, rei de Canaã (Jz 4,17-24). A memória destes atos de resistência era como uma semente de resistência. Neles transparece a inconformidade com a marginalização e a exclusão da mulher. O mesmo valor de semente de resistência encontramos nas primeiras páginas da Bíblia, onde se afirma a igualdade do homem e da mulher como imagem de Deus  (Gn 1,27).

Estas sementes começaram a dar o seu fruto, sobretudo depois do exílio, quando a mulher judia era marginalizada como impura (cf Lv 15,19-30; 12,1-8), e a estrangeira era expulsa como perigosa (cf Esd 9,1-2; 10,1-3). Ou seja, a resistência e a valorização da mulher cresceram no período em que a sua marginalização era mais pesada. Vários livros sapienciais registram esta voz da oposição e neles a mulher aparece não como mãe nem como esposa, mas como mulher que sabe usar sua beleza e feminilidade para lutar pelos direitos dos pobres e assim defender a Aliança do povo. E ela luta não a favor do Templo, nem a favor de leis abstratas, mas sim a favor da vida do povo. Eis alguns exemplos:

1. O Cântico dos Cânticos: A mulher aparece como pessoa independente que, para poder encontrar o seu amado, enfrenta os guardas da cidade (Ct 3,1-4; 5,2-8), o rival que a persegue (Ct 8,11-12), e os irmãos que querem protegê-la (Ct 8,8-10). O Cântico dos Cânticos reafirma a dignidade da mulher falando dela enquanto mulher e não enquanto mãe.

2. O livro de Rute: Duas mulheres pobres, ambas viúvas, das quais uma estrangeira, estão na origem da reconstrução do povo. São elas que tomam as iniciativas para reconquistar os direitos perdidos e para fazer observar a lei do resgate. É de uma estrangeira que nasce o avô do messias.

3. Os livros de Judite e Ester: Judite, mulher de um povoado imaginário da Samaria, contesta a decisão tomada pelos anciãos e sacerdotes. Sozinha, ela enfrenta o exército inimigo e consegue derrotar o general Holofernes, cortando-lhe a cabeça. Ester é a mulher que se engaja na luta pela sobrevivência do povo.

4. O Elogio da Mulher forte: Traz uma descrição muito bonita da atuação da mulher em casa. É ela, a mulher, que coordena a vida em família, cuidando de todas as coisas. Eis o que diz o elogio: “Quem poderá encontrar a mulher forte? Ela vale muito mais do que pérolas. Seu marido confia nela e não deixa de encontrar vantagens. Ela traz para ele a felicidade e não a desgraça, em todos os dias de sua vida” (Prov 31,10-12). No fim, o elogio termina assim: “Ela abre a boca com sabedoria, e sua língua ensina com bondade. Ela supervisiona o andamento da casa, e seu alimento é fruto do seu trabalho. Seus filhos se levantam para cumprimentá-la, e seu marido a elogia: “Muitas mulheres são fortes, mas você superou a todas elas!” A graça é enganadora e a beleza é passageira, mas a mulher que teme a Javé merece louvor. Cantem o sucesso do trabalho dela, e que suas obras a louvem na praça da cidade” (Prov 31,26-31).

5. O Elogio da Mulher, imagem da Sabedoria de Deus

Este texto é o que mais ajudou os primeiros cristãos a entender quem era Jesus e o que Jesus significava no conjunto do plano da Salvação. Aqui segue o texto por inteiro (Prov 8,22-36). Procure saboreá-lo:

22  Javé me produziu como primeiro fruto de sua obra, no começo de seus feitos mais antigos.

23  Fui estabelecida desde a eternidade, desde o princípio, antes que a terra começasse a existir.

24  Fui gerada quando o oceano ainda não existia, e antes que existissem as fontes de água.

25  Fui gerada antes que as montanhas e colinas fossem implantadas,

26  quando Javé ainda não tinha feito a terra e a erva, nem os primeiros elementos do mundo.

27  Quando ele fixava o céu e traçava a abóbada sobre o oceano, eu aí estava.

28  Eu me achava presente quando ele condensava as nuvens no alto e fixava as fontes do oceano;

29  quando punha um limite para o mar, de modo que as águas não ultrapassassem a praia; e também quando assentava os fundamentos da terra.

30  Eu estava junto com ele, como mestre-de-obras. Eu era o seu encanto todos os dias, e brincava o tempo todo em sua presença;

31  brincava na superfície da terra, e me deliciava com a humanidade.

3. Jesus e as mulheres

Como vimos, no Antigo Testamento, na medida em que crescia a marginalização, cresciam também a resistência e a valorização da mulher. Esta dupla tendência alcança o seu ponto alto no Novo Testamento. Na época do Novo Testamento, a mulher vivia marginalizada. Na sinagoga ela não participava, na vida pública não podia ser testemunha. Ao mesmo tempo, a resistência da mulher contra a exclusão vinha crescendo e encontrou eco e acolhida em Jesus. Eis alguns episódios em que transparecem o inconformismo e a resistência das mulheres no dia-a-dia da vida e o acolhimento que Jesus lhe dava:

1. A moça prostituída tem coragem de desafiar as normas da sociedade e da religião. Ela entra na casa de um fariseu para encontrar-se com Jesus, e tem gestos de independência como, por exemplo, soltar os cabelos em público, o que não era permitido. Ela é censurada pelo fariseu, mas Jesus a acolhe e a defende contra o fariseu (Lc 7,36-50).

