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Mês da Bíblia: Primeira Carta de João, Deus é amor

Mês da Bíblia: Primeira Carta de João, Deus é amor
21 de agosto de 2019 Comunicação

via Xaverianos*

O mês da Bíblia de 2019, tem como tema “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”, a partir da primeira Carta de João e o lema “Nós amamos porque Deus primeiro nos amou” (cf. 1Jo 4,19). A carta faz parte dos Escritos Joaninos, que incluem o Evangelho de João e três cartas.

A primeira Carta de João faz parte das cartas “católicas” que significa universais, isto é, dirigidas a todos os cristãos. O texto é considerado uma epístola, porém não tem a forma de carta. Não possui nome do remetente, destinatário, local, saudações e bênçãos, entretanto a segunda e terceira carta de João são realmente epistolas. Ela faz parte da tradição “joanina” com uma linguagem muito semelhante ao evangelho de João, é provável que a origem deste escrito tenha sido a comunidade de Éfeso, na Ásia Menor, onde uma tradição secular coloca a residência do apóstolo João. Escrita talvez entre o final do século I e começo do II século (entre os anos 100 a 130).

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A Comunhão entre Deus e Nós: fonte da comunhão entre nós
O amor em defesa da vida: a 1ª Carta de João
Quem ama torna-se luz: Primeira Carta de João

Éfeso era uma cidade portuária, greco-romana, com mais de duzentos mil habitantes, era um dos grandes centros de desenvolvimento econômico e do pensamento filosófico do Mediterrâneo. Tinha uma sociedade escravista (quase dois terços da população). A comunidade cristã era solidária, tina sido fundada por Paulo na segunda viagem missionária (At 18, 24-26). Era influenciada com a filosofia gnose que afirmava que apenas pelo conhecimento mental e espiritual a pessoa entra em contato com o Deus verdadeiro, com uma fé desligada da realidade.

Se olharmos de perto, existem muitas semelhanças estilísticas e teológicas entre o Evangelho de João e as epístolas joaninas, porém há também diferenças insignificantes que levantam dúvidas, se o autor das epístolas é o evangelista. É possível que o escritor das epístolas nem foi o evangelista, nem o redator, mas um dos colaboradores menores do evangelho, ou alguém que não tenha em absoluto participado da redação do evangelho. É admissível que tenha sido escrita pela segunda geração de cristãos, visto que conhece muitos resultados da ação de Jesus e dos que foram testemunhas oculares, como os apóstolos e os discípulos. Contudo, o autor da carta apresenta-se como testemunha fidedigna da tradição que recebeu (1Jo 1,1-4).

Quando foi escrita esta carta a comunidade passava por uma crise, pois um grupo de cristãos dissidentes propunham uma doutrina gnóstica, que afirmava que o homem se salva graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Negavam que Jesus era o Messias e se gloriavam de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima união com ele; afirmavam-se iluminados, livres do pecado e da baixeza do mundo; não davam importância ao amor ao próximo. A carta busca responder a crise de fé que havia em alguns membros da comunidade. Alguns não davam a devida importância à prática concreta da fé e do amor no dia a dia da vida e diziam que a comunhão consiste sobretudo no conhecimento intelectual (gnose, como se dizia na língua deles). Por isso, os que promoviam esta teoria eram chamados de gnósticos.

O centro da carta é o amor, que traduz a fé em vida concreta. Amar ao próximo significa conhecer a Deus, viver na luz, estar unido a Deus e aos irmãos, não pertencer ao mundo e cumprir os mandamentos. Portanto, amar a Deus é praticar a justiça, é ser filho de Deus, obter o perdão dos pecados e libertar-se do medo.

A seguir apresentamos um breve comentário dos textos da carta, que dividimos em três partes, com uma introdução e uma conclusão.

Introdução (1,1-4)

A carta começa com um prólogo como o Evangelho de João, afirmando a existência do Verbo através da encarnação, desde o princípio da criação. Inicia convocando os sentidos para testemunhar Jesus e afirmando a relação entre o Pai e o Filho, que gera a alegria completa.

1. Caminhar na luz (1,5-2,28) Deus é Luz em oposição às trevas, isto é próprio do quarto Evangelho. A revelação é a manifestação de Deus no seio da história (1,5-7). Deus é a luz, a vida; as trevas são as que opõem à vida, ao projeto de Deus. Caminhar na luz exige vivenciar o mandamento do amor. Para caminhar na luz são necessários quatro passos, primeiro é se reconhecer pecador para descobrir o novo rosto de Jesus. A comunidade é pecadora e cúmplice dos pecados dela, mas a revelação mostra que Deus perdoa (1,8-2,2). O segundo passo é amar, isto é viver o mandamento do amor, quer dizer amor ao próximo como parte do amor a Deus e do estar na luz; sabemos que a comunidade joanina se fundamenta sobre a base do mandamento do amor. Conhecer e permanecer são parte da mesma experiência de Deus. O conhecimento se refere a uma experiência amorosa de Deus, que se revela em Jesus (2,3-11). O terceiro passo é não amar o “mundo” porque os anticristos são contra o projeto de Jesus e a favor do “mundo”, eles pertencem, falam a linguagem do “mundo” e o “mundo” os ouve, não reconhecem Jesus como o Messias e Salvador. O Maligno é próximo do “mundo” (2,12-17). O quarto passo é cuidado com os anticristos que saíram da comunidade e está relacionado com a última hora, eles continuavam influenciando. Eram aqueles que participavam da comunidade, mas não estavam em comunhão com ela; eram batizados que não participavam do projeto de Cristo. Não basta ser batizados para serem Filhos de Deus, é necessário praticar a justiça. Eram os falsos profetas (2,18-28).

