Bem vindo(a) ao CEBI ! (51) 3568-2560

Reflexão do Evangelho: As bem-aventuranças

Reflexão do Evangelho: As bem-aventuranças
29 de outubro de 2020 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Mateus 5,1-12, texto de Marcelo Barros.

Boa leitura!

O primeiro discurso dos cinco nos quais a comunidade de Mateus organiza as palavras de Jesus é o chamado “Sermão da Montanha” (Mateus 5–7). No mundo antigo, a montanha é considerada lugar sagrado. Conforme a Bíblia, Moisés subiu nove vezes à montanha do Sinai. Jesus também sobe à montanha, continuando o seu papel de “novo Moisés”, não para substituir Moisés ou a lei judaica, mas para ampliá-la para todo o mundo e explicitá-la como boa notícia do reinado divino.

Carlos Mesters explica: “O Sermão da Montanha abre-se com oito bem-aventuranças. Elas são o portão de entrada deste e dos textos que seguem. Declaram felizes os pobres caracterizados de oito maneiras, pois neles o Reino de Deus já se faz presente como dom e graça de Deus no meio de nós e apesar de nós. Deste modo, as bem-aventuranças nos informam onde devemos olhar para descobrir os sinais da presença deste Reino no mundo em que vivemos” [1].

Alguém chamou a atenção para o fato de que, apesar da tradição cristã sempre ter falado em oito bem-aventuranças, o texto repete nove vezes: “Felizes”. E, sendo nove, bem no meio está a bem-aventurança dos misericordiosos. De fato, a misericórdia, o amor fiel e compassivo de Deus é a manifestação mais própria de Deus e o modo de nos parecermos mais com Ele.

O primeiro salmo da Bíblia começa por esta palavra: “Feliz”, “Bendito”, ou “Bem-aventurado”. Faz parte da piedade judaica a Beraká, a bênção, como proclamação da vida em nome de Deus para as pessoas e o universo. “O termo (asherê) ocorre 45 vezes no texto hebraico da Bíblia. As proclamações de bênçãos (macarismos vem do termo grego “makarios”) são muito frequentes em livros judaicos não bíblicos como o Apocalipse de Baruc, o IV livro de Esdras e outros” [2].

Como um pobre rabino itinerante que quer ajudar o povo a renovar a aliança com Deus, Jesus traz uma novidade imensa: parece que nenhum outro texto antigo sublinha tanto a gratuidade da proclamação do Reino. Enquanto os textos apocalípticos dizem: “Felizes os que temem ao Senhor, felizes os que fazem julgamentos justos”, Jesus acentua a gratuidade do reinado divino e abre essa felicidade do reino a todos, principalmente aos excluídos do mundo e do próprio sistema religioso, qualquer que ele seja.

O maior produto do mundo atual é a exclusão de milhões de pessoas. Jesus começa a proclamação do reinado divino, dirigindo-se a eles e lhes prometendo que, pela vinda deste reino, acabarão as injustiças responsáveis pela marginalização deles.

As promessas são o resumo de todas as promessas bíblicas. O reino vem para as pessoas pobres. Então, quem chora será consolado/a, quem tem fome será saciado/a, as pessoas que têm fome e sede de justiça serão satisfeitas. Por quem? Por Deus. O fato de falar sempre no passivo (“serão”) é sinal de que estão falando de uma ação divina. Na América Latina, essas promessas têm sustentado a esperança de muitos irmãos e irmãs dos quais um bom número deu a vida pelo reino. E estas promessas se realizam, não porque essas pessoas (pobres, famintas ou as que choram) sejam boas ou justas, mas porque Deus as ama e não aceita que continuem sofrendo. É significativo que a proclamação do reino comece pela indicação de caminhos para a felicidade: “felizes”, ou “benditas”…

Cada vez mais, é importante esse testemunho: Jesus nos chama para sermos felizes no caminho do reino.

Outro dia, li uma piada a respeito de um cristão que morre e se surpreende quando quer entrar no céu, pois Jesus lhe diz que ele não está preparado. Ele insiste: Mas, por que Senhor?

Jesus lhe responde imediatamente:

– Por que você não fez tudo o que era necessário para ser feliz.

