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Batismo coloca-nos na missão solidária com as pessoas que lutam

Batismo coloca-nos na missão solidária com as pessoas que lutam
6 de janeiro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 1.4-11, texto de Teobaldo Witter.

Boa leitura!

1. Introdução

Epifania é uma fase importante do calendário cristão. Advento e Natal enchem a vida das pessoas de esperança, de promessas humanas e de compromissos para organizar encontros e fazer visitas mútuas. Depois de tanto agitação, o que sobra? Advento, Natal e fim de ano são como um terremoto na vida das pessoas. Muitos afazeres para deixar as coisas em paz com as convenções sociais. Mas passou. Agora parece que vem um vazio. Em muitos locais, reduzem-se, inclusive, as atividades da igreja. Os grupos entram em recesso. Os cultos são somente os estritamente necessários. Mas vejam como é lindo o tempo da Epifania!

Epifania é revelação de Deus. É graça revelada. É a luz que surge na escuridão. Jesus, a luz do mundo, é revelada em meio aos povos e nações. Deus quebra o silêncio e fala no batismo de Jesus. Isso é maravilhoso e comprometedor. Livres de mil e uma preocupações, nós podemos ouvi-lo com cuidado e atenção. Temos a oportunidade de permitir que a Epifania e o batismo de Jesus nos encantem, envolvam em seu mundo de paz, da fala de Deus, do cuidado de Jesus e nosso cuidado com a vida e a salvação.

Marcos 1.4-11 escreve sobre João Batista, homem que vem do deserto, do vazio e prega arrependimento e perdão dos pecados. Ele anuncia Jesus, que, ao contrário dele, batiza com o Espírito Santo. Jesus pede a João que o batize no rio Jordão. Durante o batismo de Jesus, o céu se rasga. Deus quebra o silêncio e diz: “Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo”.

Água, caos, ensino, arrependimento, batismo, Espírito Santo, a Palavra criadora e restauradora são elementos que ligam as três leituras bíblicas.

2. Exegese

Certamente, Marcos é o evangelho mais antigo dos sinóticos. Tem sua forma própria e direta de dizer as coisas. Ele vai direto ao assunto. Apresenta Jesus como Filho de Deus, mas que só pode ser compreendido como tal na cruz, no martírio, na dor e no silêncio da morte (Mc 15.19). Fora disso, seria triunfalismo, o que o evangelho não aceita. Não menciona o nascimento de Jesus, assim como os demais sinóticos e João. Se dependêssemos de Marcos, não haveria Natal. Em vez disso, ele menciona, logo de início, dois textos do Primeiro Testamento (Ml 3.1; Is 40.3). Vem um mensageiro preparando o caminho. É voz que vem do deserto e endireita as veredas do Senhor. O nosso texto testemunha como acontece isso.

V. 4 – Aparece João Batista. Ele não tem títulos, não tem penduricalhos que o qualifiquem. João parece ser um nada, alguém que vem do nada. Vem, no entanto, do deserto. E logo anuncia a mensagem, sem floreios e sem rodeios. É um “imperativo categórico”, segundo Emanuel Kant, pois o batismo deve ser de arrependimento para que possa haver remissão dos pecados.

V. 5 – Pelo que se menciona, multidões vinham da Judeia e de Jerusalém ao encontro de João Batista. O surpreendente é que confessavam seus pecados e, então, eram batizadas no rio Jordão.

V. 6 – Um versículo inteiro faz referência ao estilo de vida de João: vestes de pelos de camelo, um cinto de couro. Ele vem como um profeta, vestido como Elias (2Rs 1.8). Ele cuida de sua alimentação. Alimenta-se de gafanhotos e de mel silvestre. São detalhes importantes que informam sobre a vida sóbria, também na comida. O gafanhoto é considerado um animal limpo e comestível (cf. Lv 11.22). O estilo de vestir-se e de alimentar-se de João não é imposição por algum problema de escassez de alimento. Sim, se os povos vinham a seu encontro para ouvir a pregação, arrepender-se e ser batizados, então João Batista poderia beneficiar-se de bens e de comida farta. No entanto, seu estilo de vida é outro. Ele tem outra opção de vida.

V. 7 – É a pregação propriamente dita de João Batista. É ele quem fala. Explica que está por chegar alguém que é infinitamente grandioso, digno de toda a honra e toda a glória. Diante dele, João não é digno nem de tocar suas sandálias, isto é, nem de fazer o serviço mais humilde. Ou seja, não é digno de servi-lo como escravo.

V. 8 – Continua a explicação de João. Faz a diferenciação fundamental e inconfundível entre o seu batismo e o daquele que vem. O mensageiro faz o batismo com água, mas o que vem faz o batismo com o Espírito Santo.

V. 9 – Na continuação do texto, a vinda de alguém recebe destaque. É a primeira vez que Marcos, após o título do livro, menciona Jesus de Nazaré da Galileia. Observa que o texto faz menção clara ao local de onde Jesus veio. Em Marcos, de uma forma normal, sem resistência, Jesus é batizado por João no rio Jordão. Jesus opta pelo batismo de arrependimento, pelo batismo de João. Ele vem de livre e espontânea vontade, sem pressão de ninguém, para receber o batismo.

