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Santa Maria Madalena, Rogai por nós!

Santa Maria Madalena, Rogai por nós!
21 de julho de 2020 Comunicação

Em 22 de julho, celebra-se pela Igreja Católica Romana a festa de Santa Maria Madalena, aquela que foi a primeira testemunha da Ressurreição e a grande “Apóstola dos Apóstolos”. Para nos ajudar a entender essa importante personagem do mundo cristão, publicamos aqui o artigo da biblista e mestre em Ciências da Religião, Mercedes de Budallés Diez

Eis o artigo

SANTA MARIA MADALENA, ROGAI POR NÓS!

 

 Por Mercedes de Budallés Diez

 

O Papa Francisco estabeleceu em 2016 que a memória litúrgica de Santa Maria Madalena, celebrada em 22 de julho, elevasse-se à categoria de festa. Ele desejava que essa mulher tão admirada e querida, especialmente por muitas mulheres, ajudasse a refletir de maneira “mais profunda sobre a dignidade da mulher, na nova evangelização…”.

Como assim?  Muitas pessoas consideravam a Maria Madalena uma mulher perdoada, recuperada. Outras e outros a viam como mulher ativa, inquieta, generosa, mulher amada e amante. Segundo a tradição ortodoxa, Madalena era fazedora de milagres no cotidiano. E agora, todos devemos reconhece-la como santa? Lembrei logo, que quando minha avó contava histórias de santos e santas eu falava baixinho: “eu não quero ser santa. Que horror, toda a vida quietinha, com as mãos juntinhas, sem poder correr nem brincar!”

Hoje, me pergunto como apresentar Maria Madalena de forma que ajude a refletir sobre a dignidade da mulher. Qual foi a verdadeira vida dessa mulher?

Nos evangelhos encontramos a primeira menção de Maria Madalena em Lucas 8,1-8, onde afirma-se que dela “haviam saído sete demônios” e que “junto a outras mulheres ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam”. Depois, nos quatro evangelhos, aparece sempre entre as mulheres da Galiléia presentes no momento da crucifixão, da sepultura e da ressurreição de Jesus. Quando citam os nomes de algumas dessas mulheres, o primeiro nome é o de Maria Madalena, a não ser na crucifixão em João, que “a mãe de Jesus” aparece a primeira. (Mt 27,55-56.61; 28,1-11. Mc 15,40-41.47; 16,1; 16,9-11. Lc 23,49.55-56; 24,9-11. Jo 19,25; 20,1-2; 20). Também João, o último Evangelho escrito, narra de forma belíssima como Maria encontra e reconhece Jesus no jardim da ressurreição ao ouvir seu nome. Ela é a primeira pessoa que encontra o Ressuscitado. E recebe ainda a responsabilidade de dizer para todas e todos nós: “Eu vi o Senhor” (Jo 20,11-18).

Afirmar que de Maria Madalena “tinham saído sete demônios” (Lc 8,2) é uma expressão simbólica. Os números, como muitos textos antigos atestam não tinham valor numérico. Em todo caso, poderia se pensar que se Maria tinha “sete demônios” era uma mulher estrangeira, doente, com um defeito físico, leprosa, solteira, viúva, sem filhos. A questão é porque alegar que Madalena era prostituta. Toda prostituta seria uma mulher endemoniada? Então, deveríamos questionar porque nenhum homem apresentado como endemoniado e curado por Jesus foi considerado negativamente com conotação moral ou sexual. Outra interpretação possível seria suspeitar que Maria Madalena incomodou a alguns porque tinha personalidade forte e valores que não eram os apropriados para uma mulher. Que Maria era mulher livre, com recursos próprios, com poder e independência, com liderança. Realidades não aceitas pelo patriarcalismo e machismo históricos.

E esse nome Maria Madalena, de onde saiu? No contexto cultural da época, no tempo de Jesus de Nazaré reconheciam Jesus como um homem vindo da cidade de Nazaré. O nome de Maria Madalena se explica porque a mulher que não tinha pai homem, marido ou um filho homem era conhecida pelo lugar de onde procedia. Assim, poderíamos suspeitar da mulher cananeia (Mt 15,22), a mulher samaritana (Jo,4,1-45) ou a mulher de Magdala, nossa Maria Madalena. O nome Magdala vem de Migdal em hebraico ou Magdala em aramaico e quer dizer fortaleza ou torre. Antigamente se chamava Tarichea, nome grego de uma rica cidade na rota do comercio do Egito até a Síria. Dados importantes aparecem na Geografia: Magdala cidade da Galileia, a beira do mar e com ampla planície com água, comercializava variadas mercadorias: peixes salgados, produtos agrícolas e tecidos tingidos graças à grande fartura de água.

A Arqueologia encontra muitos dados sobre essa cidade importante durante séculos. No tempo de Alexandre Magno, o grego era língua internacional falada na rota comercial e em certas cidades importantes da Galileia. Concretamente uma delas seria Tarichea, já que foram descobertas casas luxuosas construídas que contrastavam com as moradas do lugarejo de Cafarnaum muito citado no Evangelho, só a oito quilômetros de Magdala.

Posteriormente, no tempo da dominação do Império Romano, toda a região da Galiléia sentiu o peso da cobrança dos impostos pelos romanos e diversas vezes aconteceram revoltas conduzidas por líderes judeus como no ano 54 aC, um tal Pitolão, um agricultor que chegou a ocupar e dominar a cidade de Tarichea-Magdala até que os romanos apagaram a revolta. De fato, anos mais tarde foi muito conhecida a violência de Herodes o Grande nomeado rei pelos romanos no ano 37aC. Na região das montanhas de Arbela, próxima à Magdala, Herodes mandou tocar fogo nas cavernas onde estariam escondidos os rebeldes que eram considerados inimigos dos romanos, tidos como bandidos. Acontecimentos nessa região, certamente influenciaram para continuar aparecendo lideranças e personalidades fortes que lutavam por uma vida mais digna para o povo sofrido empobrecido. Qual seria a reação de Maria de Magdala? como veria os fatos do alto da “torre”, da sua cidade?

