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Consciência negra é chamado, algo a ser cultivado por todas as pessoas

Consciência negra é chamado, algo a ser cultivado por todas as pessoas
20 de novembro de 2019 Comunicação

por Magali Cunha via Carta Capital*

Com projeto voltado a espaços periféricos do Rio, evangélica abraça jovens negros e dialoga sobre outras perspectivas possíveis para a vida

Consciência é a capacidade da mente humana perceber a relação que tem com o ambiente, com a realidade em que está inserida. “Ser consciente” implica vivências, experiências, compreensão da vida. Por isso é preciso aprendizados formais e informais, convivências, aberturas ao outro e a outras existências, coexistir. Quanto mais experimentamos para além do que temos e somos tomamos mais consciência da complexidade da vida, sua diversidade, suas demandas.

Uma das conquistas do processo de superação do racismo no Brasil foi a criação de um Dia da Consciência Negra (20 de novembro). Afinal, por séculos, a colonização política e cultural europeia instituiu que pessoas negras seriam uma segunda categoria de humanos, uma “raça inferior”, para justificar a escravidão dos povos africanos.

Muita gente dedicou a vida à contestação desta ordem cruel, desde o início da escravidão no Brasil, especialmente com a resistência dos Quilombos, que têm no líder Zumbi dos Palmares, grande símbolo. Por isso, o 20 de novembro de 1695, dia da morte de Zumbi, foi instituído como Dia da Consciência Negra no Brasil.

Esta consciência tem provocado movimentos por igualdade e justiça que até hoje marcam o mundo e que destacaram religiosos como os evangélicos Martin Luther King e Nelson Mandela e o muçulmano Malcolm X. No Brasil, há uma ampla lista de religiosos que abraçaram esta causa. Entre os evangélicos, desde Agostinho José Pereira, o Lutero Negro, de Recife, passando por João Cândido, o conhecido Almirante Negro, e muitos pastores e leigos, homens e mulheres das igrejas. Pessoas que, pela fé no Deus Criador, Amoroso e Justo, testemunharam com suas vidas que a justiça racial é demanda urgente e possível.

No entanto, o racismo estrutural atroz continua a se manifestar no descaso do mundo com a África, e nos países que viveram a escravidão como os Estados Unidos e o Brasil. Uma vez que a consciência negra é afirmativa da negritude e da dignidade das diferenças, torna-se um fluído para a libertação das tantas amarras na busca de justiça racial. Por isso, a consciência negra não deve ser alvo somente de pessoas negras.

Pessoas brancas, como eu, carecemos da consciência de que quem é branca nunca saberá o que significa um olhar de suspeita ou desprezo lançado por conta da cor da pele. Nunca experimentará a dor da humilhação e da segregação.

Cristãos e cristãos brancos precisam da consciência que as narrativas da Bíblia inspiram sobre o Deus Criador que fez os seres humanos à sua imagem e semelhança (Gênesis 1.26) e valoriza as diferenças para que não haja dominação de uns sobre os outros (Gênesis 11;1-9). O Deus da Justiça que sempre age para derrubar todo o muro de separação entre as pessoas, que resulta do pecado do desprezo às diferenças (Efésios 2.8-16; Colossenses 1.13-23; II Coríntios 5.17-21).

Necessitamos, sim, aprender com quem continua a empenhar suas vidas nesta causa. E aqui trago quem tem sido uma inspiração nestes tempos: a jovem pedagoga, da Comunidade Batista em São Gonçalo (RJ), Fabíola Oliveira.

Fabíola tem noção da sua identidade: “sou mulher preta cristã na resistência e na re-existência. Resistindo na prática de um evangelho que é inclusivo e que não comunga com a violência racista, homofóbica e machista”.

Ela se converteu ao cristianismo já adulta e testemunha que foi atravessada pela “ruah”, o sopro de Deus, quando entrou em contato com outros cristãos. Fabíola compreendeu, então, que deveria abraçar a missão de desafiar as ferramentas de violência que existem nas igrejas.

Fabíola Oliveira lança mão de sua vocação de educadora com a leitura bíblica e o diálogo teológico pelo viés da negritude e também na coordenação do projeto Odarah Cultura e Missão. O projeto oferece desde a produção de tranças, colares e turbantes que expressam a cultura afro-brasileira até oficinas de literatura africana e culinária e rodas de conversa.

Um dos principais alvos do Odarah são os espaços ocupados por negros que fortemente retratam a injustiça racial com exclusão e desprezo: os abrigos e centros de medidas socioeducativas. O projeto coordenado por Fabíola abraça os jovens internos, constrói consciência com eles e dialoga sobre outras perspectivas possíveis para a vida.

Odarah também alcança as mães desses jovens, igualmente inseridas em contexto de vulnerabilidade, muitas delas vítimas de violência doméstica das mais diversas, dentre elas a patrimonial.

“O Odarah se volta para os espaços periféricos, onde o silenciamento e a omissão sequestra sonhos diuturnamente, na tentativa de promover a produção cultural da base pela base, através de ações afirmativas de empoderamento da juventude negra. O objetivo é disputar com as drogas a mente dessa juventude. Disputar os afetos dessa juventude com a depressão. Disputar a vida dessa juventude com a morte”, diz Fabíola Oliveira.

Aprendemos com Fabíola, com as tantas outras pessoas que caminham na mesma direção e com aquelas que as antecederam, que a consciência negra é um chamado. É algo a ser cultivado por todos os seres humanos, de qualquer cor, classe social, local de moradia, religião. É aprender a coexistir. Um imenso desafio para as igrejas em seu compromisso com o chamado do Deus Criador à paz com justiça e à reconciliação entre os humanos!

Magali Cunha é jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras. Publicado originalmente no site de Carta Capital.