2. A mulher encurvada não se importa com os gritos do dirigente da sinagoga. Ela busca a cura, mesmo em dia de sábado. Quando a vida entra em jogo, o povo é capaz de perceber a relatividade das normas. Ela é acolhida por Jesus como “filha de Abraão”, isto é, como membro pleno do povo de Deus. Jesus a defende contra o dirigente da sinagoga (Lc 13,10-17).

3. A mulher considerada impura por causa do fluxo de sangue, tem a coragem de meter-se no meio da multidão e de pensar exatamente o contrário da doutrina oficial. A doutrina dizia: “Se eu tocar nele, ele ficará impuro!” Mas ela dizia: “Se eu tocar nele, ficarei curada!” (Mc 5,28). Sem nenhuma censura ela é acolhida e curada por Jesus (Mc 5,25-34).

4. A Samaritana, desprezada como herética, tem a coragem de interpelar Jesus e de mudar o rumo da conversa por ele iniciada (Jo 4,19.25). Jesus tenta comunicar com ela no nível do trabalho (água) e da família (marido). Mas ela puxa o assunto para a religião (onde adorar a Deus?). No Evangelho de João, ela é a primeira pessoa a receber o segredo de que Jesus é o Messias (Jo 4,26).

5. A mulher estrangeira de Tiro e Sidônia não aceita a sua exclusão e sabe argumentar a ponto de conseguir mudar a opinião de Jesus e ser atendida por ele (Mc 7, 24-30). Este episódio mostra que Jesus descobria a vontade do Pai estando sempre atento às reações das pessoas.

6. Jesus tira o privilégio do homem frente à mulher e propõe um novo tipo de relacionamento entre os dois. De um lado, não permite o casamento em que o homem pode mandar a mulher embora. De outro lado, não permite o celibato do fulano que recusa o casamento por não querer viver em pé de igualdade com a mulher (Mt 19,10-12).

7. As mães com filhos pequenos enfrentam os discípulos e são acolhidas e abençoadas por Jesus (Mt 19,13-15; Mc 10,13-16). A resistência dos discípulos, muito provavelmente, vinha do fato de que mulheres com crianças pequenas geralmente viviam em estado permanente de impureza legal. O amor à vida e às crianças leva as mulheres a transgredir as normas da pureza. E Jesus as acolhe e atende, tocando, abraçando e abençoando as crianças.

8. Um grupo de mulheres segue Jesus. Jesus permitia que um grupo de mulheres o “seguisse” (Lc 8,2-3; 23,49; Mc 15,41). A expressão seguir Jesus tem aqui o mesmo significado que tem quando é aplicado aos homens (cf Lc 8,1-2). Elas eram discípulas de Jesus. A tradição eclesiástica posterior não valorizou este dado com o mesmo peso com que valorizou o seguimento de Jesus por parte dos homens.

9. As mulheres, que desafiaram o poder e ficaram perto da cruz de Jesus (Mt 27,55-56.61), foram as primeiras a experimentar a presença de Jesus ressuscitado (Mt 28,9-10). Maria Madalena, considerada possessa, mas curada por Jesus (Lc 8,2) recebeu a ordem de transmitir a Boa Nova da ressurreição aos apóstolos (Jo 20,16-18). A tradição posterior esqueceu este dado e eliminou as mulheres da lista dos testemunhos oficiais da ressurreição (cf 1 Cor 15,2-50).

4. Jesus, o novo Adão, imagem de todos nós

Jesus morreu muito jovem. Tinha apenas 33 anos. Ressuscitado, ele não morre mais e sustenta a fé de todos nós, velhos e jovens, homens e mulheres de todas as idades. Dele falamos pouco neste álbum, porque ele está em todos e em todas, ele é a raiz, o tronco, os ramos, o fruto. “Eu sou a videira, vocês são os ramos”. Falando dos outros falamos dele, de Jesus, o filho de Maria.

Jesus recebe muitos títulos. Só no Novo Testamento são mais de 120. Alguns títulos são mais recentes, outros são mais antigos. Os títulos dados a Jesus são tentativas da parte dos primeiros cristãos para dizer quem é Jesus para eles. Muitos títulos foram tirados do Antigo Testamento. Os três títulos mais antigos de Jesus estão nesta frase do evangelho de Marcos: “O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar sua vida em resgate para muito“ (Mc 10,45). Filho do Homem, Servo de Deus e Libertador dos irmãos.