2. Viver como Filhos de Deus (2,29-4,6) A segunda parte da carta começa com afirmação de que somos Filhos de Deus e apresenta o tema da justiça retomando os temas anteriores. A justiça era a marca dos seguidores de Cristo (2,29-3,2). A justiça consiste em amar e se doar totalmente (Jo 13,1). O texto é claro devemos discernir entre justiça e pecado, amor e ódio, ser filhos de Deus ou do diabo, rompendo com o mal e o pecado. Quem nasceu de Deus e tem como referência Jesus, não pode pecar, não pode deixar de amar, pois o pecado é ausência de justiça, de amor. Quem é filho do Diabo peca, isto é, não ama. Jesus se manifestou para destruir as obras do diabo (3,3-10). Amar é o mandamento principal, o que é contrário a Caim que mata Abel, cometendo o maior crime de fraternidade. O amor aos irmãos é o que fortalece a consciência diante do julgamento final. O amor autêntico é aquele dá a vida. Quem não ama o irmão pratica a injustiça, está do lado do diabo e vive no pecado. Com Jesus começou a era da justiça: o amor ao irmão leva à relação, à comunhão, à partilha e fraternidade. (3,11-24). Os anticristos pertencem ao mundo por isso é necessário o discernimento diante das realidades e valores cotidianos, pois os seguidores do Ancião e do anticristo se consideravam profetas ou movidos pelo Espírito (4,1-6).

3. O amor e a fé (4,7-5,13) A tecera parte tem o tema do amor e a fé. O amor refere-se às relações entre as pessoas; a fé toca as relações com Jesus, com Deus. O Amor e a fé abraçam todas as dimensões da vida. É o Espírito, portanto, que gera a fé em Jesus e fé é compromisso que produz vida nova. O Amor vem de Deus. Somente quem ama ao irmão tem a certeza de amar a Deus. O amor vem de Deus, Ele é a origem e a Fonte do amor, quem ama nasceu de Deus e conhece a Deus. O conhecimento se dá pelo contato, pelo encontro e pelo confronto, pois Deus é amor (4,8.16) O amor de Deus é a raiz de tudo. A experiência do amor de Deus está na raiz da Bíblia. Ao longo das muitas crises que ocorreram durante a história do povo de Deus, é sempre a redescoberta do amor de Deus que fazia o povo renascer e retomar a sua caminhada. O amor só é concretizado quando vivido. O amor não tem limites e tem muitas formas de se expressar. O amor vem de Deus, pois Ele tomou a iniciativa de amar. O amor de Deus é gratuito e desinteressado. O nosso amor só chega a Deus passando pelas pessoas. A Trindade é a prática do amor. As relações de quem ama tem como base a confiança; as relações de quem não ama se baseiam no medo. Não se pode amar a Deus sem amar as pessoas (4,7-5,4). O amor em Deus gera a fé e a fé gera o testemunho. É a fé que acolhe o dom que Deus realiza em Jesus. É esta fé que faz experimentar desde já a vida eterna A palavra testemunho aparece dez vezes no texto para sublinhar a importância da coerência da vida fraterna na comunidade (5,5-13).

Conclusão (5, 14-21) A carta termina afirmando a necessidade da oração e do discernimento. A oração é o meio para nos colocarmos dentro do projeto de Deus e pedirmos a realização da sua vontade amorosa, que gera vida e liberdade. As comunidades joaninas por serem fraternas acreditavam no poder da oração como forma de superar os conflitos das limitações humanas. Há dois tipos do pecado o que não conduz a morte decorrente das fraquezas e limitações; o pecado que leva à morte é a rejeição radical da proposta de Jesus. Os ídolos são pessoas, coisas, estruturas e projetos que produzem escravidão e morte que se apresentam como absolutos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus 2018.
BORTOLINI, J. & BAZAGLIA, P. Como ler as Cartas de João: quem ama nasceu de Deus e conhece a Deus. São Paulo: Paulus, 2001.
CENTRO BÍBLICO VERBO DIVINO. Jesus Cristo veio na Carne é de Deus, entendimento da primeira Carta de João. São Paulo: Paulos 2019.
MESTER & OROFINO. Deus nos amou primeiro, A primeira Carta de João. Convergência, setembro de 2019.
NASCIMENTO & MAZZAROLLO. A compreensão da comunidade joanina em Raymond em Brown. Departamento de Teologia.
SAB. Mês da Bíblia 2019. Para que n’Ele nossos povos tenham vida – primeira Carta de João: Nós amamos porque Deus primeiro nos amou (cf. 1Jo4,19). São Paulo: Paulinas, 2019.

Texto de Rafael Lopez Villasenor, via Xaverianos.

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