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Não dá para juntar com essa sopa uma oração não ?

Não dá para juntar com essa sopa uma oração não ?
20 de abril de 2021 Comunicação

Por Cláudio Márcio Rebouças da Silva*

 

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

(Comida – Titãs)

Jesus respondeu: Está escrito:

 Nem só de pão viverá o homem,

mas de toda palavra que

 procede da boca de Deus

(Mt 4.4) 

No filme o Auto da Compadecida há uma cena extremamente desafiadora para superação da dicotomia corpo e alma, uma vez que, o personagem Severino (um cangaceiro) disfarçado de mendigo pede uma esmola na porta da igreja e a liderança religiosa prontamente promete rezar por ele instigando assim o rápido questionamento de Severino: “não dá para juntar com essa reza um punhado de farinha não?”.  É a partir deste lugar que escrevo essa breve reflexão.

Um dia desses fui levar uma sopa na casa de uma irmã da comunidade como fruto de uma compreensão teológica que percebe o humano em sua inteireza, isto é, já que em minhas orações a irmã é apresentada constantemente suplicando a compaixão de Deus, resolvi dar outro passo, pois, aprendi que fé e prática devem ser dimensões inseparáveis do exercício da espiritualidade. De fato, lembremos da orientação bíblica ao dizer: “a religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tiago 1:27).

A irmã ficou feliz ao me ver dentro do carro (com máscara e distante dela) para lhe entregar a sopa dizendo: Deus te abençoe minha amiga. Até a próxima! Para minha surpresa ela me convidou para entrar rapidinho na casa e orar por sua família. Compreendo perfeitamente a questão simbólica do pastor na casa dos(as) eclesianos(as) como algo bom que gera um encanto fraterno de cuidado e amorosidade.

Bem, é importante salientar que estou falando de pastor e não de mercenário. Estou falando de pastor e não de vigarista. Estou falando de pastor e não de ladrão. Estou falando de pastor e não de pedófilo. Estou falando de pastor e não de lobo em pele de cordeiro. Ora, disse para irmã que nesse período pandêmico não seria algo responsável da minha parte. Que ela deveria continuar firme e que eu mandaria uma oração no formato de áudio ou vídeo no WhatsApp, como realmente fiz.

Ao escrever este texto fiquei lembrando do grande desafio de uma fé madura que estabelece diálogo entre o compromisso crítico em favor da libertação-humanização de quem sofre e, ao mesmo tempo, não abandona a dimensão mística, uma vez que, “o vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito” (João 3.8). Não há receita pronta para seguir, logo, fé e suspeita me seguirão todos os dias da minha vida.

Se a fé não imuniza, espero que ela ao menos aponte caminhos de humanização, de alteridade e empatia. Fé e coragem para escutar os clamores de quem de perto ou de longe clama por socorro e nós podermos de maneira sensível e eficaz ser a resposta da oração de alguém. Tem um tempinho que aprendi que muitos e muitas querem apenas as bênçãos de Deus. Definitivamente se esquivam da orientação: sê tu uma bênção!

É preciso superar dicotomias entre isso(orar) e aquilo(cuidar). Não me é suficiente apenas mutirão da fé e compromisso de um lado e mística e contemplação do outro. Chega!  É urgente se abrir para o caminho da ambivalência, ou seja, eu oro quando cuido e o oposto também é real. Com efeito, a fé daquela irmã na fé de Jesus de Nazaré é uma inspiração para mim.  Suspeito que pela função que exerço ela possa achar que eu estou mais próximo de Deus, todavia, é um equívoco dela. Eu me aproximo de Deus tanto quando oro quanto ao me encontrar com ela e ver Jesus no seu rosto negro.

Confesso que quando eu fecho meus olhos para falar com Deus percebo que só vejo decisivamente sua face quando eu observo quem é meu próximo. Não espero Deus agir e fico de braços cruzados em total apatia, porém, também sei dos limites da racionalidade e dos meus passos e braços cheios de vulnerabilidade no caminho da vida. O Espírito Santo age e fico em silêncio, mas, sei também que vez por outra, Ele me convida a ir nas asas do furacão.

 

*Reverendo da IPU de Muritiba (cidade serrana do recôncavo baiano).

 

Artigo publicado no blog Teologando na Serra