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Fé, cultura e presença feminina no congado brasileiro

Fé, cultura e presença feminina no congado brasileiro
24 de novembro de 2016 Centro de Estudos Bíblicos
Fé
As guardas vêm chegando e tomam conta da rua, no bairro de Santo Antonio, em Sete Lagoas, Minas Gerais. O colorido das fitas alinhadas entre os postes de luz enfeita a rua para a grande festa da cultura negra. A música e a dança dos Moçambiques e Congadeiros chamam a atenção de toda a comunidade. Entre cumprimentos abençoados por reis e rainhas, os integrantes das Guardas de Congo Femininas Nossa Senhora Aparecida e Santa Joana D´Arc, as Guardas de Congo Santa Rita e União do Rosário São Cristóvão, e os Moçambiques Nossa Senhora Imaculada Conceição e Nossa Senhora da Abadia se confraternizam no domingo de 11 de outubro.

Dona Eliana da Silva, anfitriã da festa, com a ajuda da comunidade, enfeitou o seu terreiro com fitas de todas as cores, preparou almoço para receber mais de 300 pessoas. Há 53 anos, ela participa do congado. Filha de congadeiro, seu Geraldo Cardoso, manteve a tradição da família e em 1994, fundou a segunda guarda Feminina de Sete Lagoas, chamada Rosário Nossa Senhora Aparecida.

A religiosidade é a grande motivadora do congado, que mescla a cultura negra com a religião católica. É uma dança, acompanhada de cortejo compassado, levantamento de mastros e músicas que louvam a santos. A sua origem remonta à diáspora e escravidão dos negros, como explica a antropóloga da Fundação Cultural Palmares, Taís Garone. Ela conta que no período de intensas guerras no Congo e em Angola, Nossa Senhora do Rosário apareceu no mar desse país. Os brancos tentaram resgatá-la com missas, novenas, bandas de música, mas a santa só aceitou retornar a terra pelos negros, trazendo a paz e a união para os países. No tempo da escravidão no Brasil, Nossa Senhora do Rosário apareceu novamente nas águas do mar. Da mesma forma, foi resgata pelos negros para pôr fim às torturas e maus tratos do eito da escravidão. Desde então, tornou-se companheira e entidade protetora do povo negro, afirma Taís.

“Para mim o mais importante do congado é Nossa Senhora do Rosário”, conta um dos mais antigos congadeiros de Sete Lagoas, seu Heber Luiz da Fonseca, 65 anos. Ele brinca que ainda no ventre de sua mãe já participava do congado. Seus pais fundaram a guarda Santa Rita, em 1943. Em Sete Lagoas, existem 24 guardas de congado e sete de Moçambique. A cidade é uma das principais mantenedoras da cultura no estado de Minas Gerais. Outra peculiaridade de Minas é a devoção a mais dois santos: Santa Efigênia e São Benedito.

A fé movimenta as comunidades que apóiam o congado com doações, roupas, instrumentos musicais. Na festa de dona Eliana, as guardas representam os bairros Santo Antonio, Catarina, Nossa Senhora da Graça, São Cristóvão e Santa Luzia. “O congado não existe sem uma comunidade. Ele é uma manifestação direta do povo, de suas crenças e da cultura negra”, explica Taís Garone.

A comunidade incorpora os personagens de reis, rainhas, coroados, portas-bandeiras, juízes, capitães-regentes, alferes, dançantes, acompanhantes, cantadores, caixeiros que, juntos, formam uma guarda de congo ou de Moçambique.

Em média, cada guarda possui mais de 40 componentes. Os reis são os representantes da tradição, da espiritualidade. O capitão-regente comanda a música e a dança tanto no Congo como no Moçambique. Cada grupo se distingue por seu ritmo, instrumentos, coreografias. Enquanto a guarda de congo é mais lenta, com formatação definida, cantada por sete vozes, o Moçambique é mais agitado e seus integrantes formam um coro musical. As guardas de congo possuem instrumentos de corda e de percussão como: viola, adufe, caixas, tambores, maracas. Já o moçambique possui apenas instrumentos percussivos como o treme-terra, a folha e a gunga (também chamada de campanha, uma espécie de chocalho fixado nos pés dos integrantes).

