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O que, como cristão, chamo de Consciência Negra

O que, como cristão, chamo de Consciência Negra
20 de novembro de 2019 Comunicação

por Ariovaldo Ramos via Brasil 247*

A fé cristã esta intrinsecamente ligada à realidade da escravidão e da escravização.

A escravidão é uma ferida profunda na humanidade e em Deus.

Imagine-se estar no lugar de Abraão, o homem que Deus chamou para ser aquele através de quem Deus abençoaria toda a humanidade…

A família de Abraão, que se tornaria uma nação, traria para a história humana a criança que Deus prometeu, ainda no jardim, descendente da mulher, que esmagaria a Satanás, o ente espiritual que enganou os seres humanos e que, espiritualmente, os escravizou.

O descendente de Abraão libertaria a humanidade de sua escravidão espiritual, e de todo o tipo de escravização, que, por definição, decorreu dessa escravidão.

E Deus chega à Abraão, e diz que ele precisa saber que a nação que Deus vai formar a partir dele será escravizada por 400 anos.

Abraão sabia o que era escravização, essa é a macula da humanidade desde sempre.

O que pensar do Deus que tira você de sua família e realidade, o leva para uma aventura existencial e histórica, em nome da libertação da humanidade, e que lhe avisa que a família que formará, através de você, para promover essa libertação, será escravizada por 400 anos?

Por que? Porque Deus prometeu uma terra que só vai poder entregar depois desses 400 anos de escravização, porque para entrega-la terá de julgar o povo que a desfruta, e levará esse tempo para que esse povo atravesse o limite da iniquidade que tira de um povo o direito de continuar na história.

E por que o povo de Abraão tem de esperar por esse tempo sob escravização?

Silêncio!

Por que Deus precisa obedecer a tantos critérios? Isso não enfraquece Deus?

Talvez, ninguém seja idôneo para responder a tais questões, mas, fica claro que Deus se apresenta como o abolicionista, por excelência, lutando contra a escravização e o escravizador-mor da humanidade.

Findo o período quadricentenário Deus libertou o povo de Jacó, filho de Abraão, da escravização, fez os seus algozes o indenizarem, e o tirou de lá, dizendo que aqueles nunca mais seriam vistos pelos libertados.

Durante 40 anos, no deserto, que transformou em ambiente protegido, Deus trabalhou para livrar o povo libertado do servilismo e da péssima auto-imagem, que se imbricam na cultura de quem sofre a violência da escravização, o que só conseguiu com os que saíram da escravização com menos de 20 anos.

O fato é que o Deus cristão foi profundamente ferido pelo que aconteceu com o ser humano, a ponto de chegar a confessar a dor profunda que o ser humano lhe causou, e que, por causa do ser humano, desde antes da fundação do mundo, Deus se entregou à morte. O que demanda uma retomada na compreensão da criação.

Na época chamada, pelos cristãos, de plenitude dos tempos, o Filho, uma das pessoas da Trindade, que É em perfeita unidade, e é o Deus dos cristãos, veio em carne (Jesus, o Cristo) para consumar na história humana a sua entrega pré-histórica à morte, prometendo que, com sua ressurreição, que aconteceu três dias depois de ser assassinado, acabaria com a escravidão espiritual e deflagraria a luta contra toda a escravização.

Porém, o Cristo teve de amargar ver os seus seguidores aderirem à escravização, como aconteceu em vários lugares, em especial, no Brasil.

Os cristãos entraram em choque por causa disso, chegando, em outros lugares, à guerra por causa da escravização, embora mediada por questões de cunho econômico.

Contudo, a luta pela libertação teria, nessa realidade cristã, o desafio do convívio.

Escravisados e seus descendentes teriam de conviver com escravizadores e seus descendentes.

Para que esse convívio, inexoravelmente, não desande em racismo, onde os escravizadores tentam justificar a sua barbárie, evocando uma pretensa e, absolutamente, falsa superioridade racial, o que aprofunda a crueldade histórica, os escravizadores e seus descendentes têm de reconhecer que tal superioridade, por definição, não existe e que a prática dessa violência, na história, demanda reparação para a promoção da equidade.

Os escravizados e seus descendentes, por sua vez, têm de se rever, se assumindo como sujeitos de direitos, substituindo o espirito servilista por um espírito de igualdade interracial e se organizando para a exigibilidade destes direitos, em todas as áreas.

Exigindo, como emuladores da riqueza nacional, por meio de políticas de Estado reparatórias, a participação dessa e nessa riqueza, através do acesso à terra; à moradia; à educação com a obrigatória revisão do conteúdo dessa educação, pela inclusão da historia e da contribuição para a história nacional da negritude, tanto a que trouxe como a que desenvolveu no Brasil; à isonomia salarial; e o reconhecimento e inclusão do valor estético de seu fenótipo no padrão cultural da nação.

O cristianismo, de maneira geral, particularmente, no Brasil tem de recuperar o fato de a fé cristã ser de matriz afro-asiática, de que todos os personagens do Antigo e do Novo Testamento eram não brancos, com grande probabilidade de terem sido, passando por Jesus de Nazaré, majoritariamente, negros.

A teologia cristã libertadora tem de denunciar que o pobre, alvo preferencial da libertação promovida pelo Cristo, na América Latina é, predominantemente, indígena e negro.

A isso, como cristão, chamo de Consciência Negra!

Publicado originalmente no site do Brasil 247.