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Reflexão do Evangelho: Reconheceram Jesus quando ele repartiu o pão

Reflexão do Evangelho: Reconheceram Jesus quando ele repartiu o pão
23 de abril de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Lucas 24,13-35, texto de Tomaz Hughes.

Boa leitura!

Talvez um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos dois discípulos na estrada de Emaús.  Nas figuras dos discípulos, temos um retrato das comunidades lucanas pelo ano 85 – vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir a presença do Ressuscitado.  Lucas procura reanimar o seu pessoal, mostrando que eles não estão abandonados. Muito pelo contrário, estão caminhando na vida, contando com a presença do Senhor que venceu a morte.

Esta história pode nos ajudar bastante, pois retrata a situação de muitos cristãos e comunidades nos tempos atuais. É que, ainda hoje, há quem acredita em Jesus intelectualmente, mas não vibra com a presença dele no meio de nós. Ou quem reduz a fé a uma adesão intelectual aos dogmas, sem que seja algo que dê sentido à vida e à caminhada. Ou ainda, quem limita o seguimento de Jesus a uma séria de práticas e leis morais, mas sem qualquer vigor missionário. O texto nos ajuda a ver como a Palavra de Deus na Bíblia pode contribuir na interpretação da nossa realidade para que, em lugar de perder o ânimo, nos tornemos vibrantes discípulos-missionários/as do Senhor.  Jesus é o mestre da Bíblia e aqui ele demonstra como aproveitar a Escritura para iluminar os problemas práticos da nossa caminhada e reforçar a coragem na nossa missão de evangelizadores.

O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos. Um drama que revela a pedagogia de Jesus.  Vejamos mais de perto:

O primeiro ato: vv. 13-19a: Introdução

O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”.  Devemos já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós, seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus!  Dia de desânimo, de tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém”.  Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no dia de sábado.  Portanto era impossível que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade para sair de Jerusalém, e eles já estão voltando para a sua casa, desiludidos, decepcionados e sem perspectivas. A cena começa com a desintegração da comunidade cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria, nem esperança.

Quem eram eles?  Sabemos do relato que um se chamava Cléofas. E o outro?  O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, a mãe do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19,25).  Não seria demais acreditar que os dois discípulos era o casal, Cléofas e a sua esposa Maria, voltando depois da peregrinação pascal a Jerusalém.  Nunca saberemos com certeza, mas é uma hipótese agradável e possível. Sendo assim, a descoberta da presença do Ressuscitado dar-se-á no lar e não em uma hospedaria anônima.  Seria bem de acordo com a valorização, na obra de Lucas, da Igreja Doméstica, a Igreja que se reuniu nas casas, como tantas Igrejas vivas de hoje.

De repente, surge Jesus no caminho, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver. Agora, Ele tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. Através dos verbos que Lucas usa, é importante notar como Jesus se comporta. Ele “aproximou-se”, “caminhou com eles” e “perguntou”.  Ele não veio “dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas.  Ele criou um ambiente de fraternidade onde fosse possível explicar tanto a vida como a Bíblia.  Quantas vezes, isso falta em nossos grupos, nossas comunidades! Não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância.  Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer a realidade dos nossos irmãos e nossas irmãs. Por isso mesmo, muitas vezes, não têm efeito as nossas reuniões, os nossos encontros bíblicos.

O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é que vocês andam discutindo pelo caminho?” (v. 17), ou seja, Ele dá uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem moralismo. Ele parte da realidade dos dois, tal como eles a experimentam, mesmo com análise equivocada.

Segundo ato: vv. 19b-24: Os discípulos falam

Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante da morte de Jesus, ele destaca uma coisa importante: “nós esperávamos que ele fosse o libertador de Israel” (v. 21).  Eles “esperavam”. Portanto, não esperam mais nada. Aqui, ressoam traços de decepção, desilusão, desânimo e, até, de certa revolta contra Jesus, pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos vão muito além de uma simples tristeza. Hoje, algo semelhante marca muita gente sensata e muitas comunidades exclamam: esperávamos um governo em favor do povo e recebemos um golpe em favor da elite, do agronegócio e do lucro desenfreado!  Esperávamos uma Igreja povo de Deus, e em muitos lugares instalou-se uma Igreja clericalista, fechada em si, devocionista, alienada e alienante, apesar de tantas comunidades comprometidas. É tentadora – mas equivocada – a decisão de abandonar a luta, cultivando a resignação e a passividade, como foi a tentação dos dois discípulos.