1. Filho do homem

Na visão do profeta Daniel, os grandes impérios do mundo são apresentados sob a figura de animais, pois os impérios eram e são animalescos, desumanizam a vida, “animalizam” as pessoas, até hoje. O império ou Reino de Deus é apresentado sob a figura do Filho do Homem que representa, não um indivíduo, mas sim, como ele mesmo diz, o “povo dos Santos do Altíssimo” (Dn 7,27; cf Dn 7,18). É o povo de Deus que não se deixa desumanizar nem enganar ou manipular pela ideologia dominante dos impérios animalescos. A missão do Filho do Homem, isto é, do povo de Deus, consiste em realizar o Reino de Deus como um reino humano. Reino que não persegue a vida, mas sim a promove! Humaniza as pessoas. Apresentando-se aos discípulos como Filho do Homem, Jesus assume como sua esta missão que é a missão de todo o Povo de Deus. É como se dissesse a eles e a todos nós: “Venham comigo! Esta missão não é só minha, mas é de todos nós! Vamos juntos realizar a missão que Deus nos entregou, e realizar o Reino humano e humanizador que ele sonhou!” E foi o que ele fez e viveu durante toda a sua vida, sobretudo, nos últimos três anos. Dizia o Papa Leão Magno: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano”. Quanto mais humano, tanto mais divino. Quanto mais “filho do homem” e tanto “filho de Deus!” Tudo que desumaniza as pessoas afasta de Deus, também a vida religiosa, mesmo carmelitana. Foi o que Jesus condenou, colocando o bem da pessoa humana como prioridade acima das leis, acima do sábado (Mc 2,27).

2. Servo de Javé

Entre os judeus havia gente que esperava um Messias Rei (Mc 15,9.32). Outros, um Messias Santo ou Sumo Sacerdote (Mc 1,24). Outros, um Messias Guerrilheiro subversivo (Lc 23,5; Mc 15,6; 13,6-8). Outros, um Messias Doutor (Jo 4,25; Mc 1,22.27). Outros, um Messias Juiz (Lc 3,5-9; Mc 1,8). Outros, um Messias Profeta (Mc 6,4; 14,65). Só os pobres de Javé, esperavam o Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (Is 42,1; 49,3; 52,13). Somente os pobres valorizavam a esperança messiânica como serviço ecumênico do povo de Deus à humanidade. Maria, a pobre de Javé, disse ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor!” Foi dela que Jesus aprendeu o caminho do serviço. E Jesus dizia: “Não vim para ser servido mas para servir (Mc 10,45). Este povo-servo é descrito como aquele que “não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta fumaça” (Is 42,2). Ou seja, perseguido, não persegue; oprimido, não oprime; machucado, não machuca. Nele o vírus da violência opressora do império não consegue penetrar. Esta atitude resistente do Servo de Javé é a raiz da justiça que Deus quer ver implantada no mundo todo. Por isso, ele chama o povo para ser o seu Servo com a missão de irradiar esta justiça no mun­do inteiro (Is 42,2.6; 49,6). Jesus percorreu o caminho do serviço até o fim. É nesta sua atitude de serviço que ele nos revela a face de Deus que nos atrais, e indica o caminho de volta Deus.

3. Redentor

O termo hebraico goêl. É um termo tão rico que não tem tradução unívoca. No Novo Testamento ocorrem os termos: libertador, resgatador, redentor, salvador, consolador, advogado, paráclito, defensor, parente próximo, irmão mais velho, primogênito. O seu significado era o seguinte. No tempo de Jesus, em nome da Lei de Deus, muita gente era excluída e marginalizada. Jesus, a partir da sua experiência de Deus como Pai, denuncia esta situação que esconde o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23,13-36). Como parente próximo (goêl, redentor), oferece um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Acolhe os que não eram acolhidos e, na sua nova família (Mc 3,34), recebe como irmão e irmã aos que a religião e o governo desprezavam e excluíam: os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11); os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42); os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26); os marginalizados: mulheres, crianças e doentes(Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s); os colaboradores: publicanos e soldados(Lc 18,9-14;19,1-10); os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,­20.­24; Mt 11,25-26). Todas estas pessoas, inclusive Paulo, o perseguidor, tiveram a experiência de terem sido resgatados para Deus por Jesus, o irmão mais velho, o primogênito (Col 1,15; Apc 1,5), que para com elas cumpriu o seu dever de goêl: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Ele se fez escravo, esvaziou-se, para nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9), para que nós pudéssemos recuperar a liberdade e retomar a vida em fraternidade. Apresentando-se como goêl, redentor, dos irmãos e irmãs excluídas da convivência comunitária, Jesus revela a face de Deus como Pai, como Mãe, que acolhe a todos e vai atrás dos abandonados.

Resumindo. Foi através da janela destes três nomes Filho do Homem, Servo de Deus e Redentor, os três tirados do Antigo Testamento, que os primeiros cristãos olhavam para Jesus e transmitiam para os outros o significado de Jesus para as suas vidas: O Filho do Homem se caracteriza pela humanidade; o Servo de Deus, pelo serviço; o Redentor, pela acolhida aos excluídos. Humanizar, Servir, Acolher. São os três traços principais por onde Deus nos revela o seu rosto em Jesus e nos atrai para si. Eles indicam o caminho mais antigo e mais tradicional para nós voltarmos para a nossa origem e vivermos o essencial da Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. Eles nos ajudam a entender como Jesus é o Grande e Querido Filho de Deus.

Resumo: “Este é o meu mandamento: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei!”

