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Carta de amor ao meu inimigo (9): A arte de argumentar

Carta de amor ao meu inimigo (9): A arte de argumentar
4 de outubro de 2018 CEBI Secretaria de Publicações

por Marcos Monteiro*

Grito, porrada e bala – a arte de argumentar

Meu querido inimigo,

Nessa carta, quero falar um pouco sobre discursos, argumentos e promessas. Como se diz isso com gentileza? O seu discurso é autoritário, seus argumentos são inconsistentes e suas promessas, algumas são muito estranhas.

Seu estilo é uma das maiores dificuldades para eu aprender a lhe amar. Mas funciona. Parte da população adora as suas falas e serviram para eleger você como deputado, fazendo as mesmas coisas, destruindo os mesmos direitos, legislando contra as trabalhadoras e entregando a nossa soberania, o petróleo, a energia, e o que mais quiserem. Mas todo eleitor seu diz que você e seu discurso ultrapassado é a grande novidade. Eu nunca acreditei. Você faria, se eleito, o que aprendeu na assembleia legislativa, lutaria contra o povo, a mesma e antiga política.

O discurso autoritário talvez seja fruto de sua experiência de caserna. Estava lembrando de Einstein, quando dizia que não se emocionava com uma parada militar porque nunca conseguira admirar quem pensa com a medula.

Aliás, você falou que vai convidar muitos militares para o seu ministério. Claro que mais uma vez isso é um discurso farsista que não cabe em nenhuma república e que não contempla o modo de se governar. Afinal, um é o discurso de campanha, e a defesa dos militares e da ditadura foi suficiente para eleger você e sua família.

Você deve amar bastante a família, especialmente a sua. Todas três. Afinal, conseguiu emprego para os filhos, e um dos melhores empregos do país, a política.

Mas gostaria de pensar em seu modo de argumentar. Não consigo muitas vezes entender a sua lógica, a não ser a lógica da violência que eu poderia resumir desse jeito: grito, porrada e bala. Em ordem crescente. Normalmente, isso se traduz assim: quando o argumento não tem força, a força se transforma em argumento.

Na Atenas antiga, berço da democracia, o político precisava para melhor governar aprender retórica, a arte de argumentar, e eu não sei se faltam no seu currículo cursos de retórica e de cidadania. Porque democracia se faz conversando, e grito, porrada e bala é um esquisito modo de se conversar.

Estava me perguntando de que imaginário popular você surgiu para conseguir parte dessa popularidade. Talvez dos filmes e gibis de nossa infância, em que o caubói surge como solução distribuindo grito, porrada e bala, contra a bandidagem. O mesmo caubói que ajudou a exterminar os índios e a escravizar os negros.

Daí virão, possivelmente, as suas estranhas promessas. Na área de economia, vamos acabar com as demarcações de terras indígenas e com os quilombos. Todo mundo sabe que índio é preguiçoso e negro, quando engorda, perde sua única função, a de reprodutor de mão de obra escrava. O discurso é da casa grande e a solução é de caubói, grito, porrada e bala.

Na área de educação, se gritar com a criança ela melhora, se der porrada, ela vai deixando de ser gay (estranha fixação), se não adiantar é bom que morra, para não envergonhar os pais preconceituosos e homofóbicos. Grito, porrada e bala.

Sua visão ética é moralista e redutora. Dois homens gays podem até transar, mas se beijar na rua vão levar porrada. E essa é uma estranha promessa de candidato que não acredito que você cumpra. Até porque seriam dois contra um e tem gay que é bom de porrada. Lembra de Madame Satã?

Sua promessa de segurança? Mais cadeias e mais armas. Ou seja, vamos voltar ao faroeste, com a grande novidade, a de mulheres armadas. E vamos todas e todos saindo por aí gritando, dando porrada e matando os bandidos, e os índios e os negros e os homossexuais. Desse modo, tem até lógica ensinar as crianças a atirar. Educação para a morte. Viveremos mais seguros? Claro que ninguém acredita nisso, nem você. Os bares teriam de ter somente cadeiras viradas para a entrada, lembra? Seu discurso é farsista, apenas eleitoral, nenhuma novidade.

Sabe o que considero o grande perigo do seu estilo farsista? É que o governante inevitavelmente é exemplo e todos os caçadores de humanos exóticos vão se sentir mais apoiados para saírem à noite exercendo o seu esporte tenebroso, e vão colaborar com o seu governo caçando moradores de rua, mendigos, bandidos, negros, índios e homossexuais.

Por isso, meu inimigo querido. Mude de paradigma cultural. Não se arvore a ser o caubói da sociedade brasileira. Até porque já existe um caubói estrangeiro, muito mais poderoso, que conta com você para atrumpelar o Brasil. E ele quer nossas terras, nossas águas, nossa energia, nosso petróleo e nossa alma.

Na nossa cultura sertaneja, entre a figura típica do cangaceiro (o bandido) e a do macaco (o policial) existe a figura do conversador, os meus principais heróis. Enquanto os outros seguem a lógica da violência, do grito, da porrada e da bala, o conversador faz a mágica da vida e da conciliação com graça, inteligência, picardia e conversa. Os meus heróis brasileiros não são nem Lampião, nem o Sargento Getúlio, nem mesmo o Riobaldo, mas os joãos grilos, os cancões de fogo, os amarelinhos, os zé-bicos-doces, os pedros malazartes, sabidos, bons de conversa e de bem com a vida.

Meu inimigo querido, Jesus quer que eu lhe ame e está sendo cada vez mais difícil. Portanto, acabe com essa ideia de querer atrumpelar o Brasil, mude de atitude e de discurso, e desista dessa ideia de ser presidente. Vai ser melhor para você, para o Brasil e para o grande sertão.

Marcos Monteiro, pastor batista.