Surpreende que não existem mais textos no Novo ou Segundo Testamento que nomeiem a Maria Madalena, cujo nome como mulher, aparece o maior número de vezes nos Evangelhos. Onde estava Madalena quando se conta nos Atos dos Apóstolos, méritos de homens? Só o apóstolo Paulo cita uma Maria (Rom 16,6), não reconhecida como a nossa Maria Madalena.  Aparecem, porém, outras muitas histórias entre os apócrifos, escritos que já foram ‘secretos e reservados’ que valorizam Maria Madalena de forma concreta e intrigante. Merecem um estudo detalhado os documentos encontrados em Nag Hammadi, em 1945, no Alto Egito, que permitem ampliar nossos conhecimentos dos aspectos profanados chegados até nós, certamente, por diversos motivos e interesses pessoais.

A história posterior afirma que Maria Madalena, lá pelos anos 200 dC, era conhecida como seguidora de Jesus e propagadora do evangelho de Jesus. Sto Hipólito de Roma (170-235dC), teólogo e mártir, a proclamou Apóstola dos Apóstolos e assim foi reconhecida pelas Igrejas Católica e Ortodoxa. Porém, mais de 300 anos depois o Papa Gregório Magno (540-604) propagou a ideia de que Madalena era prostituta, interpretando Lc 8,2, “da qual haviam saído sete demônios” e talvez Lc 7,36-50 que menciona uma pecadora que unge os pés de Jesus. Ou seja, foram três mulheres diferentes, uma pecadora, outra da qual tinham saído sete demônios e Maria de Betânia fizeram uma Maria Madalena prostituta e enigmática para chegar aos nossos dias com tantos questionamentos. Muitos historiadores afirmam que não é possível aceitar um ato de má-fé por parte do Papa Gregório Magno. Foi, uma atitude de pastor, que diante do tempo de desordem e violência no fim do Império Romano, ajudava reconhecer a misericórdia de Deus que trazia ao povo sofrido a certeza do perdão e acolhida de Deus de qualquer pecador do seu povo. Constatamos: a mulher ficou uma vez mais carregando a culpa de algo que não aconteceu!

No ano 1054 ocorreu o Cisma entre a Igreja de Oriente, Católica Ortodoxa e da Ocidente, Católica Romana. O Cisma rompeu a unidade da Igreja e uma das suas várias manifestações foi o culto à Maria Madalena, já que nas Igrejas orientais sempre se fez distinção entre as três mulheres: a pecadora anônima apresentada por Lucas, Maria Madalena e Maria de Betânia; e na Igreja Católica, só Maria Madalena ficou lembrada como prostituta arrependida e perdoada reconhecendo nossa Maria Madalena uma mulher hibrida dos três textos do Evangelho. Na Reforma protestante apareceram críticas por parte de Lutero e Calvino que consideravam as três mulheres como pessoas diferentes. Mas o poder da escrita, na mão dos homens, os proclamaram como donos da verdade e vencedores.

Numa Semana de estudo sobre Maria Madalena na minha comunidade do interior, acabamos o encontro com uma Celebração da Vida, proclamando o texto de João 20, 11-18. Quando a leitora ainda lia: “…Va dizer aos meus irmãos,” uma jovem se levantou e deu um grito: Eu vi o Senhor! E fixando os olhos em diversas pessoas da comunidade as apontava com o dedo e repetia:

Eu vi o Senhor quando você deu de comer a quem tinha fome!

Eu vi o Senhor num dia de calor quando você dava de beber na roça a quem tinha sede!

Eu vi o Senhor quando você acolheu na sua casa aquela família de migrantes!

Eu vi o Senhor quando vocês mães organizaram um bazar para vestir quem estava nu!

Eu vi o Senhor cada vez que você, você e você consolava e visitava um doente!

Eu vi o Senhor cada dia quando você ia dar aula aos encarcerados.

Eu vi o Senhor!… Eu vi o Senhor! A comunidade em pé foram se abraçando.

Uma vez mais as empobrecidas e empobrecidos me ensinaram entender a Bíblia!

 

MERCEDES DE BUDALLÉS DIEZ, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, atuando principalmente nos seguintes temas: leitura bíblica, estudos da religião, ciências da religião e pesquisa bíblica.

 

REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BUSCEMI, M Soave. Eu terra do meio. S. Bernardo do Campo: Nhandui, 2007.

CARVALHO R. de Moura, Fatima Maria. Maria Madalena a discípula amada. CEBI, 2013.

FIORENZA, E. Shussler. Caminhos de Sabedoria S. Bernardo do Campo: Nhandui, 2009.

LELOUP, J-Yves. O Evangelho de Maria. Myriam de Magdala. Petrópolis: Vozes, 2006.

RIBLA. As mulheres e a violência sexista. Petrópolis, n.41, 2002, pp 119-128.

SEBASTIANI, L. Maria Madalena. De personagem do Evangelho a mito de pecadora redimida.

Petrópolis: Vozes, 2006

TAMEZ, Elsa. As mulheres no movimento de Jesus Cristo. S Leopoldo: Clai, Sinodal, 2004.

TOMMASO, W Steagall de. Maria Madalena, história, tradição e lendas. PAULUS, 2020