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Igreja, vocação da resistência

Igreja, vocação da resistência
6 de novembro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações
Ilustração de Luis Henrique Alves Pinto

por Marcelo Barros*

O fato de que, em pleno século XXI, em um país como o Brasil, a maioria do povo possa ter votado em um projeto de governo representado por Jair Bolsonaro, merece estudos e reflexões que não se esgotarão em poucos dias, ou em algumas páginas de artigos. Sem dúvida, se o discurso de ódio e intolerância de um homem como o vencedor dessas eleições foi capaz de germinar e frutificar em uma população tão diversificada é porque o vírus já estava incubado no coração das pessoas e dos grupos sociais. Ele só aproveitou a ocasião propícia para fazer aflorar a revolta sem rumo das massas e conciliá-la com os interesses da elite escravagista.

Aparentemente, poderíamos pensar que na luta da civilização contra a barbárie, a maioria do povo brasileiro optou pela barbárie. No entanto, essa análise não pode ser essa. A maioria das pessoas votou por segurança. Apostou em alguém que fala em mudanças e que promete defender valores firmes em uma sociedade na qual tudo parece líquido.

O povo pobre votou contra si mesmo e o engodo no qual caiu não será descoberto como equívoco a não ser pouco a pouco e de forma parcial. A chamada “guerra de quarta geração”, paga pelo governo norte-americano e disparada dia e noite pela Globo e por outros instrumentos da grande mídia ainda demorará a ser desmascarada.

Para quem segue um caminho espiritual, seja cristão, seja de outra tradição religiosa, o resultado dessas eleições mostra o descrédito total da fé, travestido em uma religião, morta e empalhada, usada como bandeira para as piores causas, antissociais e desumanas. Na carta aos romanos, o apóstolo Paulo ensina que, para quem é discípulo/a de Jesus, a percepção da justiça do modo como Deus a encara, justiça libertadora, só se faz pela fé. Assim, a fé não é apenas crença religiosa, mas é a acolhida do chamado que Deus nos faz através da vida e para a vida. Por isso, nunca a fé pode ser desligada da vida e de uma sensibilidade pela justiça e a partir dos pequenos. Por isso, se torna muito doloroso constatar que grande parte dos religiosos não só se somou ao projeto do ódio e da intolerância, como contribuiu fortemente para a vitória do mal. No cômputo final dos votos a maioria das pessoas que se dizem religiosas (das mais diversas religiões) votou na extrema-direita e a minoria votou pela Democracia. O único grupo religioso cuja maioria votou na Frente Democrática foi o povo de tradições afrodescendentes.

No caso do Cristianismo, ainda há muitos padres e pastores que, do evangelho, mantém apenas alguma coisa como uma pintura superficial e isso mesmo quando lhes convém. Não são poucos os bispos e padres que ainda fazem divisão entre o religioso e o social. Falam do religioso como algo alheio a esse mundo. Não tomam posição em favor da verdade, como se a realidade social e política não lhes dissesse respeito. Ao fazerem isso, favorecem sempre o pior lado. Em suas dioceses, dão maior apoio e assistência a movimentos leigos de classe média, que desenvolvem uma espiritualidade autocentrada no indivíduo e a partir de um modelo de Igreja fechada em si mesma, pouco atenta à profecia transformadora do Evangelho e às orientações do papa Francisco.

Em 1964, padres e fieis foram às ruas para festejar o golpe militar. Em várias capitais, em nome de Deus, encabeçaram a Marcha por Deus, pela pátria e pela família. O resultado disso, todos nós conhecemos. Na Alemanha do Nazismo, em 1933, a maioria dos bispos, padres e pastores manifestaram apoio a Hitler, ao Nazismo e à esperança de uma Alemanha centrada na pureza da raça teutônica. Um pequeníssimo grupo de pastores e fieis, coordenados pelo teólogo e mártir Dietrich Bonhoeffer começou o que se chamou Igreja da Resistência. Não contavam com o apoio das hierarquias e muitos seriam perseguidos, presos e mortos. Mas, se sentiam chamados pelo Espírito a esse testemunho de fé e de amor. Afirmavam: “Cristo nos ajuda não por sua onipotência e sim por sua debilidade e sofrimentos”.

Nessas eleições, nós que optamos pelo caminho do amor e da solidariedade fomos conduzidos à realidade de que somos minorias abraâmicas, como chamava Dom Helder Camara. As eleições são importantes, mas não representam tudo. Nossos grupos e militantes fizeram um trabalho belo e profundo nessas semanas. De qualquer forma, essa semente plantada, mesmo se não for hoje, nem amanhã, dará o seu fruto. Na véspera da paixão, na ceia com os discípulos, Jesus afirmou ao seu pequeno grupo: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como ama o que é seu, mas, porque não sois do mundo e, porque eu vos escolhi do mundo, o mundo vos odeia. Recordai-vos do que eu vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se perseguiram a mim, perseguirão também a vós…” (Jo 15, 18- 20).

Partilhado pelo autor.

Ilustração de capa: Luis Henrique Alves Pinto, disponível no blog do artista.

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