Em Jesus, o amor é o princípio e o fim de tudo. Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão. Jesus imitou o Pai e revelou o seu amor. Cada gesto, cada palavra de Jesus, desde o nascimento até à hora de morrer na cruz, era uma expressão deste amor. Foi um crescendo contínuo. A manifestação plena foi quando na Cruz ofereceu o perdão ao soldado que o torturava e matava. O soldado, empregado do império, prendeu o pulso de Jesus no braço da cruz, colocou um prego e começou a bater. Deu várias pancadas. O sangue espirrava. O corpo de Jesus se contorcia de dor. O soldado, mercenário ignorante, alheio ao que estava fazendo e ao que estava acontecendo ao redor, continuava batendo como se fosse um prego na parede da casa para pendurar um quadro. Neste momento Jesus dirige ao Pai esta prece: “Pai, perdoa! Eles não sabem o que estão fazendo!” Por mais que quisessem, a desumanidade do sistema não conseguiu apagar em Jesus a humanidade. Eles o prenderam, xingaram, cuspiram no rosto dele, deram soco na cara, fizeram dele um rei palhaço com coroa de espinhos na cabeça, flagelaram, torturaram, fizeram-no andar pelas ruas como um criminoso, teve de ouvir os insultos das autoridades religiosas, no calvário o deixaram totalmente nu à vista de todos e de todas. Mas o veneno da desumanidade não conseguiu alcançar a fonte da humanidade que brotava de dentro de Jesus. A água que jorrava de dentro era mais forte que o veneno que vinha de fora, querendo de novo contaminar tudo. Olhando aquele soldado ignorante e bruto, Jesus teve dó do rapaz e rezou por ele e por todos: “Pai perdoa!” E ainda arrumou uma desculpa: “São ignorantes. Não sabem o que estão fazendo!” Diante do Pai, Jesus se fez solidário com aqueles que o torturavam e maltratavam. Era como o irmão que vem com seus irmãos assassinos diante do juiz e ele, vítima dos próprios irmãos, diz ao juiz: “São meus irmãos, sabe. São uns ignorantes. Perdoa. Eles vão melhorar!” Era como se Jesus estivesse com medo que o mínimo de raiva contra o rapaz pudesse apagar nele o restinho de humanidade que ainda sobrava. Este gesto incrível de humanidade foi a maior revelação do amor de Deus. Jesus pôde morrer: “Está tudo consumado!” E inclinando a cabeça, entregou o espírito (Jo 19,30). Dizia o Papa Leão Magno: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano”

Oração: Pai nosso (Mt 6,9-13).

5. Maria, a mãe de Jesus, a nova Eva

Uma tradição diz que Maria, depois da morte de Jesus, foi com São João para Éfeso. Ela morreu por lá já bem idosa com mais de 90 anos de idade, e depois foi assunta ao céu. Outra tradição diz que ela não morreu, mas que foi levada diretamente ao céu. Na pietà de Miguelangelo, Maria aparece bem jovem, mais jovem que o próprio filho crucificado, quando já devia ter no mínimo perto dos 50 anos. Perguntado por que tinha esculpido o rosto da Maria tão jovem, Miguelangelo respondeu: “As pessoas apaixonadas por Deus não envelhecem nunca”.

Na Bíblia, se fala muito pouco de Maria. Ao todo, são apenas sete os livros do Novo Testamento que falam de Maria: 1. Gálatas 4,4; 2. Marcos 3,20-21.31-35; 3. Mateus 1,1 a 2,,23; 4. Lucas ,1,1 a 2,52; 11,27-28; 5. Atos 1,12-14; 6. João 2,1-13 e 19,25-27; 7. Apocalipse 12,1-17.

Maria, ela mesma fala pouco A Bíblia conservou apenas sete palavras. Cada uma destas sete palavras é como uma janela que permite olhar para dentro da vida de Maria e descobrir como ela se relacionava com Deus. Eis as sete palavras de Maria:

1ª Palavra: “Como pode ser isso se eu não conheço homem algum!” (Lc 1,34)

2ª Palavra: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38)

3ª Palavra: “Minha alma louva o Senhor, exulta meu espírito em Deus!” (Lc 1,46)

4ª Palavra: “Meu filho porque fez isso? Teu pai e eu, aflitos, te procurávamos” (Lc 2,48).

5º Palavra: “Eles não tem mais vinho!” (Jo 2,3)

6ª Palavra: “Fazei tudo o que ele vos disser!” (Jo 2,5)

7ª Palavra:  O silêncio ao pé da Cruz, mais elo­qüente que mil palavras! (Jo 19,25s)

No Evangelho de Marcos

1. O texto: Mc 3,20-21.31-35.

“A multidão se apinhou de tal modo que eles não podiam se alimentar. Quando os seus tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam: “Enlouqueceu!” Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: “Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram. Ele perguntou: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” E repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe!”

2. Chave de leitura

Este texto aparentemente duro deve ser entendido no contexto da época. Como Paulo, Marcos não valoriza a pessoa de Maria, nem a desvaloriza. Ele quer mostrar como Jesus rompe o círculo estreito da família fechada sobre si, para abri-lo para a dimensão da comunidade.

No Evangelho de Mateus

1. Os textos:

1. Mateus 1,1-17:

A genealogia de Jesus: “José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”

A “Companhia de Maria”: Tamar (1,3), Raab (1,5), Rute (1,5) e Betsabéia (1,6).

2. Mateus 1,18-25:

O aviso a José: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa!”

Saber acolher a Palavra de Deus também quando ela pede o que não se espera.

3. Mateus 2,1-12:

Os Magos do Oriente: “Ao entrar na casa, viram o menino com Maria sua mãe”

Saber reconhecer a presença da salvação num menino recém nascido com sua mãe

4. Mateus 2,13-23:

A Fuga para o Egito: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito!”

