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Ao mestre Freire, com carinho

Ao mestre Freire, com carinho
21 de setembro de 2021 Comunicação

Por Lenon Andrade*

 

Caríssimo professor, tenho aprendido ao longo da caminhada que a minha vida é como um livro aberto. Um livro vivo que se articula dentro de uma teia crescente de relações com outros sujeitos e outros seres igualmente abertos. Por isso, enquanto meu cérebro processa essa ideia de abertura, me vem à mente as suas lições a respeito do inacabamento do sistema humano. Lições que nos ensinam que somos seres inacabados, interdependentes, seres que vão se fazendo em comunhão com os outros sujeitos, no palco da existência. Me vejo assim, como este livro vivo que ainda está sendo escrito, cujo conteúdo inicial nasce de uma herança genética fundada na poesia. Um livro cujas primeiras letras, escritas nas fitas do meu DNA, apontam para essa origem humano divina que tem sede de abertura e saudades do infinito.

Sua carta chegou grávida de uma tão substancial e pulsante esperança que arrebatou-me da inércia existencial onde acalentava meus sonhos e também meus pesadelos. Chegou para colocar-me de novo a caminho, conduzido pela dinâmica do substantivo convertido em verbo, onde a ação tem nome sublime, traduzido na concretude do esperançar. As antigas lições do livro da vida se atualizaram nas lições que, na sua carta, a mim foram desveladas. Por isso, lembrei de um velho revolucionário anônimo que ensinava um jeito de esperançar, em que a mudança revolucionária começa dentro do próprio ser, quando afirmava que “para vencer é preciso sonhar, mas, é necessário transformar o sonho em ação concreta.” Bingo! É disso que estamos falando meu caro professor! De uma pedagogia da mudança que inicia com um olhar honesto, profundo, para dentro de si mesmo.

[…] Não quero preocupá-lo e muito menos trazer-lhe tristeza com as notícias do momento. Saiba que as palavras, nas lições eternizadas na grande obra libertadora de Paulo Freire, jorram como fonte de esperança nos fazendo esperançar, todos os dias, nestes tempos sombrios em que mergulha o nosso país. O senhor já passou por isso, portanto, sabe e sente sobre o que estou a dizer. Por isso, chegou a hora de compartilhar um pouco daquilo que está se passando neste torrão do sul global.

Por aqui, o momento presente se notabiliza pelo que a Resistência batizou de a era do negacionismo. Pasme professor Freire! Na era da sociedade informacional globalizada, também chamada pelo espanhol Manuel Castells de sociedade do conhecimento, vimos surgir, bem aqui, no Brasil, um tipo de gente que abomina o conhecimento e, paradoxalmente, glorifica a ignorância. As elites brasileiras continuam feito hienas ávidas para atacar a presa, em bando. Desta vez, o bando fez um grande acordo nacional, com hienas abrangendo matilhas perigosas do mundo político e do submundo midiático articuladas com cepas togadas com outras igualmente nocivas, parasitadas no serviço público. Na base, um bando de gente fanática, seguidora de um certo guru, “pedagogo” da terra plana.

Como nós dois sabemos, o esperançar não é apenas um conceito, mas, um exercício constante do saber que se concretiza no fazer e no fazer significativo que se desdobra, dialeticamente em novo e melhor saber. Por isso, nestes tempos obscuros, quando se tornou difícil interpretar a realidade à luz rigorosidade racional, então pedi socorro à poesia e fiz da angustia uma canção. Nesse cenário, nasceu o poema que compartilho contigo, professor:

 

Esperançar

 

Já fazia tempo que a pena não trabalhava.

As linhas permaneciam em branco.

Sentia saudade de mim mesmo.

O texto insistia em esconder-se,

A perplexidade calava meu canto…

 

Qual lagarta que virou borboleta,

Quebrei as paredes do casulo!

O tamanho do sonho nele já não mais cabia,

O sonho virou realidade,

_A realidade se tornou poesia e libertação! _

 

A resiliência floresceu em esperança,

O substantivo deu lugar ao verbo,

Conjugar esperançar colocou-me em movimento!

Saí da caverna! Vejo o brilho do sol!

A liberdade despertou no horizonte!

 

Liberdade de compromisso com vida!

Liberdade da responsabilidade com a história!

Liberdade da defesa da dignidade humana!

Liberdade do direito de ter direitos!

Liberdade para cultivar o amor e viver em paz.

 

O sonho não é só meu…

O casulo não pode prender uma nação!

O força da vida é maior que a caverna!

Chegará o tempo de alcançar a utopia.

Ainda que esta permaneça no horizonte,

Nada poderá deter a primavera!

 

 

*Lenon Andrade é pastor batista, poeta, escritor e ativista dos direitos humanos

 

 

Texto completo publicado no Volume I de “Cartas à Paulo Freire – escritas por quem ousa esperançar.” Campina Grande. EDUEPB. Pág. 449 – EDUEPB. Disponível em: <http://eduepb.uepb.edu.br/e-books//>. Acesso em 19 de Set. 2021.