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A Lei é para todos, todas, todes…

A Lei é para todos, todas, todes…
30 de setembro de 2021 Zwei Arts

Leia a reflexão sobre Marcos 10: 1-16, texto do Lilith

Boa leitura!

O Evangelho de Marcos nos traz à memória os embates de Jesus com os fariseus e doutores da lei, onde estes procuravam encontrar no Mestre alguma falha ou motivo para incriminá-lo. Os temas tratados se faziam presentes no cotidiano das comunidades e é possível pensar que a intencionalidade do relato, procura trazer luz para as novas relações que estavam sendo forjadas em torno dos ensinamentos de Jesus, nos primeiros séculos da era cristã.
O tema do divórcio é tratado no capítulo 10 e divide opiniões até os dias de hoje. Baseados neste trecho, muitos advogam a favor do casamento como sacramento, que não pode ser desfeito, sendo o divórcio, neste caso, uma maldição para o modelo de família patriarcal e monogâmica. Para outros grupos o divórcio é uma benção pois desobriga, especialmente as mulheres, a não se manterem em relações abusivas e infelizes.
No diálogo com Jesus, a primeira impressão é que o Mestre proíbe o divórcio e, essa interpretação, colonizou de tal foma as mentes, que até os dias atuais pessoas se mantém em relações infelizes, baseadas nesta interpretação literal da fala de Jesus. Entretanto é possível pensar que o radicalismo intencional de Jesus tem um objetivo nobre de proteção das mulheres e crianças que são os mais vulneráveis em caso de relações desfeitas.
Num sistema patriarcal e androcêntrico o divórcio favorecia apenas ao homem que podia despedir sua mulher por motivos banais e esdrúxulos, sem chance de defesa para a esposa, que ao ser repudiada, era julgada e criticada por todos a sua volta, ficando sem assistência ou qualquer proteção. Jesus sabia disso, sabia que seus parentes machistas tratavam as mulheres como objeto descartável e sem valor e, por isso, radicaliza o motivo pelo qual o homem poderia repudiar sua mulher, assim como as mulheres poderiam vir a repudiar o marido, caso cometessem adultério. Ao radicalizar os motivos pelos quais eram possíveis o divórcio, Jesus busca proteger esposas e filhos do poder maléfico do patriarcado e traz para a mulher a possibilidade de escolher ficar ou não num relacionamento que não a faz feliz.
A quem Jesus queria proteger?A quem interessava e beneficiava a lei mosaica e quais grupos eram privilegiados e protegidos por essas leis? Tais perguntas nos ajudam a olhar a narrativa por outros ângulos, ampliando nossa visão para o que de fato é importante neste debate de Jesus com os fariseus. A questão do divórcio vem a tona num contexto patriarcal em que mulheres e crianças não são as protegidas pelas leis, sendo excluídas e marginalizadas, onde as leis que são forjadas para ordenar as relações sociais, torna-se privilégio para uns e maldição para outras. Por isso as personagens principais deste texto, a quem Jesus quer proteger e reconhecer como seres humanos dignos, são as mulheres e as crianças. A partir da própria lei mosaica, Jesus propõe outro olhar mais ampliado e inclusivo, onde as mulheres também são empoderadas e pode decidir sobre seu corpo e relacionamento, pode dizer NÃO sem risco de ser morta ou punida.
Passados mais de dois mil anos desta narrativa, ainda vivemos um paradigma patriarcal onde as mulheres continuam sendo colocadas à margem e desprotegidas. Tanto que vimos no contexto da pandemia, os índices de violências contra mulheres e crianças crescerem assustadoramente, principalmente violência sexual contra meninas. A cada um minuto uma mulher é agredida e violentada e entre os motivos desta violência está a não aceitação do divórcio pelo companheiro e, por isso mulheres se mantém em relações abusivas, sendo ameaçadas cotidianamente pelo patriarcado que a julga e condena de todas as formas.
Embora possamos celebrar o avanço nas leis e políticas públicas de proteção a mulher, estamos longe do ideal que perseguimos, que é vida, segurança e liberdade para todas as mulheres e suas crianças.
Assim como a lei mosaica e todas as leis que foram sendo formuladas ao longo da história da humanidade, tem o objetivo de organizar os grupos sociais e proteger as pessoas, sabemos que a desigualdade social e de gênero coloca as mulheres em desvantagem e a margem destas leis e até mesmo leis específicas de proteção à mulher, precisam ser fortalecidas e ampliadas para que de fato cumpra o objetivo de salvaguardar a dignidade humana.
Jesus afirma que a lei é feita por causa da dureza do coração dos homens, isto é, se houvesse amor, compaixão, igualdade, generosidade nas relações as leis seriam desnecessárias. As leis surgem justamente por causa da dureza dos corações, e no caso desta narrativa a dureza em relação as mulheres que eram as mais vulneráveis naquele contexto.
Quando Jesus aponta as crianças como exemplo de humanidade ele chama a atenção para o fato de que a grandeza de um homem está na singeleza do coração de um menino, onde a lei que deve nos guiar é a lei do amor e da bondade.
Deste modo o capítulo termina colocando a criança no centro da vida, como exemplo de humanidade para aqueles que querem entrar no Reino dos Céus. Mulheres e crianças, num contexto onde são marginalizadas e inferiorizadas, encontram lugar e proteção no projeto de Jesus.