Levanta! Vai! Fica lá! Levanta! Volta! Vai! E eles foram, foram, foram, …!

2. Chave de leitura

Nos textos do evangelho de Mateus em que Maria é mencionada, tudo é centrado em torno da pessoa de José e não de Maria. Maria aparece como a esposa de José. Ela não fala. Não diz uma só palavra. É José que faz com que Jesus seja filho de Davi, capaz de realizar as promessas. Como esposa de José e Mãe de Jesus, Maria participa no destino de Jesus. Uma atenção especial merece a genealogia, em que Maria aparece ao lado de quatro outras mulheres.

 

 

No Evangelho de Lucas

1. Os textos:

1. Lucas 1,26-38:

A Anunciação: “Faça-se em mim segundo a tua palavra!”

Saber abrir-se, para que a Palavra de Deus seja acolhida e se encarne.

2. Lucas 1,39-45:

A Visitação: “Bem aventurada aquela que acreditou!”

Saber reconhecer a Palavra de Deus nos fatos da vida.

3. Lucas 1,46-56:

O Magnificat: “O Senhor fez em mim maravilhas!”

Um canto subversivo de resistência e de esperança

4. Lucas 2,1-20:

O Nascimento: “Ela meditava sobre os fatos em seu coração”

Não havia lugar para eles. Os pastores, os marginalizados acolhem a Palavra.

5. Lucas 2,21-32:

Na Apresentação diz o velho Simeão: “Meus olhos viram a tua salvação!”

Os muitos anos de vida purificam os olhos.

6. Lucas 2,33-38:

Simeão e Ana: “Uma espada vai atravessar sua alma”

Ser cristão, ser sinal de contradição.

7. Lucas 2,39-52:

Aos doze anos no templo: “Então, não sabiam que devo estar com o Pai?”

Eles não compreenderam a Palavras que lhes foi dita!

8. Lucas 11,27-28:

O Elogio à mãe: “Feliz o ventre que te carregou!”

Feliz quem ouve e pratica a Palavra

2. Chave de leitura

No evangelho de Lucas, a infância de Jesus está centrada ao redor da pessoa de Maria. O que Lucas fala de Maria tem grande profundidade. Ele apresenta Maria como modelo para a vida das comunidades. É sobretudo na maneira de ela relacionar-se com a Palavra de Deus que Lucas vê a maneira mais correta para a comunidade relacionar-se com a Palavra de Deus: acolhê-la, encarná-la, vivê-la, aprofundá-la, ruminá-la, fazê-la nascer e crescer, deixar-se moldar por ela, mesmo quando não a entende ou quando ela nos faz sofrer. Esta é a visão que está por de trás dos textos dos capítulos 1 e 2 do evangelho de Lucas, que falam de Maria, a mãe de Jesus.

No Evangelho de João

1. Os textos:

1. João 2,1-12:

As bodas de Caná: O recado de Maria: “Façam o que ele mandar!”

Seiscentos litros de vinho! O que fizeram com o vinho que sobrou?

2. João 19,25-30:

Ao pé da cruz”: Eis aí o seu filho! Eis aí a sua mãe!”

Na hora da morte nasce vida nova!

2. Chave de leitura

Apesar de não ser chamada pelo nome próprio, a Mãe de Jesus aparece duas vezes no evangelho de João: no começo, nas bodas de Caná (Jo 2,1-5), e no fim, ao pé da Cruz (Jo 19,25-27). Estes dois episódios, exclusivos do evangelho de João, têm um valor simbólico muito profundo. Nos dois casos Maria representa o AT que aguarda a chegada do NT e, nos dois casos, ela contribui para que o Novo chegue. Maria é o elo entre o que havia antes e o que virá depois. É a Filha do Antigo Testamento e a Mãe do Novo Testamento.

Concluindo: flashes para a devoção a Maria, Nossa Senhora.

1Evangelho de Lucas: Maria como símbolo e imagem da Igreja:

+ A Lúmen Gentium do Vaticano II faz como Lucas. Apresenta Maria integrada na vida da Igreja e não separada como se fosse uma grandeza distinta, à parte.

* É importante que nossas Comunidades saibam apresentar a devoção a Nossa Senhora de como devemos relacionar-nos com a Palavra de Deus e meditar dia e noite na lei do Senhor.

2Evangelho de Mateus: Maria como mãe de Jesus

+ A imagem que Mateus na genealogia nos apresenta de Maria é bem diferente da imagem tradicional. Maria aparece como pessoa marginalizada pela lei, mas devotada à causa do povo.

* É importante que nossas Comunidades aprendam viver a devoção a Nossa Senhora como acolhimento às pessoas marginalizadas que são a Companhia de Maria.

3Evangelho de João: Maria como símbolo do Antigo Testamento

+ A imagem de Maria como representante das esperanças do AT que se realizam em Jesus. Ela sabe reconhecer os limites das tradições do seu povo e faz com que o novo possa chegar.

* É importante que, como Maria, nossas Comunidades saibam reconhecer os limites das tradições e saibam apresentar Jesus como a resposta de Deus para as esperanças do povo.

