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A fundamentação bíblica da Encíclica Fratelli Tutti

A fundamentação bíblica da Encíclica Fratelli Tutti
3 de novembro de 2020 Comunicação

Por Francisco Orofino*

 

Francisco fundamenta biblicamente sua encíclica Fratelli tutti (de agora em diante FT) com mais de 60 citações bíblicas. No entanto, cerca de 90% delas estão no segundo capítulo chamado “Um estranho no caminho” (FT 56 a 86). Neste capítulo Francisco entra em detalhes no grande fundamento bíblico de sua proposta para a fraternidade e a amizade social: a parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37).

“Com a intenção de procurar uma luz no meio do que estamos a viver” (FT 56), Francisco coloca todo o texto de Lucas em sua encíclica. Uma sábia decisão já que, ao que parece, ele quer reforçar os laços com o islam. Temos que pensar na tradução árabe desta Encíclica e lembrar que os islamitas não estão com o Evangelho na mão. Ao colocar o texto, Francisco ressalta que sua encíclica é dirigida “a todas as pessoas de boa vontade, independente de suas convicções religiosas”. Assim, “a parábola em questão é expressa de tal maneira que qualquer um de nós pode deixar-se interpelar por ela” (FT 56).

Ao longo do segundo capítulo, Francisco vai propor sete chaves para a interpretação da parábola: 1) A perspectiva de fundo (FT 57-62); 2) O abandonado (FT 63-68); 3) Uma história que se repete (FT 69-71); 4) As personagens (FT 72-76); 5) Recomeçar (FT 77-79); 6) O próximo sem fronteiras (FT 80-83) e 7) A provocação do forasteiro (FT 84-86).

Na perspectiva de fundo, Francisco vai lembrar a figura do estranho, ou do estrangeiro, dentro das várias passagens em que ele aparece simbolizando os pobres, juntamente com a viúva e o órfão. Lembra também da proposta do Êxodo: Deus libertou seu povo quando este povo era estrangeiro no Egito e lá sofria a opressão do faraó. Esta perspectiva de fundo é importante para lembrar que o estrangeiro na parábola do samaritano é justamente o samaritano. O único que cuidou do caído também um estranho já que não existem traços de identificação deste caído.

O caído é o símbolo dos abandonados. De fato, Jesus, na sua criatividade, cria um quadro que exige uma tomada de posição por parte de quem está ouvindo a parábola: “O que você faria se, na beira da estrada, estivesse um homem desacordado, ensanguentado e completamente nu. Você pararia?” Com quem você se compara? O sacerdote e o levita viram, mas foram adiante. “Com quem te identificas? Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima” (FT 64).

Amparando-se nas palavras de Jesus, Francisco lembra que esta história sempre se repetirá na caminhada humana. Há as pessoas que se deixam interpelar pelos caídos. Mas também sempre haverá aquelas pessoas que olham, mas passam adiante. Para Francisco, “existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo” (FT 70).

Assim, a sociedade humana se faz com a participação das várias personagens. Até hoje temos os salteadores, os sacerdotes, os levitas, os samaritanos. Mas a principal personagem é mesmo o caído. Impotente diante dos ladrões, desacordado e ensanguentado de tanto que apanhou, completamente nu porque lhe levaram tudo. “Às vezes sentimo-nos como ele, gravemente feridos e atirados para a margem da estrada. Sentimo-nos também abandonados pelas nossas instituições desguarnecidas e carentes, ou voltadas para servir os interesses de poucos, fora e dentro” (FT 76).

Para Francisco, as atitudes do samaritano são nossas propostas para hoje. O samaritano abriu mão de seu projeto pessoal. Na parábola Jesus apenas ressalta que ele estava passando por ali. Deveria estar numa viagem dentro de seus interesses próprios. Ele abre mão de seus projetos e passa a viver em função do ferido. Ele vai em busca de outras ajudas, como confiar o caído ao estalajadeiro. Vai embora sem espera reconhecimentos pelo gesto misericordioso que praticou. “A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano” (FT 79).

 

*Francisco Orofino é biblista e educador popular. Assessora grupos populares e o CEBI.