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Diários de uma eleição estranha

Diários de uma eleição estranha
18 de outubro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações
eleicoes-2018

por Marcos Monteiro*

Entre o beijo e a bala

Essa é a mais estranha das eleições de que participei. Um candidato libera o beijo, o outro promete bala, e eu descubro estarrecido que muitos seres humanos são contra o beijo e a favor da bala. Especialmente os evangélicos. Muito estranho esse evangelho.

Mas tentam me explicar que são contra somente o beijo da estranha Raça de Humanos Exóticos e que os evangélicos amam os humanos exóticos. E acho estranho esse modo de amar, em vez de beijo, bala. Os humanos exóticos que conheço têm pai, mãe, amigos, amigas e medo, muito medo.

Tenho muitas amigas e amigos exóticos. Todas estão com medo, muito medo e sou solidário. Por causa disso quero eleger o beijo, nunca a bala. Sem ódio e sem medo, voto Haddad. Voto 13.

(Parte I – Recife, 15 de outubro de 2018)

Contra a caça de humanos

Quando Antônio acordou no hospital, estava com a cabeça lascada. Ele é pai de família, alto, mas é negro e dorme na rua, portanto faz parte dessa Raça de Humanos Exóticos. Um caçador aproveitou de seu sono e lançou um paralelepípedo sobre sua cabeça.

Essa eleição é muito estranha. Há um candidato prometendo mais armas e os Caçadores de Humanos Exóticos estão exultantes e prometendo caçar como nunca. Se o caçador de Antônio tivesse esperado teria conseguido talvez caçar com mais objetividade.

Conheço Antônio e a sua monstruosa capacidade de trabalho. Ele é coletor de lixo, mas não tem casa, portanto é vulnerável. Não é do tipo de ter medo, mesmo depois do episódio, mas sabe que não pode dormir, porque os caçadores podem chegar a qualquer momento. Portanto, contra a abertura da temporada de caça aos humanos, sem ódio e sem medo, voto Haddad , voto 13.

(Parte II – Recife, 16 de outubro de 2018)

Quero morrer de amor

A conversa surgiu com o passageiro ao lado, do ônibus urbano quase vazio, ele estava triste. A filha havia morrido de depressão há dois meses, mas era história estranha de amor. Morreu porque o marido morreu de câncer e ela não conseguia dormir nem comer e repetia que queria ir se encontrar com ele, e foi.

História de negros e negras, cor da Raça de Humanos Exóticos, a qual enfrenta a violência do racismo, disfarçado ou explícito, mas estranha história de amor à vida e amor ao amor. Pretas e pretos sofrem preconceito, humilhação e violência, simbólica ou explícita, mas amam.

Nessa estranha eleição, em que um candidato faz discursos preconceituosos e faz apologia da tortura e da violência, quero defender somente a tortura da saudade e a violência do amor. Se tenho de morrer um dia, quero morrer amando, quero morrer de amor. Sem ódio e sem medo voto Haddad, voto 13.

( Parte III – Recife, 17 de outubro de 2018)

Textos publicados no blog do autor.