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Pentecostes: sopro e fogo

Pentecostes: sopro e fogo
31 de maio de 2020 Comunicação

Nilton Leite Jr. de Natal(RN),  

da Escola de Fé e Politica William Wilberforce e membro da IBC – Recife 

Você sabe o que significa?
Pentecostes é uma festa israelita que celebra e agradece pela colheita. Sim, é uma festa que simboliza gratidão a Deus, mas também gratidão à terra, que generosamente nos ensina uma lição: a razão da existência é frutificar.
A festa acontece no início de junho e aqui no Nordeste brasileiro coincide com o mês da colheita do milho, alimento sagrado dos povos de Abya Yala (América Latina).
É simbólico e por isso devemos mesmo festejar, pois mesmo que individualmente não plantemos, nos alimentamos dos frutos que a terra nos dá.
Então, o primeiro significado desta data é seu marco de paz e prosperidade com a terra. A humanidade e a terra não são inimigos, nem podemos exercer uma relação de exploração. Nos cabe o papel de burilar a terra para que nos alimente. E ela, semelhantemente, nos burila a fim de que aprendamos a criar, observar e discernir os tempos.

Pentecostes também marca outro importante momento da história.
Enquanto algumas pessoas que seguiam Jesus estavam reunidas, uma brisa forte adentrou na sala e incendiou seus corações. Essa Divina Brisa fez os mais diferentes povos se entenderem, ainda que não falassem a mesma língua. Assim, uma boa conversa entre os mais diferentes povos, foi o sinal que Deus havia visitado seu povo.
Jesus havia falado dessa pessoa que viria e daria voz aos sem-voz, trazendo poder e ousadia para aquela gente rejeitada pelo templo e pelo palácio. Essa pessoa os encorajaria para enfrentar o mais poderoso império de então e para poder dizer que Jesus estava vivo, que Deus havia derrotado o império da morte e agora nada poderia impedir a ressurreição de toda criação.
Os judeus chamavam essa pessoa de Ruach, uma palavra feminina que remetia ao sopro divino que gerou a vida.
A presença de Ruach entre os discípulos de Jesus inicia uma fase muito importante da comunidade do “Caminho” que teve intrepidez para caminhar “perturbando” a ordem opressiva do império e da religião, bradando com coragem que Jesus havia vencido a religião e o império.

Hoje Ruach ainda conduz os caminhos do povo que peregrina após Jesus. Assim como na festa de Pentecostes, recebemos poder para anunciar a boa notícia que o mundo sob a vontade de Deus já começou a ser construído, destruindo a lógica da morte e da destruição. Denunciando todas as portas que o inferno abriu neste mundo para promover desgraça entre os povos. Convidando a humanidade ao arrependimento de toda prática que opere contra a vida plena para todas e todos, sejam esses atos individuais, coletivos ou estruturais.

Um dos símbolos do Pentecostes é justamente o fogo. O fogo que destrói a palha, mas que atesta o ouro após renascer das chamas.

Essa data assume outro significado neste ano após dois casos tão emblemáticos: João Pedro e George Floyd que foram martirizados pela ação do aparato policial do Estado. Além da circunstância da morte, outra “coincidência” é a cor da pele de ambos. Não foi uma pele alva, foi a pele alvo, a pele preta.
Isso tem nome: Racismo.

Pentecostes é a Festa de Ruach, o sopro divino que gera vida. Sopro da vida que foi roubado de João Pedro e de George Floyd e agora eles não conseguem respirar. Ninguém pode devolver o sopro de vida a eles, por isso o sangue deles clama perante Ruach acusando os pecados individuais, coletivos e estruturais que levaram a essa tragédia.
Que cada instância pague pelo o que fez.
VOCÊS NÃO TEM O DIREITO DE ROUBAR NOSSO FÔLEGO, FOI RUACH QUE SOPROU EM NOSSAS NARINAS!

Que o fogo de Pentecostes prove cada uma das ações desta sociedade. Que queime como palha cada estrutura de morte. Que faça brilhar como ouro uma nova sociedade que valorize as vidas pretas e acabe com cada porta do inferno entre nós.

É Pentecostes, é tempo de colheitas, é tempo do sopro de libertação, é tempo de poder para o povo.
Não sabemos de onde vem, nem para onde vai, mas sabemos que Ruach anuncia aos quatro cantos do mundo que vidas pretas importam!