A Ascensão do Senhor – Lc 24,44-53

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Rafael Rodrigues da Silva – CEBI-AL

Leconário ComumLecionário Católico
At 1.1-11
Sl 47
Ef 1.15-23
Lc 24.44-53
At 1,1-11
Sl 46(47),2-3.6-7.8-9 (R. 6)
Ef 1,17-23
Mt 28,16-20

A comunidade lucana transmite sua reflexão sobre a ressurreição e ascensão de Jesus no último capítulo do Evangelho e no início do livro de Atos dos Apóstolos. O capítulo 24 de Lucas relata a experiência das mulheres que foram ao sepulcro e anunciam que Jesus Ressuscitou (v.1-12); a caminhada do casal de discípulos para Emaús e a experiência do Ressuscitado no caminho (v.13-35); a manifestação de Jesus aos discípulos reunidos (v.36-43) e a ascensão (v.44-53). A ascensão será refletida na abertura do outro livro da comunidade (At 1,1-11).

A comunidade sente a necessidade de compreender que os acontecimentos com Jesus em Jerusalém aconteceram para que se cumprissem as Escrituras. Logo no início quer fazer memória do que Jesus falou quando estava com os discípulos e discípulas no caminho e remete para os anúncios da paixão em Lc 9,22.44; 12,50; 17,25; 18,31-33.  Porém é nesta última palavra de Jesus que encontramos a conclusão: “abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras”. Importante ressaltar que em momento algum o relato da comunidade apresenta o texto da Escritura dizendo que “o Cristo havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia”. Nem tampouco vamos encontrar no Primeiro Testamento alguma referência ao sofrimento, morte e ressurreição do Messias. Certamente a comunidade está fazendo memória e reconstrução de sua fé a partir dos textos e narrativas que circulavam na oralidade e nos testemunhos de fé da comunidade.  Ela não está preocupada em comprovar a palavra, mas é na certeza da Ressurreição em sua caminhada e na realização da Promessa.

O relato convida a comunidade para permanecer na cidade e conclui que os discípulos e discípulas que estavam em Betània, foram para Jerusalém em seguida. A comunidade lucana coloca Jerusalém na centralidade de seu projeto de anúncio da Ressurreição e da construção de uma nova vida, deixando bem claro que implica na cidade com a mudança de mentalidade, sem injustiças e sem erros. O grande projeto da comunidade está em continuar a caminhada de Jesus na restauração da cidade de Jerusalém como cidade da justiça. Parece que a comunidade está seguindo a profecia de Isaías acerca da cidade justa e fiel (Is 1,21-28). E esta reconstrução da cidade é motivo de muita alegria.

E hoje, como vivenciar a promessa, a ascensão de Jesus e a construção da cidade conforme o Projeto de Deus? Pois a cada dia nos deparamos com ações políticas e religiosas que espelham os projetos de dominação, de morte e de poder. Estamos cada vem mais longe do que a comunidade lucana sonhava com a volta de Jesus e o encontro com a cidade justa, sem erros, sem opressão. Muitas lideranças religiosas e políticas que se dizem pautadas pelo Evangelho estão distantes e no caminho contrário do que propõe Jesus. A comunidade em sua memória da Ascensão de Jesus transmite um recado simples: o projeto do Reino e do Evangelho não está e não pode estar atrelado aos projetos de dominação, opressão e injustiça.