V. 10 – Fato extraordinário acontece quando Jesus, após seu batismo feito por João, sai da água. O céu se rompe. Os céus se rasgam. O Espírito desce em forma visível como uma pomba. Os dois fatos estão interligados: os céus se rasgam e o Espírito desce.

V. 11 – Após o rompimento dos céus, Deus fala. Deus quebra o silêncio: “Tu és meu filho amado, em ti me comprazo”. Deus fala clara e exclusivamente: esse é meu filho amado.

É importante observar o conjunto: batismo de Jesus nazareno, o céu se abre, o Espírito de Deus desce sobre Jesus e Deus se revela/fala. “O céu aberto assinala o caráter escatológico do batismo de Jesus de Nazaré. O próprio Deus se autorrevela, fato ansiosamente esperado e ardentemente implorado por seu povo” (cf. Is 63.19). E quando Deus se autorrevela, vem junto “o Espírito de Deus”. Jesus de Nazaré, Batismo e Espírito de Deus “estão interligados” (BAESKE, 2004, p. 50).

Também é importante identificar no texto bíblico o aspecto do batismo de arrependimento. Jesus chega em meio às multidões que confessam seus pecados e recebem o batismo do arrependimento. “Arrependam-se de seus pecados e sejam batizados, que Deus perdoará vocês” (v. 4).

No texto de Marcos, o povo entendeu e fez conforme a pregação de João Batista. Mas, nos textos paralelos, há uma discussão sobre o tema do arrependimento. Há gente que vem para ser batizada, sem o devido preparo do arrependimento e do perdão (escribas e fariseus, Mt 3.1ss). João classifica-os como ninho de cobras, víboras que querem fugir da ira vindoura. Ele reprova tais atitudes. Mediante a iminência do reino de Deus, o texto anuncia separação entre árvores que produzem bons frutos e árvores que produzem frutos maus, uma alusão à salvação e condenação no juízo de Deus (cf. Mt 3.10).

No contexto do batismo de João, é importante perguntar pela presença da água. A água é entendida pela maioria das religiões mundiais no sentido sagrado, contendo poder para curar, para fertilizar, fonte de vida, alívio para os dores, refrescante, pureza e outros. A água lava, limpa e regenera. Essa compreensão sobre a água não é exclusividade do cristianismo. Mas, no cristianismo, água é também um elemento de evangelização, um elemento para compreender e viver a palavra de Deus. Jesus identifica-se como “água viva”. E diz: “Rios de água viva vão jorrar do interior de quem crê em mim” (Jo 7.39). A água continua simples água, mas ela é um elemento fundamental, cultural, pedagógico para perceber e entrar na dimensão vivencial atual e escatológica da fé cristã. Conforme a confissão evangélica luterana, “o Batismo não é só água, mas é água contida no mandamento de Deus e ligada à palavra de Deus” (LUTERO, O sacramento do Santo Batismo).

Podemos observar um aspecto essencial que influencia o Batismo cristão, ou seja, a relação do batismo do Batista com o tempo messiânico e o caráter provisório. O “batismo realizado por João Batista, no qual encontramos características muito próprias, não exigidas em outros rituais de purificação ou iniciação de sua época, como, por exemplo, a conversão absoluta e penitencial como preparação para os tempos messiânicos e o caráter provisório, já que aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu […] Ele vos batizará com o Espírito Santo…” (KLEN, 1998, p. 67).

3. Meditação

Sempre na linha da reflexão até aqui elencada, podemos dizer que o Batismo é tema central. Perguntamos: Por que batizamos? Há alguma razão, algum motivo para o Batismo em nossa igreja? Eu fui batizado. Sei a data. Tenho Certidão de Batismo. Mas isso significa alguma coisa para minha vida? Afinal, fui batizado. O que significa isso? O que significa o Batismo para a minha vida? O que significa a fala de Deus para a nossa igreja? E para a nossa sociedade?

O texto do Evangelho de Marcos introduz com todo o cuidado e radicalidade (vem de raiz) o tema do Batismo. Primeiramente, ele fala do arrependimento e do perdão. Batismo não é mero enfeite ou ritual vazio. Mas ele é fundamental no seguimento da reflexão de Marcos.

Como minha comunidade se posiciona diante do arrependimento e do perdão? Não é um tema de fácil aceitação para a pregação. As pessoas vêm para a igreja não para ser confrontadas com seus pecados, mas para buscar “afirmação de seu estilo de vida e, ao mesmo tempo, alívio para as suas angústias. A boa notícia de Jesus, porém, inclui uma profunda transformação na forma de pensar” (SOBRINHO, 2011, p. 1). Esse é um dos desafios que enfrento como ministro. O que significam arrependimento e perdão?