É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi quem matou Jesus. Não foi o povo, mas foram pessoas e grupos de interesse bem definidos: “Nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram” (v. 20).

Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer ou a algo desejado pelo Pai, é necessário examinar mais profundamente esta afirmação de Cléofas. Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “sumos sacerdotes”, de um lado, e pelos “chefes”, de outro. Os sumos sacerdotes eram um grupo de sacerdotes do partido aristocrático e conservador dos saduceus, que dominava o comércio do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e prática profética de Jesus. Naquele momento, os sumos sacerdotes eram nomeados pelos procuradores romanos. Portanto, eram um poder dependente do império, cujas ordens deviam cumprir. De outro lado, Jesus também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”, ou seja, os membros do Sinédrio, o órgão do governo interno do povo judaico da Palestina, na maioria também pertencente ao partido elitista dos saduceus (não dos fariseus), colaboradores com o poder romano, lucrando bastante com isso.  Então Jesus foi morto não por acaso, mas para defender os privilégios da elite judaica e do império romano. A cruz era a consequência lógica da vida de Jesus, da sua mensagem e atuação, que ameaçavam os privilégios dos poderosos. Não é por acaso que foram soldados romanos que executaram Jesus na cruz, pena máxima imposta pelo império a escravos e pessoas que não se sujeitavam ao poder imperial.

Outro elemento importante é o fato de que os dois sabiam do túmulo vazio, segundo o testemunho das mulheres. Mas, isso não dizia nada para eles. Aqui, se destaca que a nossa fé não se baseia num túmulo vazio. É a nossa fé na Ressurreição que explica porque o túmulo estava vazio e não o túmulo que dá consistência à nossa fé.

Terceiro ato: vv. 25-27: A Bíblia

Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade, é que Jesus faz memória das Escrituras. Ele acentua que os discípulos “custam a entender e demoram em acreditar em tudo o que os profetas falaram” (v. 25).  Notemos bem que não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”.  Eles eram judeus piedosos que, mesmo sendo analfabetos, conheciam muito bem os salmos e as profecias. O seu problema era que, embora conhecessem o livro da Bíblia e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então, Jesus “explica” as Escrituras. Ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a sua realidade com a Palavra de Deus.

Quarto ato: vv. 28-32: A partilha

Chegando à aldeia de Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar e jantar com eles. Caso realmente se tratar de um casal, então seria entrar na sua casa, no aconchego do seu lar, e não em uma hospedaria qualquer, como normalmente a gente supunha. Aqui, temos o ponto central da história. Até agora, a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles.  Mas, agora, sim. Jesus pôs-se à mesa, “tomou o pão e o abençoou, depois o partiu e o deu a eles” (v. 30).  De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha na comunidade. Agora, o milagre acontece: “Nisso, os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus” (v. 31).  Neste mesmo momento, Jesus desaparece da frente deles.  Por quê?  Porque, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado entre eles e dentro deles, não precisavam mais da “muleta” da sua presença física.

Agora, eles caem em si e reconhecem a força da Palavra, perguntando: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (v. 32). A Bíblia é capaz de entusiasmar, de fazer “arder o coração”. Mas, para “abrir os olhos”, para fazer cair as “escamas” que impedem a visão da consciência, é necessária uma nova prática, isto é, a experiência de comunidade, de celebração, de partilha.

Quinto ato: vv. 33-36: A missão

Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Mas, isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de vida. E mais. Exige discipulado e missão, seguimento e apostolado.  Os mesmos dois que, na manhã clara, fugiam de Jerusalém (o lugar da morte, da perseguição e do fracasso), agora na noite escura, põem-se no caminho de volta. O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas, mudaram o coração e a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. A história, que começou com a comunidade se desintegrando, termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria. A comunidade de Jerusalém confirmou: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão” (v. 34). E os dois de Emaús puderam partilhar sua experiência, tudo “o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 36).

Esta história pode servir para nós como paradigma de um círculo bíblico, grupo de reflexão, ou seja, qual for o nome que nós damos às nossas pequenas comunidades.  Jesus liga quatro elementos essenciais: a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade.  É na união entre estes elementos que se revela a presença do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna “lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 119,105). Procuremos unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros. Assim, descobriremos como se concretiza o desejo do salmista: “Oxalá, vocês escutem hoje o que Ele diz!” (Sl 95,7).

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