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A classe trabalhadora em tempos de pandemia

A classe trabalhadora em tempos de pandemia
30 de abril de 2021 Comunicação

Por Marcelo Barros*

 

A tragédia da pandemia escancara para  todo mundo ver que a divisão de classes é cada vez mais forte. Não é por acaso que, no Brasil, a partir de março de 2020, o desemprego atingiu 14 milhões de brasileiros/as e 19 milhões se situam abaixo da linha da pobreza. No entanto, na mesma época, o lucro da elite mais rica do país triplicou.

Na Europa, no início dos anos 80, analistas sociais escreviam que se a taxa de desemprego chegasse a 8%, a sociedade não aceitaria e haveria uma convulsão social grave. Hoje há países como a Grécia, a Espanha e mesmo a Itália, onde a parcela de desocupados  chega a quase 30% e não acontece nada. Na sociedade atual, quem perde o emprego sabe que não se trata de uma situação passageira. Quase certamente, não conseguirá outro emprego em algumas semanas ou meses.  O desemprego é estrutural. As empresas são consideradas sadias e lucrativas quanto menos empregados contratarem. E o mais grave de tudo isso é que essa situação é vista por muitos como normal ou ao menos como inevitável. A maioria dos meios de comunicação apregoa o neoliberalismo como um dogma e a exclusão social da imensa maioria das pessoas como um sacrifício inevitável e positivo do progresso. O objetivo é o lucro das empresas a qualquer custo e o progresso material. Os patrões se protegem da pandemia, mas as empregadas domésticas e todas as pessoas que trabalham têm de assumir os riscos de viajar em coletivos superlotados e garantir o comércio e o lucro dos patrões.

Atualmente, diante da crise estrutural do desemprego, às vezes, os próprios coletivos de trabalhadores se sentem obrigados a propor redução das horas de trabalho para evitar demissões em massa. O Capitalismo continua em seu afã de manter os organismos do Estado a seu serviço, de considerar a natureza como mercadoria a ser explorada e encontrar sempre formas novas de explorar o trabalho dos outros.

Nestes dias em que a educação e muitas atividades são obrigatoriamente reduzidas ao trabalho virtual, as empresas de educação exploram o trabalho dos/as professores/as até a última gota de sangue e nem sempre pagando horas extras. Quem assessora grupos sabe que as pessoas simplesmente pedem lives e videoconferências, muitas vezes, sem se darem conta de que isso é um trabalho que exige mais de quem o faz do que os encontros presenciais. Nestes tempos de pandemia, o trabalho virtual começa a tomar, em alguns casos, a configuração quase de trabalho escravo não remunerado, mais exigente e pesado do que as formas clássicas de emprego.

 

É verdade que em um mundo de trabalho virtual e no qual todas as profissões sofrem a ameaça de ceder espaço para a revolução digital, o 1º de maio tem de ser celebrado de modo diferente do que era nas décadas de grandes passeatas e concentrações. É mais importante do que nunca mostrar que não existe a alternativa entre salvar a vida das pessoas ou salvar o comércio. Além do fato de que, a longo prazo, isso é falso, ao assumir abertamente a cara desumana do sistema que põe o lucro acima da vida, a sociedade dominante se revela mais assassina do que o próprio vírus da pandemia.

Infelizmente, a ideologia neoliberal penetrou até nos ambientes das Igrejas e religiões. Na encíclica sobre a fraternidade universal, o papa Francisco propõe que se passe do mundo dos sócios ao mundo de irmãos e irmãs (FT 101). Neste contexto, o 1º de maio não pode ser apenas o dia do trabalho, como se fosse uma data para acentuar o valor do trabalho. É a pessoa dos/das trabalhadores/as que deve merecer atenção e cuidado e não só como pessoas individuais e sim como categorias e coletivos.

Como os profetas e profetizas da justiça e da paz são sempre minorias, mas nunca deixam de atuar, o 1º de maio continua sendo uma data simbólica que nos convoca para cuidarmos da vida, da segurança e da saúde das pessoas. Quem é cristão recorda que o evangelho chama Jesus de carpinteiro ou artesão, termo usado na época para qualquer trabalhador braçal. Assim, os homens e mulheres que hoje assumem a missão de participar da caminhada coletiva do mundo do trabalho sabem que ao lutar pacificamente para transformar esse mundo estão sendo testemunhas de que o reinado divino está vindo e Deus está presente na luta do povo pela justiça e pela paz.

 

*Monge Beneditino, assessor de movimentos sociais populares, CEBs e CEBI.

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