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As multidões e a necessidade de pão

As multidões e a necessidade de pão
4 de agosto de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre João 6, 41-51, texto de Herlon A. Bezerra ministro pastoral leigo
Diocese Anglicana do Recife, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.

Boa leitura!

O trecho do Evangelho de João sobre o qual hoje meditamos (João 6:41-51) participa de um conjunto de textos que, no Primeiro e Segundo testamentos, nos põe diante de um problema bem conhecido por nossa espécie: como alimentar tanta gente diante da aparente escassez do necessário para garantir a saciedade das necessidades de todas/os? Cuidaríamos primeiro “dos nossos”? Esse cuidado tornaria legítimo assumir territórios e recursos naturais como propriedade de “minha família”, de “meu povo”, de “minha nação” ou de “meu país”? Matar, escravizar e explorar para garantir alimento e proteção para “os meus” seria um dado de realidade insuperável?

O costume da prática religiosa, da citação de expressões litúrgicas recorrentes e hoje distantes de seus contextos originários, pode nos fazer despercebidas/os do sentido que as palavras de Jesus tiveram para seus contemporâneos, bem como para as primeiras comunidades organizadas em torno de seu movimento. Daí nosso possível espanto diante do murmúrio com o qual “os judeus” responderam a sua afirmação: “Eu sou o pão que desce do céu” (v. 41).

Ora, essas palavras foram ditas “pouco antes da Páscoa” (v. 4), festa judaica na qual se celebra, tradicionalmente, a difícil passagem daquele povo pelo deserto, em cuja narrativa mítica cumpre uma função simbólica central o pão, que, milagrosamente caído do céu, teria saciado a fome da multidão faminta (Êxodo 16). Nada mais natural, pois, que aquelas/es que bem conheciam a condição ordinária da vida de Jesus, estranhassem sua afirmação. Afinal, “não conhecemos o seu pai e a sua mãe?” (v. 42), isto é, não é ele como qualquer um de nós? Estaria, por acaso, esse “zé ninguém” querendo se entender igual ou mais importante que Moisés?

Nós, pessoas religiosas contemporâneas, tão arraigadas a nossas próprias verdades doutrinárias, a nossas próprias heroínas e heróis da fé, deveríamos ser os últimos a murmurar diante do murmúrio daqueles judeus…

A mensagem de Jesus era e continua sendo radical e, por isso mesmo, promoveu e continua a promover, mesmo entre aquelas/es que se dispõem ao seu seguimento, muitas resistências e desentendimentos: “Eu sou o pão vivo que desce do céu. Quem comer deste pão viverá para a eternidade. E o pão que eu darei é a minha carne, dada para que o mundo tenha a vida” (v. 51). Alguns versículos antes, Jesus havia dito: “Moisés não vos deu o pão do céu, mas é o meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo” (vv. 32, 33). E mais adiante afirmará: “Este é o pão que desceu do céu: ele é bem diferente daquele que os vossos pais comeram [no deserto]; com efeito, eles morreram, mas aquele que comer deste pão viverá para a eternidade” (v. 58).

Apesar dessas anteriores afirmações – que poderiam, para alguns de nós, apontar certo desprezo por questões materiais e um claro apego ao sobrenatural –, Jesus não hesitou, em qualquer medida, na providência de alimento natural para a multidão faminta a partir de “cinco pães de cevada e dois peixinhos” (vv. 4-13).

Como entender esse aparente paradoxo? Como não fazer das palavras de Jesus um novo impedimento religioso, agora autodenominado cristão, na escuta do Pai? Como evitar que apenas atualizemos, agora em torno da figura de Jesus, o mesmo tradicionalismo piedoso que, construído em torno da figura de Moisés, impedia “os judeus” de entender o Primeiro Testamento para além das limitadas fronteiras estabelecidas pela religião oficial da Sinagoga?

Talvez devêssemos maior atenção, nesse sentido, às palavras de Nietzsche em Assim falava Zaratustra:

Vós me venerais; mas e se um dia vossa veneração tombar? Cuidai para que não vos esmague uma estátua! Dizeis que acreditais (…)? Sois os meus crentes: mas que importam todos os crentes? Ainda não havíeis procurado a vós mesmos: então me encontrastes. Assim fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças. Agora vos digo para me perder e vos achar; e somente quando todos vós me tiverdes negado eu retornarei a vós.

Formado a partir de dois outros livros, mais antigos – o Livro dos Sinais e o Livro da Glorificação –, o Evangelho de João não trata, diferente do que fazem os três evangelhos sinóticos, de milagres, mas antes de sinais. Fundamentais à comunicação que sustenta a vida, natural e cultural, os sinais não encontram seus valores senão naquilo a que remetem.

No Evangelho de João, desde sua introdução (1:1-18), Jesus é apresentado como sinal do ordinário que remete ao extraordinário: um jovem trabalhador periférico que, a partir dessa condição mesma, revelou-se o logos ordenador do cosmos, o Verbo Vivo que sinaliza ao Deus em cujo Amor Infinito se gera e se sustenta toda a Vida.

Assim se faz a “verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (v. 9). Assim sinalizou, da fome ordinária das multidões de seu tempo e da história de seu povo, à fome existencial profunda que acompanha nossa espécie em todos os tempos e espaços. Assim sinalizou, do pão cotidiano, o Pão da Vida, que mata toda forma de fome, pois regenera em cada pessoa a condição crística a que somos todas/os convidados no nascimento. Condição que, para as pessoas cristãs, é celebrada e conscientemente afirmada e reafirmada no Batismo e na Eucaristia, e que nos compromete, sempre novamente, com a organização política das multidões para a prática da partilha (v. 10: “Jesus disse: ‘Fazei-os sentar’”).

Num mundo no qual a ganância capitalista, a propriedade privada de bens naturais comuns e o desperdício individualista produzem desequilíbrio socioambiental e uma desigualdade social responsável por inúmeras multidões sem pão, Jesus, Pão da Vida, nos interpela, como interpelou a Filipe: “Onde compraremos pães para que tenham o que comer?” (v. 5).