A luta da vida consiste em buscar a felicidade. Todo mundo quer ser feliz. Mas, Jesus indica como caminho para a gente ser feliz o contrário do que o mundo propõe. Lucas havia transcrito as bem-aventuranças como bênçãos dirigidas diretamente aos pobres (“Felizes vocês que são pobres”). As comunidades de Mateus traduziram por “Felizes os que têm coração de pobre” (os que assumem com consciência o fato de ser pobres). No começo da caminhada das comunidades eclesiais de base, muitos se perguntavam se os pobres “de espírito” ou “de coração” que Jesus proclama bem-aventurados seriam as pessoas humildes e sem ambição. Praticamente, todos os comentadores latino-americanos têm insistido que, na tradição bíblica, a promessa divina é de salvar os pobres reais, no sentido de pessoas despossuídas, carentes e oprimidas (Levítico 19,10.15; Provérbios 14,31; 28,15). Aqui se incluem o órfão, a viúva, o migrante, os que se sentem indefesos diante do malvado (Cf. Deuteronômio 24,19; Jó 29,12-16 e Salmo 10). Na sua versão destas palavras de Jesus, Lucas diz simplesmente: “Felizes vocês que são pobres!” (Lucas 6,20). Parece que esta versão seria mais primitiva. Ao acrescentar “de coração”, Mateus acentua que não basta ser pobre econômica e socialmente, embora esse seja o elemento fundamental. Precisa assumir a pobreza e ter consciência de sua realidade. É bom ler as bem-aventuranças em seu contexto social. Hoje, quando dizemos “as pessoas que choram”, muitas vezes, pensamos nas situações de sofrimento e infelicidade da vida pessoal. Jesus fala ao coletivo e parece referir-se aos que são vítimas do desgoverno dos opressores. Isaías 61 se referia aos que choram e lhes prometia que Deus mudaria sua tristeza em alegria, pela volta do povo do exílio e pela libertação sócio-política. A bem-aventurança dos mansos nos recorda, hoje, todos os movimentos de ação não violenta. O Salmo já dizia: “os pequenos possuirão a terra” (Salmo 37,10-11). A terra é de Deus, e ele a dá aos pequenos. Hoje, lutamos pelo direito dos lavradores a terra e para que a humanidade retome o cuidado com a Terra como planeta que nos foi entregue. E, neste cuidado, sabemos que a solução ecológica e social não virá dos grandes, mas dos pequenos. Jesus proclama bem-aventuradas as pessoas misericordiosas. A misericórdia já é uma virtude aconselhada pela tradição bíblica (Provérbios 14,21; Oseias 6,6 e Tobias 4,5-7). O próprio Jesus vai retomar Oseias ao dizer: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mateus 9,13). Os filósofos romanos não tinham em alta conta a misericórdia. Parecia uma atitude dos fracos. Jesus a acentua como uma espécie de contracultura que continua muito atual, principalmente em um mundo de competição.

A bem-aventurança das pessoas puras de coração, recordada pelo Salmo 24,4, diz respeito à totalidade do ser. O coração é o mais íntimo do ser. A promessa de ver a Deus (Na Bíblia se dizia que ninguém podia ver a Deus) é reservada a esses inteiros e totais em sua vida. As pessoas que constroem a paz fazem o que Deus faz. Por isso, são chamados “filhos e filhas de Deus”, porque a paz é ação divina e fazer a paz é se comportar divinamente. O Salmo 72 é a promessa de um reino de paz verdadeira. E a bem-aventurança seguinte é quase a consequência desta: trata das pessoas perseguidas por causa da justiça. Os discípulos e discípulas são associados aos profetas exatamente por causa desta firmeza que faz com que sejam perseguidos por causa da justiça. É a bem-aventurança do martírio que tantos/as da Igreja na América Latina viveram nos últimos anos, de forma concreta e total.

Fonte: Conversando sobre Mateus


[1]  MESTERS, Carlos. Ouvi o clamor do meu povo – Estudos Bíblicos de Mt 5–9, in Estudos Bíblicos 26, p. 62.
[2] SPINETOLLI, Ortensio da, Matteo, Il Vangelo della Chiesa. Assisi: Ed. Cittadella, 5a ed. , 1993, p. 133.