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Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador

Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador
5 de fevereiro de 2019 Centro de Estudos Bíblicos
Leia a reflexão do evangelho sobre Lucas 5,1-11, texto de Tomaz Hughes.

Boa leitura!

A porta de entrada desse texto, que nos traz a versão lucana da “pesca milagrosa” (Jo 21,1-14), é o primeiro versículo: “Certo dia, Jesus estava na margem do Lago de Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a Palavra de Deus.” Lucas deixa explícito que o motivo de tanta gente buscar Jesus foi para “ouvir a Palavra de Deus”. Não para ver milagre, não para receber esmola, nem cura, mas simplesmente para “ouvir a Palavra de Deus”. E só se busca o que é agradável, o que faz bem!

A Palavra de Deus encorajava a multidão, fazia com que as pessoas se sentissem amadas, aceitas, valorizadas. A Palavra de Deus era realmente “Boa Notícia” para os humildes e sofridos. Nada deve – ou pode – substituir esta Palavra. Ainda corremos atrás do prejuízo por termos privado o povo durante séculos do alimento da Palavra. Resta o desafio de criarmos ferramentas para animação bíblica nas nossas comunidades. Nenhuma palavra humana, por mais eloquente ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus. Oxalá, não repitamos os erros do passado! Que saibamos ver a ação do Espírito Santo na grande procura da Bíblia entre as comunidades, especialmente entre os mais pobres.

Terminada a pregação, Jesus pede que Simão “avance para águas mais profundas” (v. 4), para lançar as redes. Pois, barca à beira-praia pesca nada! Como é tentador ficarmos seguros em águas rasas que não apresentam perigo, mas tampouco frutos! Se quisermos realmente ser “pescadores de homens” (v. 10), teremos que enfrentar as águas profundas da vida, com todas as incertezas e inseguranças que isso acarreta. O mundo globalizado, pós-moderno e urbanizado exige novas respostas pastorais. Não é mais possível continuarmos nas nossas comunidades somente com uma “pastoral de manutenção”, mas precisamos ousar dialogar com novas situações e com o pluralismo do nosso mundo. Muito mais cômodo é ficar nas águas calmas e tranquilas, sem risco. Porém, fazer assim seria trair a nossa vocação batismal. Poderemos nos perguntar: o que quer dizer para mim, para a minha comunidade, movimento ou pastoral, “avançar para as águas mais profundas”?

Simão não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor, pois ele, pescador profissional, sabia muito bem que não se lançavam as redes naquela hora do dia. Parece loucura. Assim, muitas vezes é hoje – o que Jesus nos pede parece loucura aos olhos da sociedade consumista e excludente. Pois, como diz Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,25). Mesmo assim, Simão avança a barca “em atenção à sua palavra” (v. 5). Aqui está o nó da questão – a atenção à Palavra de Deus. O Salmo 95,7 reza: “Oxalá, vocês escutem hoje o que ele diz” – pois Deus nos fala todos os dias. Uma fala exige atenção para que seja captada. Deus nos fala sempre. Porém, se não tivermos as antenas ligadas, não ouviremos. Continuaremos acomodados nas águas rasas e tranquilas, enquanto a missão exige que nos lancemos para águas profundas.

Pedro reage: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” (v. 8). Como a luz cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo o pecado humano. O que parece normal, segundo critérios humanos, fica negativo diante dos critérios do amor divino! Jesus, porém, não atende o pedido de Pedro. Pelo contrário, fala para Pedro não ter medo – nem da sua fraqueza, nem da sua natureza pecaminosa, nem das suas falhas. Jesus o chama tal como ele é. Ele nos ama, não como gostaríamos de ser, mas como somos de fato.

Não devemos ter medo da nossa realidade humana e pecadora, pois todos nós carregamos “um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4,7). Podemos caminhar com confiança porque, “se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Rm 8,1). Somos chamados a segui-lo como somos. Porém, isso não pode nos acomodar, pois o Evangelho deixa evidente que, quando os apóstolos foram chamados, deixaram tudo para segui-lo. O seguimento de Jesus sempre exige que deixemos algo.

Resta perguntar a nós mesmos: “O que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe neste momento na minha caminhada de discípulo/a”? Como é que eu devo lançar-me para “águas mais profundas” como discípulo-missionário/a do Senhor?