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Madalena, uma mulher plena de corpo e espírito!

Madalena, uma mulher plena de corpo e espírito!
25 de julho de 2020 Comunicação

Odja Barros*

 

O Evangelho de Lucas apresenta Maria Madalena como uma mulher de quem Jesus expulsou sete demônios ou sete espíritos. Na cultura judaica o número sete representa totalidade, plenitude. A partir dessa referência: “Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios ou espíritos” é apresentada Madalena (Lucas 8:2). Tendo por base as histórias e relatos sobre pessoas consideradas endemoninhadas na cultura religiosa da palestina do século I, as interpretações deduziram que Maria Madalena foi uma mulher curada de uma doença grave ou de uma história de total marginalização e opressão, uma vez, que toda forma de doença ou sofrimento físico, psíquico, emocional ou espiritual era atribuído a espíritos maus. Nas interpretações tradicionais os sete demônios ou sete espíritos dos quais Madalena foi libertada, foi ainda, relacionado a um mal moral que provinha da prostituição atribuída erroneamente a ela a partir do relato de Lucas 7: 36-50.

No entanto, não há nada nas Escrituras que sustente a ideia de que Maria Madalena foi uma prostituta, mas há suficientes referências bíblicas e históricas, que evidencia que ela foi uma mulher de poder econômico, livre e autônoma que não tinha nenhum homem que a tutelasse. Madalena, portanto, por ser uma mulher dona de si mesma com autonomia do seu corpo e da sua sexualidade, certamente. pode ter sido considerada uma mulher perigosa, louca ou endemoninhada que ameaçava a cultura religiosa patriarcal do seu tempo.

Que libertação teria, então, Jesus operado na vida de Maria Madalena?

Tendo em vista que Madalena era uma mulher que contrariava o padrão da cultura religiosa patriarcal, provavelmente sofreu no decorrer de sua história muitas marginalizações, difamações e violências. Neste caso, a libertação promovida por Jesus, pode ter sido, simplesmente a da não demonização de Maria Madalena, reintegrando-a consigo mesma e com os poderes e forças que foram demonizados pela cultura patriarcal. Talvez o que Jesus fez foi apenas libertar Maria Madalena da demonização do seu corpo, da sua liberdade e autonomia, permitindo que ela continuasse sendo ela mesma, livre das culpas, estereótipos e condenações.

Madalena, uma mulher plena de espírito!

As mulheres livres e plenas sempre assustaram a religião e a sociedade patriarcal. Por isso a estratégia de demonizá-las. É conhecido o fato que a narrativa patriarcal produziu o apagamento histórico das mulheres no movimento de Jesus. O conhecimento das muitas discípulas de Jesus, que tiveram lugar ativo e de protagonismo sofreu adulteração ou invisibilização na memória histórica do Novo Testamento (Elsa Tamez, 2004). A identidade e história de algumas mulheres cujo nome e identidade seria impossível apagar, como foi o caso de Maria Madalena, sofreu a violência narrativa, tendo suas identidades e histórias misturadas e confundidas com a de outras mulheres. A identificação equivocada de Maria Madalena como a grande pecadora pública perdoada por Jesus (Lucas 7:36-50) e a fusão com Maria de Betânia, é resultado do “espírito” patriarcal que predominou na formação dos textos do Novo Testamento, negando as mulheres do movimento de Jesus seu valor e a identidade, produzindo violência com seus nomes e suas histórias.

Mulheres livres como Maria Madalena, representavam uma ameaça aos modelos patriarcais que atribuem valor a mulher condicionando ao seu papel de esposa ou mãe. As mulheres livres não tuteladas por figuras masculinas, tornavam-se um modelo perigoso de subversão e por isso precisavam ser apagadas ou demonizadas. No entanto, o espírito de Madalena é resistente! Apesar de toda tentativa patriarcal de apagamento, Maria Madalena é a segunda mulher mais nomeada no Novo Testamento depois de Maria, a mãe de Jesus.

Todos os quatro Evangelhos retratam-na como líder do grupo de mulheres que testemunhou por primeiro os eventos que cercam a Ressurreição. Todos os quatro descrevem-na exatamente como “Maria, a de Magdala”. Nos costumes sociais que cercavam as mulheres no judaísmo palestino do primeiro século, as mulheres muito raramente eram nomeadas em textos antigos. Se elas eram nomeadas é porque tinham alguma proeminência social e, geralmente, eram nomeadas a partir de suas relações com homens, como maridos, pais ou irmãos. As mulheres não eram vistas em sua individualidade, mas eram consideradas apenas como parte da família patriarcal, e era raro para elas terem uma identidade separada de um parente do sexo masculino. Assim, foi retratada Joana, a esposa do alto funcionário de Herodes, Cuza. Mas, no caso de Maria de Magdala, é identificada e nomeada pelo povoado de onde ela veio, não em relação a um parente do sexo masculino, isso significa que Maria de Magdala era uma mulher independente que tornou-se discípula proeminente da missão de Jesus na Galileia, atraindo mulheres e pessoas que eram marginalizadas e discriminadas na sociedade e religião patriarcal.

Madalena, uma mulher livre que se tornou apóstola dos apóstolos

Os quatro Evangelhos mostram que foi Madalena a mensageira da boa notícia da ressurreição aos apóstolos. O fato de a mensagem da Ressurreição ter sido confiada primeiro à Madalena, é considerado uma forte prova do que é relatado em outros escritos cristãos extra-canônicos, que Maria Madalena foi de fato uma apóstola e que houve comunidades de fé inteiras crescendo em torno da liderança dela, onde ela foi considerada alguém que compreendeu a mensagem de Jesus melhor do que Pedro e os discípulos homens. Outros estudos revelam que havia tensões sobre a autonomia e os papeis das mulheres e de sua liderança na Igreja primitiva e que a figura de Maria Madalena, uma mulher independente que se tornou apóstola, legitimava ainda mais a igualdade entre mulheres e homens e lhes garantia poder e autoridade nas comunidades originárias.

O testemunho das mulheres independentes como Maria Madalena precisava ser suprimido, apagado ou substituído na memória histórica do cristianismo, por homens que defendiam o ideal de mulher, esposas e mães, glorificado na imagem de Maria, a mãe de Jesus, acima do testemunho de Maria Madalena.

Qual o medo que as tradições patriarcais cristãs têm de mulheres livres e cheia de espírito como Madalena? Por que tentar apagar a liderança de uma mulher independente e retratá-la como uma mulher devassa com necessidade de arrependimento e de uma vida de arrependimento? Talvez, o medo de Maria de Madalena tem a ver com o fato dela representar um modelo de mulher e liderança feminina livre e independente que os posteriores homens líderes da Igreja queriam evitar. No entanto a memória de Maria Madalena, plena de corpo e espírito, resistiu e enfrentou os espíritos patriarcais da sua época, não se deixando enquadrar pela moldura patriarcal que prefere retratar as mulheres ou como prostitutas, pecadoras, habitadas por demônios ou como mulheres virgens, santas e perfeitas.

Quando hoje, vemos um aparente ressurgimento do medo das mulheres, da liberdade do seu corpo e sexualidade, torna-se importante a recuperação da memória histórica de Maria Madalena para que nós, mulheres cristãs contemporâneas, encontremos nela a liberdade e a força para enfrentar e confrontar os espíritos patriarcais de nossa época. Por isso neste dia 22 de julho, saudamos os sete espíritos de Madalena, que nos ressuscite e nos torne mulheres plenas de corpo e espírito!

 

*Pastora Batista, teóloga feminista e assessora do CEBI