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Nota Pública em Repúdio ao Discurso do ex-Secretário Especial de Cultura Roberto Alvim

Nota Pública em Repúdio ao Discurso do ex-Secretário Especial de Cultura Roberto Alvim
19 de janeiro de 2020 Comunicação

Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja, possuída de arrogância humana, poderia colocar a Palavra e a obra do Senhor a serviço de quaisquer desejos, propósitos e planos escolhidos arbitrariamente.

— Declaração Teológica de Barmen, Igreja Confessante, 31/05/1934

O discurso do agora ex-Secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, contendo uma paráfrase do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, causou intensa reação na sociedade brasileira, com diversos pronunciamentos de lideranças nacionais de partidos e dos poderes constituídos. Também as organizações judaicas, intelectuais, teólogos e artistas têm se manifestado pela surpresa causada por uma emulação tão aberta dos princípios e estética da propaganda cultural do Nazismo alemão.

A Aliança de Batistas do Brasil não pode se furtar de se posicionar neste momento, ao acompanhar o modo como o Governo Bolsonaro tem tratado especialmente as políticas públicas de Educação e Cultura, como parte de um projeto que expressa um viés autoritário e antagônico à pluralidade social e cultural que caracteriza o País, sem diálogo com a sociedade, submetendo-as ao controle autoritário do Estado, e enviesado pelo desprezo ao princípio republicano da laicidade. O permanente ataque a educadores renomados no país e no exterior, como a Paulo Freire, assim como a artistas, intelectuais e agentes culturais, censurando seus projetos, exposições e obras simplesmente por seu caráter crítico ou temático (como é o caso de filmes, peças de propaganda de autarquias e exposições com conteúdo LGBTI), são exemplos emblemáticos e denuncia que um projeto nazifascista está em curso.

Entendemos que a demissão do secretário Roberto Alvim ao longo do dia não se deveu por destoar do governo, de seus ministros e secretários, mas por ter a coragem de dizer com todas as letras e performar o vínculo ideológico com o nazifascismo, tendência que muitos da sociedade civil, incluindo lideranças no âmbito das igrejas e organizações cristãs, têm apontado como estruturante nas decisões e discursos da Presidência da República e de vários de seus ministros. O elogio à tortura e a torturadores, a defesa do período autoritário, o ataque e o desprezo pelo trabalho de jornalistas e órgãos da imprensa, assim como o apoio tácito e muitas vezes aberto à criminalização e assassinato de ativistas de direitos humanos e à lideranças ambientais e indígenas, demonstra que não há apreço pela democracia nesse governo, mas um projeto de poder que se estrutura pela negação dos valores constitucionais que permitiu que Jair Bolsonaro fosse alçado ao cargo máximo da nação. O discurso goebelliano de Roberto Alvim foi não apenas intencional como representativo de um governo liderado por políticos que menosprezam as liberdades democráticas, a laicidade do estado e a pluralidade sociocultural. Assim, não basta demitir Roberto Alvim, é preciso destituir essa ideologia nefasta que governa hoje o País.

Não nos passa despercebido também que no discurso de Roberto Alvim se faz uso de símbolos e se evoca uma retórica deslaicizante, já abundante e escandalosamente presente no discurso bolsonarista, de exaltar a prevalência da hegemonia cristã formada neste governo com o apoio de lideranças dos segmentos evangélicos e católicos, cuja presença no governo em diversos escalões escancara o projeto de poder e sede de influência de parcelas do evangelicalismo pentecostal e histórico, assim como de conservadores nas fileiras do catolicismo brasileiro.

Trazemos a memória da resistência evangélica de Dietrich Bonhoeffer, Martin Niemöller, Karl Barth e da Igreja Confessante na Alemanha Nazista para denunciar que a capitulação e mesmo o silêncio diante de tal afronta ao projeto do Evangelho de Jesus de Nazaré, para auferir privilégios e influência, no apoio a um extremismo ideológico de viés nacionalista e nazifascista que constrói inimigos e empenha-se em sua aniquilação, é demoníaco e constitui-se como parte de um projeto de hegemonia branca, colonial, racista e elitista fundados numa estrutura social que lutamos tão duramente para superar como sociedade brasileira. Rejeitamos a ideologia excludente propagada por esse governo e por seus apoiadores do campo evangélico e católico, seja os que compõem diretamente através de cargos no governo ou ainda em organizações da sociedade civil ou nas igrejas, de que a família, a nação ou a religião cristã tal qual defendida pelo bolsonarismo sejam a base para construir uma sociedade plural, laica, democrática e justa que todos os brasileiros e brasileiras almejamos e nos empenhamos para alcançar.

No espírito de oração, mas com firmeza, instamos a nossos irmãos e irmãs de todas as igrejas, confissões e denominações que resistam na esperança de que o Senhor abrirá um caminho no deserto (Is 43.19b), e que decidam firmemente a não permanecer em silêncio, denunciando a capitulação, pragmática ou ideológica, de lideranças religiosas ao projeto de poder do bolsonarismo, e através de nossa fé viva na ressurreição, fortaleçam o testemunho da Igreja que resiste, junto a todas as forças democráticas pela igualdade e vida plena, até que “corra a justiça e o direito como um rio” (Am 5.24).

Aliança de Batistas do Brasil, 17 de janeiro de 2020

Esta nota foi elaborada pelo Observatório de Incidência Pública da Aliança de Batistas, uma iniciativa que visa dialogar com a realidade brasileira através de análises e posicionamentos que permitam a seus membros uma participação construtiva e transformadora nos diversos espaços em que a sociedade civil, em diálogo com o Poder Público, constrói políticas na direção de um estado democrático, justo e igualitário. É formado atualmente por Aletuza Leite, Flávio Conrado, Henrique Vieira, Odja Barros, Raimundo Barreto Jr. e Ronilso Pacheco.