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Diários de uma eleição estranha: Para aprender a amar

Diários de uma eleição estranha: Para aprender a amar
26 de outubro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações

por Marcos Monteiro*

O teólogo Marcos acompanhou estas eleições e fez um diário com anotações sobre os acontecimentos e os posicionamentos que encontrou na sociedade brasileira pré-eleição. Sob uma ideologia totalitarista e intolerante, o candidato Jair Bolsonaro é o responsável por nomear a Raça de Humanos Exóticos, ou seja, todas as pessoas que ele odeia: mulheres, LGBTQs, negros, negras, quilombolas, indígenas, militantes, empregadas domésticas e lutadores/as sociais. Marcos usa a ironia como último recurso para alertar o/a eleitor/a sobre o momento que vivemos: a ascensão do neo-fascismo no Brasil.

Boa leitura e boa luta!

Dia 07: Diário da uma eleição estranha

Tenho muitas amigas e amigos que não conseguem dormir, todas pertencentes à Raça de Humanos Exóticos. Para elas, já está aberta a temporada de caça, e se o Caçador Maior for eleito, pensam que vai piorar. Mas tenho outros que dormem tranquilamente porque acreditam que a sua própria humanidade não se encontra ameaçada.

Então, nessa estranha eleição, posso dividir os eleitores entre os que dormem e os que sofrem insônia. Quando pergunto a alguém se está dormindo bem, praticamente descubro o candidato pela resposta. Eu não estou dormindo bem e minha insônia é solidária.

Quando meus amigos se sentem caçados, eu sinto a minha humanidade aviltada e sinto imensamente se você está conseguindo dormir bem.

Estar sempre acordado era vigilância de Zeca, carpinteiro desempregado que dormia na rua de Feira de Santana e de Beto, adolescente homossexual, quando descobriu que o pai comprou um revólver. Zeca era o morador de rua mais esfaqueado de Feira de Santana. Por causa dele e de outras, quero ficar acordado o mais possível, enquanto esse clima de terror estiver presente.

Então, pela volta do sono tranquilo, sem ódio e sem medo, voto Haddad, voto 13.

 

Diário 08: Perdas e ganhos

Não quero perder essa eleição, mas só quero ganhar, na esperança de um mundo em que os dois verbos, perder e ganhar, desapareçam. Fomos educados para competir, suplantar, acumular, e isso se chama ganhar. Na solidariedade, ninguém perde e ninguém ganha, todas e todos vivem o melhor possível.

Os Caçadores de Humanos Exóticos são o subproduto dessa lógica do perde-ganha e uma eleição que poderia ser simplesmente isso, uma escolha, tornou-se uma guerra. A desigualdade social envenena com intolerância e discriminação e impede que a diversidade trazida pela Raça de Humanos Exóticos seja percebida com seu esplendor.

A guerra eleitoral deseja exterminar pessoas e direitos, especialmente das trabalhadoras. Sem o verbo perder ou ganhar, transformados em curiosidade linguística de um português arcaico, todas e todos poderiam escolher, como estou fazendo, sem ódio e sem medo, Haddad 13.

 

Diário 09: Os paridores de plantão

As mulheres são metade da humanidade, e fazem parte da Raça de Humanos Exóticos. Pelo que entendi da declaração de um candidato, são os homens que parem a humanidade, sozinhos, as mulheres são recipientes vazios. E só devem parir homens, mulheres só aparecem quando eles fraquejam.

Por serem exóticas devem ganhar menos e não devem receber licença-maternidade (afinal, não são os homens os parideiros?). Mais exóticas ainda são as feministas, essas devem sofrer dos caçadores torturas e violências, estupro não, somente para as bonitas.

Quando a opressão dos caçadores sobre a metade da humanidade desaparecer, a igualdade será mais igual e as mulheres terão mais oportunidades de decisão. Contra a chapa de militares autoritários, voto em um professor educado e em uma jornalista feminista inspirada. Sem ódio e sem medo, voto em Haddad 13.

 

Diário 10: Para aprender a amar

A ira é um dos sentimentos naturais e em uma sociedade capitalista, em que o mérito, o narcisismo e o consumismo são valores e a competição, o individualismo e o sucesso são processos de crescimento, a ira se torna estrutural, quase ontológica. O ódio é o cultivo e o aperfeiçoamento da ira.

Nesse tipo de sociedade, estamos irados contra a desigualdade econômica que nos atinge, contra o poder que nos esmaga e contra a solidão que nos ameaça. A ira é uma emoção perigosa e fomos convidadas a aplicar a ira, aprendendo a odiar. Nos ensinaram a odiar o PT, depois aos homossexuais, aos negros, aos índios, às feministas, aos sem-terra, aos sem-teto, aos sem-direitos.

Mas o que queríamos mesmo era mais igualdade salarial, mais poder de decisão e mais amor, muito mais amor. Então precisamos urgente reaprender a amar e vencer esse clima de insegurança e intolerância. Para retomar o caminho do amor, sem medo e sem ódio, voto em Haddad, voto 13.

 

Diário 11: Educação Infantil

Ítalo tinha quatro anos quando não se coube em si. E não teve ninguém seduzindo, nem igreja, nem amigas, amigos, escola ou igreja lhe compreendendo. Quem consegue? Pai e mãe se desesperavam e Ítalo queria se matar. O pai desistiu e saiu de casa, mas a mãe foi acompanhando até aceitar, ajudar e admitir que Ítalo se cabia melhor como Talia e tem dezoito anos agora, livre, leve e linda.

Educação sexual é luta de educador há muitos anos, contra uma sociedade que não se entende. Bernadete apanhou o que pode e o que não pode até se tornar Belisário e se sentir mais humano. E não teve escola, nem igreja, foi luta solitária, por cuja causa leva cicatrizes no corpo e na alma. Não se ensina ninguém a ser gay, lésbica, travesti ou trans, o que se pode ensinar é a respeitar e a se amar as pessoas e as crianças em seu longo processo de descoberta de corpo e de identidade sexual.

Sou amigo de muitas LGBTT e já ouvi histórias o suficiente de tentativas de exorcismo, tentativas de cura e tentativas de suicídio, mas também testemunhos de libertação pela autorização do amor exótico. Esse grupo grande de Humanos Exóticos tem sido o alvo principal de caçadores e o Brasil é o país que mais mata homossexuais. Eles estão com muito medo. A educação é o projeto de ensinar crianças a amar, não a atirar. Pelas mães de crianças exóticas, sem medo e sem ódio, eu voto em Hadad, voto 13.

Publicado originalmente no blog do autor.

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