 

6. Mulheres contempladas por Deus no Novo Testamento

1. Isabel

Zacarias não foi capaz de crer no chamado e ficou mudo (Lc 1,11-22). Isabel era idosa e estéril, mas acreditou no chamado, concebeu e tornou-se capaz de reconhecer a presença de Deus em Maria (Lc 1,23-25.41-45). Isabel era da tribo de Levi, descendente de Aarão. Era Levita (Lc 1,5).

Oração:  O Cântico de Zacarias (Lc  1,68-79) e a prece de Gabriel e Isabel: nossa “Ave Maria”

2. A profetisa Ana e o velho Simeão

Estas duas pessoas, ambas bem idosas, aparecem no evangelho de Lucas por ocasião da apresentação de Jesus no Templo (Lc 2,22-38). O olhar dos dois era um olhar de fé, capaz de distinguir o salvador do mundo num menino trazido por um casal pobre de camponeses lá da Galiléia, no meio de muitos outros casais que traziam suas crianças para serem apresentadas a Deus no Templo. Os dois tinham dentro de si uma convicção de fé que lhes dizia que não iriam morrer antes de verem a realização das promessas (Lc 2,26). Este é, aliás, o desejo de todos nós. Cada ser humano traz dentro de si uma promessa de séculos. Simeão fez um cântico bonito de agradecimento (Lc 2,29-32). Ana era uma viúva de 84 anos de idade que também reconheceu o sinal de Deus no menino (Lc 2,38).

Oração: Cântico de Simeão (Lc 2,29-32): Agora posso morrer em paz

3. Eunice e Lóide

Na segunda carta a Timóteo, Paulo conservou os nomes da mãe e da avó de Timóteo, Eunice e Lóide (2Tm 1,5). Foram elas que transmitiram a Timóteo a fé e ensinarem a ele o amor pela Palavra de Deus (2Tm 3,14-15). Isto faz a gente se lembrar das avós e avôs dos doze apóstolos, dos 72 discípulos e discípulas, do povo das primeiras comunidades, tantos e tantas. Todos eles e elas pessoas anônimas. Mas Deus conhece e conserva os nomes. Foram estas pessoas anônimas que transmitiram a fé. Também vale a pena lembrar os homens e as mulheres que foram indicados para coordenar as comunidades e que eram chamados de presbíteros ou presbíterasos mais velhos ou as mais velhas. Eram elas e eles que ensinavam as crianças a rezar e os jovens a cantar. Foi para eles e elas que Paulo fez aquele sermão tão bonito em Mileto (At 20,17-35). Os cânticos espalhados pelo Novo Testamento eram transmitidos por eles nas comunidades: cântico de Maria, de Zacarias, de Simeão, tantos outros.

Oração: Cântico das Comunidades sobre ter em nós os sentimentos de Jesus (Flp 2,6-11)

4. Madalena, a grande amiga de Jesus

Era uma moça da cidade de Magdala, perto do lago da Galiléia. Por isso era chamada Maria Ma(g)dalena, Maria de Magdala. Deve ter sido uma pessoa cheia de problemas. Diziam que Jesus tirou dela sete demônios. Pessoas assim não costumam ter muito auto-estima e a vizinhança as rejeita e marginaliza. Mas Maria foi acolhida por Jesus e começou a fazer parte do grupo dos discípulos. Ela soube crer no amor de Jesus, amor tão grande que chegou a regenerar sua pessoa e lhe devolveu toda a sua auto-estima e sua vocação. O amor criou nela tanta coragem que ela chegou a ir com Jesus até o Calvário ao pé da Cruz. Foi a primeira pessoa a receber uma aparição de Jesus Ressuscitado. Foi ela que recebeu de Jesus a ordenação de anunciar a boa nova da ressurreição para os discípulos. A vocação cresceu nela aos poucos, ao longo dos três anos com Jesus.

Oração: 1Cor 13,1-13: o Hino ao amor.

5. Joana e Susana, duas discípulas

Joana e Susana eram duas companheiras que também faziam parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus desde a Galiléia, serviam a ele com os seus bens e subiram com ele até o calvário. Com esta descrição, o evangelho de Marcos coloca este grupo de mulheres como discípulas-modelo. São três palavras que sintetizam o discipulado: seguir, servir subir (Mc 15,41).

