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Vacinas: os pobres serão excluídos em 2021

Vacinas: os pobres serão excluídos em 2021
13 de dezembro de 2020 Comunicação

O alerta das ONGs: “No Sul do mundo, apenas uma em cada 10 pessoas será imunizada”. Um apelo às empresas farmacêuticas: “Compartilhem os direitos de propriedade intelectual sobre os medicamentos anti-Covid”.

A reportagem é de Paolo M. Alfieri, publicada em Avvenire, 10-12-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Enquanto os países ricos estão em contagem regressiva para o início das campanhas de imunização contra o coronavírus (depois do Reino Unido, os EUA também estão prontos para começar), bilhões de pessoas no Sul do mundo correm o risco de não conseguir se vacinar sequer em 2021. É uma constatação amarga divulgada nessa terça-feira pelas organizações da People’s Vaccine Alliance, da qual fazem parte, entre outros, a Anistia Internacional, a Global Justice Now e a Oxfam.

Os países ricos já garantiram doses iguais a três vezes as da sua população para as vacinações do ano que vem, durante o qual, por outro lado, em 67 países pobres, apenas uma em cada 10 pessoas poderá se vacinar contra o coronavírus. Uma desigualdade que infelizmente reflete dinâmicas relacionadas também a outros setores, mas que é ainda mais humilhante considerando-se que estamos falando da saúde de bilhões de pessoas.

Ainda no dia 19 de setembro passado, o Papa Francisco havia enfatizado: “Seria triste se, no fornecimento da vacina, se desse prioridade aos mais ricos, ou se essa vacina se tornasse propriedade desta ou daquela nação”. E, invocando uma globalização do cuidado, havia concluído que a vacina “deverá ser universal, para todos”.

“De acordo com a tendência atual, estamos diante de uma enorme desigualdade no acesso à vacina, que é o principal instrumento para erradicar a pandemia”, destacou a Oxfam, observando que um país como o Canadá garantiu doses suficientes para vacinar a sua população quase cinco vezes, e a União Europeia, 2,3 vezes.

Daí o apelo da Oxfam, junto com as organizações da People’s Vaccine Alliance, a todas as empresas farmacêuticas que trabalham com as vacinas anti-Covid-19 para compartilharem a sua tecnologia e os direitos de propriedade intelectual, aderindo a uma iniciativa promovida pela OMS.

“Só assim poderão ser produzidos bilhões de doses de vacinas seguras e eficazes, disponibilizadas a todos aqueles que delas necessitam”, afirma uma nota. A People’s Vaccine Alliance também pediu aos governos que façam tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que as vacinas anti-Covid-19 se tornem um bem público global, distribuído igualmente.

“Um primeiro passo seria apoiar a proposta apresentada nesta semana pela África do Sul e pela Índia à Organização Mundial do Comércio de suspender os direitos de propriedade intelectual para as vacinas, os testes e as terapias anti-Covid-19 até que todos estejam protegidos”, afirma o apelo.

“A acumulação das vacinas por parte de poucos países corre o risco de anular os esforços globais para garantir que todos, onde quer que seja, possam estar protegidos do vírus”, denunciou a Anistia Internacional.

“Até hoje, todas as doses da Moderna e 96% das produzidas pela Pfizer-BioNTech foram adquiridos por países ricos”, continua a Oxfam, acrescentando que o consórcio Oxford-AstraZeneca, por sua vez, se comprometeu a fornecer 64% das doses aos países em desenvolvimento (a preço de custo), “mas, para o próximo ano, poderá abastecer no máximo 18% da população mundial”.

Cerca de 96% das doses da Pfizer-BioNTech, em vez disso, irão para os países ricos. Mesmo para as poucas doses restantes, levanta-se a questão da temperatura de armazenamento necessária para a distribuição, embora, de acordo com os produtores, a segunda geração da vacina, que poderia chegar em seis meses, poderá ser transportada em temperatura ambiente.

O mais importante projeto internacional para distribuir a vacina é a Covax Alliance, criado pela Gavi Alliance e que inclui dezenas de países, da Itália à China. O objetivo é garantir uma distribuição justa de dois bilhões de doses da vacina, 450 milhões das quais para 92 países pobres e em desenvolvimento, a um custo máximo de três dólares cada. Mas a população total desses 92 países é de 3,9 bilhões de pessoas.

Além disso, os acordos unilaterais dos países ricos com as empresas farmacêuticas reduzem as quantidades disponíveis no mercado. Ao contrário, os países pobres dependerão exclusivamente dos programas de distribuição internacional. É necessário um empurrão moral para que as suas esperanças não sejam frustradas.

Matéria extraida do Portal do Instituto Humanitas-UNISINOS-Adital

Foto : shutterstock