A porta-bandeira leva com orgulho o nome do santo protetor. E a porta-estandarte, a bandeira com o nome da guarda. Os demais integrantes do Moçambique enfeitam-se com uniformes coloridos, terços, guias, boinas, saiotes, calças, coletes, camisas. Já a guarda de congo usa um uniforme de inspiração naval composto de calça, camisa e um cap.

Origens e modificações do congado no Brasil

O congado surge no Brasil com a vinda da primeira leva de escravos da África por volta de 1549. Os negros trouxeram sua cultura contagiante que se espalhou pelo país. Há manifestações de congado em todos os estados brasileiros, porém não há ainda um mapa das guardas brasileiras. A região sudeste mantém a grande maioria. Em Minas Gerais elas são aproximadamente quatro mil. Destacam-se as guardas de congo de Sete Lagoas, Paraopeba, Bom Despacho, Montes Claros, Abaeté, Piedade do Rio Grande.

No Estado mineiro, o registro mais antigo das tradições do congado é de André João Antonil (pseudônimo do padre jesuíta João Antônio Andreoni), que esteve em Minas de 1705 a 1706. Ele regustrou as primeiras festas em sua obra Cultura e Opulência do Brasil, publicada em 1711. Para os congadeiros de Sete Lagoas, o congado chegou às terras mineiras através de Chico Rei de Vila Rica. Segundo eles, Chico Rei era um rei africano, trazido como escravo para o Brasil, especificamente para a Vila Rica, de Ouro Preto, no século XVIII. Ele comprou sua alforria e começou a explorar uma mina já desativada. Havia ainda muito ouro e o rei- escravo ficou rico e libertou os demais. Como grande devoto de Nossa Senhora do Rosário, pagou sua promessa organizando a primeira festa em homenagem à santa em 1747.

No Brasil, uma das principais modificações do congado é a participação direta da mulher nas guardas, avalia a antropóloga, Taís Garone. A mulher tradicionalmente sempre cozinhou para as festas, costurou os uniformes, limpou os terreiros, mas nunca pôde integrar uma. Há aproximadamente trinta anos, segundo Taís, elas conquistaram o seu espaço e passaram a dançar e cantar nas guardas.

Dona Eliana, primeira mulher a fundar uma guarda em Sete Lagoas, afirma que ainda há preconceito, principalmente com as que tocam os instrumentos. A influência masculina é tão forte que mesmo ao se tratar de uma guarda do sexo oposto, cabia ao homem fundá-la. Foi o caso da primeira guarda feminina de Sete Lagoas, a Santa Joana D´Arc criada em 1990, por seu Juvenal Martins. Para seu Heber da Fonseca, o machismo aos poucos dá lugar ao respeito à presença feminina. Na Guarda Santa Rita, a mais antiga de Sete Lagoas, elas ganham espaço gradativamente. Hoje dos 55 componentes, 20 são mulheres.

Premiações

O ritmo e a dança do congado contagiam brancos e negros sem distinção. O seu reconhecimento é cada vez maior com premiações nacionais e estaduais. Neste ano, a Associação Regional dos Congadeiros de Sete Lagoas teve o projeto Ponto de Cultura Cecília Preta aprovado no Edital de Pontos de Cultura de Minas Gerais/2009, uma parceria entre a Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais e do Ministério da Cultura.

Com o projeto, a entidade, a partir do próximo ano, deverá oferecer cursos e oficinas para a comunidade. A expectativa é suprir as principais demandas das guardas que são uniformes e novos instrumentos musicais.

O congado de Sete Lagoas tem na figura de Dona Eliana uma de suas grandes representantes. Em 2007, ela foi uma das vencedoras do prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura, edição “100 anos de Mestre Duda”. Dona Eliana concorreu com mais de 300 pessoas de todo o país. Ela conta que até o momento, esse foi o mais marcante de seus 53 anos de congado. “Era uma quarta-feira, lembro até hoje, comentei com minha irmã: eu vou ganhar este prêmio porque tenho fé em Nossa Senhora Aparecida, que é mãe e não madrasta e ela vai me ajudar. Na sexta-feira eles me ligaram para anunciar a minha vitória”.

Para ela, o congado leva muita coisa boa às pessoas: a religiosidade, muitos milagres, alegria, cultura, educação, solidariedade, respeito e principalmente fé numa vida melhor.