Oração: Salmo 63: Sede de Deus, o amor maior da vida

6. A Samaritana

Jesus começa o diálogo, procurando um contato através do trabalho que a samaritana fazia: “Me dá de beber!” (Jo 4,7) Água, corda, balde, poço eram os elementos que marcavam o mundo do trabalho da mulher. Mas por esta porta Jesus não consegue contato com ela (Jo 4,7-15). Em seguida, tenta entrar por uma outra porta e diz: “Vai buscar teu marido!” É a porta da família. Mas nem por esta porta ele consegue contato. A mulher responde: “Não tenho marido!”( Jo 4,16-18). Finalmente, a Samaritana identifica Jesus e diz: “Vejo que o senhor é um profeta”( Jo 4,19). Neste momento, ela se situa na conversa e começa a tomar a iniciativa. Ela puxa o assunto para a religião: “Onde adorar a Deus: aqui ou lá em Jerusalém?”(cf. Jo 4,20). Jesus entra pela porta da religião que a mulher abriu para ele (Jo 4,19-24). Em seguida, novamente, a mulher muda o rumo da conversa e puxa o assunto para a esperança messiânica do seu povo: “Sei que vem um Messias. Quando ele vier, nos vai ensinar todas estas coisas!”(Jo 4,25). E novamente, Jesus entra pela porta que a Samaritana abriu e responde: “O Messias sou eu que estou falando com a senhora!” (Jo 4,26). O resultado deste difícil diálogo parece muito reduzido. Jesus só conseguiu provocar uma pergunta na mulher Samaritana: “Será que ele é o messias?”( Jo 4,29) Talvez seja este o resultado mais positivo que se possa imaginar! Jesus não dá respostas. Ele levanta perguntas. Durante o diálogo, Jesus se guia por aquilo que ele aprendeu da Samaritana durante a conversa. Ele não se impõe, nem condena, mas respeita a mulher profundamente. Corre até o risco de não obter nenhum resultado. Enquanto Jesus tomava a iniciativa, a conversa não avançava. Ela só avançou e atingiu o seu objetivo a partir do momento, em que a mulher se situou e começou tomar a iniciativa. Neste momento, brotou vida nova. Será que nós temos a coragem de deixar ao outro a iniciativa do rumo da conversa?

Oração: Salmo 96: Todos os povos e raças louvem o Senhor.

7. A Cananéia

A mulher era de outra raça e de outra religião. Ela começa a suplicar pela cura da filha que estava possuída por um espírito impuro. A mulher grita, mas Jesus não responde. O Pai não quer que eu atenda a esta mulher, pois Ele me enviou somente para as ovelhas perdidas de Israel. Mas amor de mãe pela filha doente não se preocupa com normas religiosas nem com a reação dos outros. Ela busca a cura onde sua intuição lhe diz haver uma solução, a saber, em Jesus! Ela chega perto, joga-se aos pés de Jesus e começa a suplicar: “Senhor, ajuda-me!” Fiel às normas da sua religião, Jesus responde com uma parábola e diz que não convém tirar o pão dos filhos e dar aos cachorrinhos. A comparação é tirada da vida familiar. Criança e cachorro é o que mais tem no meio dos pobres, até hoje. Jesus diz que nenhuma mãe tira o pão da boca dos filhos para dar aos cachorrinhos. No caso, os filhos seriam o povo judeu, e os cachorrinhos, os pagãos. Caso encerrado! Obediente ao Pai, fiel à sua missão, Jesus segue o seu caminho e não atende ao pedido da mulher!  A mulher não se dá por vencida. Ela concorda com Jesus, mas amplia a comparação e a aplica ao caso dela: “É verdade, Jesus! O senhor tem razão, mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos!” Ela simplesmente tira as conclusões da parábola, mostrando que em casa de pobre (e, portanto, também na casa de Jesus) os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa das crianças. Muito provavelmente, o próprio Jesus, quando criança, deve ter dado muito pedaço de pão aos cachorrinhos que corriam debaixo da mesa onde ele fazia a refeição junto com seus pais. E na “casa de Jesus”, isto é, na comunidade cristã da época de Mateus, no fim do primeiro século, depois da multiplicação dos pães, estavam sobrando “doze cestos cheios” (Mt 14,20) para os “cachorrinhos”, isto é, para os pagãos! “Ó mulher! Grande é a tua fé! Seja feito como queres!” A mulher conseguiu o que queria. A partir daquele momento, sua filha ficou curada. Se Jesus atendeu, é porque compreendeu que o Pai queria que ele acolhesse o pedido da mulher. O encontro com a mulher Cananéia levou-o a sair da prisão da raça e abrir-se para a humanidade toda. Isto significa que Jesus descobria a vontade do Pai escutando as reações das pessoas. A atitude daquela mulher pagã abriu um novo horizonte na vida de Jesus e o ajudou a dar um passo importante no cumprimento da sua missão. Através dela, descobriu melhor a universalidade do projeto do Pai. O dom da vida e da salvação é para todos os que buscam a vida e que procuram libertar-se das cadeias que aprisionam a energia da vida. Este episódio nos ajuda a perceber algo do mistério que envolvia a pessoa de Jesus, como ele convivia com o Pai e como descobria a vontade do Pai nos acontecimentos da vida.

Oração: Salmo 117: O salmo refrão, o mais curto de todos e resumo de todos os salmos

