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Diga suas últimas palavras, Jesus

Diga suas últimas palavras, Jesus
30 de junho de 2021 Comunicação

Por Ariel Gomes*

 

Vamos às atividades do dia
Lavar os copos, contar os corpos e sorrir
A essa morna rebeldia
Pátria amada, o que oferece aos teus filhos sofridos?
Dignidade ou jazigos?”
– Lion man, Criolo

 

Devo advertir que este texto pode ser “pesado”, pois trata sobre a história de uma morte violenta, mesmo sendo a história mais conhecida do mundo. E trata das mortes de hoje… essas, debaixo de nossos olhos.
Quando as pessoas morrem, perguntam se haveriam deixado algum testamento ou quais foram suas últimas palavras. Parece que há algo místico com as últimas palavras, não é mesmo?
Quais foram as últimas palavras de Jesus? Uma rápida busca nos evangelhos nos fornece o seguinte:

Em Mateus 27,46: E, perto da nona hora, clamou Jesus em alta voz, dizendo: “Eli, Eli, lamá sabactáni?”; isto é, “ó Deus Meu, ó Deus Meu, por que Me desamparaste? “
Em Marcos consta a mesma frase e em 15:37 Jesus, porém, havendo dado um grande brado, expirou.
Em Lucas 23,46 E, havendo clamado com grande voz, Jesus disse: “Ó Pai, para dentro das Tuas mãos entrego o Meu espírito.” E, isto havendo dito, expirou.
Em Joao 19,30 Tão logo, pois, Jesus recebeu o vinagre, disse: “Está consumado.” E Ele, havendo inclinado a cabeça, entregou o fôlego.

Os Evangelhos que foram escritos mais próximos da morte de Jesus são Marcos e Mateus.
Percebemos neles a narração de uma situação desoladora: amigos que o seguiam nos últimos anos, o negaram e fugiram; teve de carregar o “madeiro” pesado aos açoites (a via sacra, um sacrilégio), indo ao chão algumas vezes; as ofensas e os preconceitos; uma morte na cruz, violenta e apropriada para um malfeitor e inimigo do Império; e ainda, o abandono de Deus.
Quando numa noite anterior Jesus teve medo e chorou, talvez não tivesse plena consciência de toda essa violência e suplício.
Uma morte dessas, na cruz, era uma maldição. Provavelmente no início, no surgimento das primeiras comunidades cristãs, a cruz não era um símbolo representativo, como o é atualmente. Seria absurdo alguém naquelas comunidades guardar com devoção uma cruz ou usar um crucifixo no pescoço. Mas é bem conhecido que o peixe e o pão sejam símbolos mais originais. Claro, surgiram inúmeras explicações teológicas para defender a importância da Cruz, para dizer que a morte na cruz, a redenção de Cristo era necessária para “pagar” nossos pecados, algo necessário para o perdão e salvação da humanidade ou para o cumprimento da vontade de Deus. Enfim, não faltaram justificativas e explicações.
Porém, quero discordar.

Sempre ouvimos que precisamos carregar as nossas cruzes ou “Deus só dá a Cruz que você é capaz de carregar”. Discordo porque essa teologia de uma cruz necessária, do sacrifício, do derramamento de sangue tem servido ao longo da história para justificar as perseguições, as ofensas, as violências e o sofrimento calado das pessoas. Preciso discordar!

500 mil mortes não são suficientes?
E 25, numa chacina, não o são?

Ocorre que a via sacra e o assassinato de Jesus por crucificação também se tornaram espetáculo. Não deveríamos dar mais importância para o sofrimento e para a “paixão de Cristo” do que para a ressurreição, sob pena de naturalizarmos todo corpo caído ao chão. Essa espiritualidade que sacraliza o sofrimento, o sacrifício e justifica a servidão promove a um rompimento entre fé, vida e política. Eis o problema: justificação, naturalização e inação.

Um passo adiante. Depois do fel, a gente rasga o véu.

Inúmeras vezes é possível ler na Bíblia: Misericórdia sim, sacrifício não!
Ilustrarei com uma história surpreendente narrada do Evangelho de Lucas 24,13-35, dos companheir@s de Emaús.
Iam os dois, com medo, aflitos e ainda sem entender muito bem como toda aquela atrocidade pôde ter acontecido. Jesus ressuscitado aparece no caminho, mas eles não o reconheceram. Conversaram longamente sobre as escrituras sagradas, papo vai, papo vem, e anoitece. Convidam a Jesus para ficar com eles. Sentam-se juntos à mesa, compartilham a comida, sorriem, se olham e se tocam. Nesse momento, quando o forasteiro Jesus agradece, abençoa e parte o pão para comerem é que, como num piscar de olhos, eles reconhecem Jesus.
O texto parece ter o cheiro, a materialidade, a corporeidade do sublime momento da partilha do alimento. Pronto! A partilha do pão é o claro sinal da presença de Jesus. Esse é o símbolo e o significado maior da ação de Jesus: a partilha. E mais uma rápida olhada nos evangelhos nos convencerá disso. O pão, alimento que mantém a vida e sua partilha é que nos remete à Jesus e seu projeto de vida e de sociedade. Uma sociedade faminta e marcada pela desigualdade não precisa de mais sacrifícios, de cruzes, mas precisa de misericórdia e de partilha do pão.
Portanto, Jesus não teve suas últimas palavras. Ele continua falando: “Eu quero misericórdia e não sacrifícios” (Mt. 9, 13) ou “dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt. 14,16)
Ressuscitemos.

 

* Integra o CEBI Mato Grosso do Sul

 

Ilustração sugerida pelo autor : Maximino Cerezo Barredo (Spanish, 1932–), Emmaus. Acrylic on board, 90 × 120 cm. Dining room of the Claretian Community, Maranga, Lima, Peru.