Arrependimento não é apenas um sentimento de pesar por alguma falha cometida, por uma lei transgredida ou por encontrar uma cara feia que não gostou de alguma atitude nossa. Não é apenas remorso, consciência de culpa ou sentimento emocional negativo que nos leva a pedir perdão. Isso também faz parte do arrependimento. Mas arrependimento é algo mais profundo. É algo mais radical (de raiz). Ele não se resume a um sentimento. A palavra grega traduzida por arrependimento em Marcos é metanoia. Ela significa: “mudar de mentalidade” ou “mudança de mente”. Nesse sentido, arrependimento está ligado com um outro jeito de pensar. É o que o apóstolo Paulo escreve em Romanos 12.1-2. Ali ele ensina que não podemos nos enquadrar nos moldes deste século, no jeito deste mundo. Mas podemos ser transformados em nossa mentalidade. Assim, seremos capacitados por Deus para experimentar a sua boa, agradável e perfeita vontade.

O arrependimento nos desinstala, à semelhança do deserto. Tempo de aprendizado. Deserto é tempo oportuno de ser deparado com a confiança em Deus. Ele nos coloca numa nova dimensão. Conecta-nos numa outra direção. É como dar nova direção para a vida. “Arrependimento significa mudar de ideia, implodir as velhas estruturas que sustentam minha vida para começar uma nova história. Vai além de alguns sentimentos ruins que se instalam em mim por causa de coisas erradas que fiz. Esses ‘arrependimentos’, quase sempre, são um remorso devido às consequências dos nossos próprios atos, que se voltam contra nós. Na maior parte das vezes, desejamos perdão apenas para voltar a nos sentir melhor, não para mudar de comportamento” (SOBRINHO, 2010, p. 1-2). Metanoia, “mudança de cabeça”, mudança de nosso jeito, tira-nos dos moldes deste mundo e coloca-nos no molde de Deus.

Foi essa a bronca de João Batista com os escribas e fariseus. Eles eram pessoas corretas, gente de bem. Impecáveis em seus comportamentos legais. Zelosos no cumprimento da lei. Exatamente por estarem bem sedimentados em suas estruturas religiosas, econômicas e políticas de seu tempo, achavam que a pregação sobre arrependimento e mudança de mentalidade não era com eles. Queriam o batismo de João como direito adquirido (Mt 3.1ss). Certamente estavam com um olho no reino de Deus e outro no reino deste século.

O Batismo é o ingresso no reino de Deus. Ele é o nascer de novo, após implosão do velho. Ele gruda nosso “coração no reino de Deus”, usando uma expressão do povo indígena Kulina. No Batismo, os céus se rasgam e Deus fala. “O Batismo está profundamente ligado ao desejo de Deus em relação ao ser humano: salvação e vida” (KLEN, 1998, p. 69). E aí vem o nosso compromisso com ele. O Batismo tira-nos da escuridão e coloca-nos na periferia do céu. Consequentemente, Deus gruda em nós. Dele não podemos fugir para nenhum lugar (Sl 139), porque aonde formos lá estará ele.

O batismo de Jesus no início de sua vida pública marca o seu ministério de libertação e salvação, que culminará na cruz (KLEN, 1998, p. 69). O nosso Batismo, na dimensão de Jesus, coloca-nos na missão solidária com as pessoas que lutam em suas diferentes cruzes: sofredores, famintos, pecadores, perseguidos, amargurados, aflitos, doentes. São pessoas para as quais muitas coisas saem erradas na vida, mas Deus está ali no meio delas: apoiando, perguntando, resgatando, reconciliando, alimentando, por amor. O batismo de Jesus desarticula as artimanhas de “nossa carne, do diabo, do mundo, da morte e do pecado” (LUTERO, Catecismo Menor). “O nosso Batismo nos inclui na família de Deus, fazendo contraste dentro deste mundo que exclui, segrega e discrimina. A ação de Deus em nosso favor nos capacita para a vida comunitária” (KLEN, 1998, p. 69), familiar, social e cidadã.

O Batismo, na dimensão do nascer de novo, é vivido diariamente. Não é um ato apenas do passado, nem somente um ato pontual, isolado. Mas é um viver diário em que a velha pessoa é afogada e uma nova pessoa ressurge e vive em justiça diante de Deus, para sempre (LUTERO, Catecismo Menor). Ele nos torna aptos a colocar sinais do reino de Deus em meio a este mundo. O Batismo, uma vez realizado, torna-se um jeito de viver cotidiano no perdão pessoal, familiar, comunitário e social, no compromisso com os pequenos irmãos de Jesus Cristo (Mt 25.40).

Bibliografia

BAESKE, Albérico. 1º Domingo após Epifania (Batismo de Nosso Senhor). In: Proclamar Libertação, v. 30. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2004. p.44-53.

GOBERT, Valter M. Teologia do Batismo. São Paulo: Paulinas, 1988.

KLEN, Vânia Moreira. 1º Domingo após Epifania. In: Proclamar Libertação, v. 24. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 67-69.

SOBRINHO, Ari S. O que é arrependimento? Cuiabá: pregação no culto comunitário, polígrafo, 2010, p.1-4.

Fonte: Proclamar libertação XXXVI, 2012.