8. Cloé e as amigas de Paulo

Elas aparecem quase todas nas recomendações finais da carta aos Romanos. 1. “Recomendo a vocês Febe, nossa irmã, diaconisa da comunidade de Cencréia. Ela tem ajudado muita gente e a mim também”(Rom 16,1.2). Provavelmente, um dos serviços que Febe prestou foi o de ser portadora da carta de Paulo para a comunidade de Roma.  2. “Lembranças para Prisca e Aquila, meus colaboradores em Jesus Cristo, que arriscaram a própria cabeça para salvar minha vida”(Rom 16,3). Paulo agradece aos dois em nome próprio e em nome de todas as comunidades do mundo pagão(Rom 16,4). Era na casa deste casal que a comunidade se reunia (Rom 16,5).  3. “Lembranças para Maria, que trabalhou muito por vocês”(Rom 16,6).  4. “Lembranças para Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, apóstolos importantes”(Rom 16,7). Alguns manuscritos antigos transformaram Júnia em Júnio, talvez porque achassem estranho uma mulher receber de Paulo o título de apóstolo.  5. “Lembranças para Trifena e Trifosa” e para a “querida Pérsida“: das tres ele diz que se afadigaram muito no Senhor(Rom 15,12).   6. “Lembranças para Rufo e sua mãe que é minha também“!(Rom 16,13).  7. “Lembranças para Filólogo e Júlia, para Nereu e sua irmã e para Olimpas“(Rom 16,15). A comunidade parece reunir-se na casa deles, pois Paulo acrescenta: “e para todos os santos que estão com eles”(Rom 16,15). Nestas recomendações, Paulo fala com toda a naturalidade de mulheres que são diaconisa, colaboradora em Jesus Cristo ou apóstola. Títulos e funções importantes na vida e na organização das comunidades! Elas são apresentadas como pessoas que se afadigam pelos outros nas comunidades. As comunidades e o próprio Paulo devem muito a algumas delas, pois elas o ajudaram e arriscaram a própria vida por ele. Ele as trata com carinho e as chama de irmã, de mãe e de companheira de prisão. E em dois casos, a comunidade se reune na casa de algumas delas.

Oração:  Salmo 133: Como é bonito irmãos e irmãs viverem unidos.

9. Marta e Maria

São duas irmãs que moravam junto com o irmão Lazaro em Betânia, perto de Jerusalém, no Monte das Oliveiras. Jesus gostava de passar na casa delas quando ia a Jerusalém. Os evangelhos narram vários episódios. Certa vez, Marta estava muito ocupada em preparara comida e que Ra que Maria fosse ajudá-la, pois Maria só ficava escutando as palavras de Jesus. Jesus defendeu Maria e disse que ela tinha escolhido a melhor parte (Lucas 10,38-42). Outra vez, já perto da morte, ofereceram um jantar a Jesus na casa de Marta e Maria ungiu os pés de Jesus (João 12,1-8). O episódio mais conhecido é o da ressurreição de Lázaro (João 11,1-44). Lázaro significa “Deus ajuda”. Marta significa “Senhora”. Maria significa “Amada de Javé”. Os três são também um símbolo perfeito de uma comunidade cristã.

Oração: Salmo 121: Deus nos protege, ele é como nossa sombra. Dele você não escapa.

10. Mulher que elogiou a mãe de Jesus

O episódio é relatado por Lucas: “Enquanto Jesus dizia essas coisas, uma mulher levantou a voz no meio da multidão, e lhe disse: “Feliz o ventre que te carregou, e os seios que te amamentaram.” Jesus respondeu: “Mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,27-28). Os evangelhos apócrifos informam que se trata de uma vizinha de Maria lá de Nazaré, cujo filho Dimas brincava com Jesus quando menino. Depois de crescido, Dimas entrou na guerrilha anti-romana, foi preso e era um dos dois ladrões que foram crucificados com Jesus. Era o bom Ladrão que recebeu de Jesus a promessa: “Hoje mesmo, você estará comigo njo paraíso” (Lc 23,43).  O relato dos apócrifos é bonito.

Oração: Salmo 119,1-8: Feliz quem ouve,medita e pratica a Palavra de Deus.

11. As irmãs de Jesus

A expressão “irmãos e irmãs de Jesus” ocorre várias vezes nos evangelho (Mc 3,31-35; 6,3; Lc 8,19; Jo 7,3.5). Até hoje ela é causa de muita polêmica entre católicos e protestantes. Baseando-se neste e em outros textos, os protestantes dizem que Jesus teve mais irmãos e irmãs e que Maria teve mais filhos! Os católicos dizem que Maria não teve outros filhos. O que pensar disso? Em primeiro lugar, as duas posições, tanto dos católicos como dos protestantes, ambas têm argumentos tirados da Bíblia e da Tradição das suas respectivas Igrejas. Por isso, não convém brigar nem discutir esta questão com argumentos só de cabeça. Pois trata-se de convic­ções profundas, que têm a ver com a fé e com o sentimento de ambos. Argumento só de cabeça não consegue desfazer uma convicção do coração! Apenas irrita e afasta! Mesmo quando não concordo com a opinião do outro, devo sempre respeitá-la. Em segundo lugar, em vez de brigar em torno de textos, nós todos, católicos e protestantes, deveríamos unir-nos bem mais para lutar em defesa da vida, criada por Deus, vida tão desfigurada pela pobreza, pela injustiça, pela falta de fé. Deveríamos lembrar algumas outras frases de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). “Que todos sejam um, para que o mundo creia que Tu, Pai, me enviaste” (Jo 17,21). “Não o impeçam! Quem não é contra nós é a favor” (Mc 10,39.40).

Oração: Salmo 128: A família reunida ao redor d mesa

12. A Jerusalém Celeste

É a idosa jovem noiva do Cordeiro. Ela desce do céu enfeitada para o seu noivo. Ela é bonita e superou todas as limitações das idades. Chegou ao destino da sua viagem e acolhe a todos nós. Fomos convidados para participar da festa das núpcias do Cordeiro (Apc 21,1-7; 21,24-27; 22,3-5)

Oração: Canto da vitória sobre o Império neoliberal (Ap 18,1 a 19,8)

 

Artigo da série de uma série de 10 artigos de frei Carlos Mesters que estamos disponibilizando semanalmente na internet, em www.gilvander.org.br.)