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E você, está rindo de quê?

E você: está rindo de quê?
14 de novembro de 2017 Centro de Estudos Bíblicos
Em alusão ao Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, a teóloga e jornalista Lídia Maria de Lima partilha sua reflexão sobre racismo e os discursos da sociedade.
O texto integra o projeto CEBI Colunistas, Voz Popular. Acompanhe o projeto!

Boa reflexão!

É coisa de preto!” – esta foi a frase mais comentada nos últimos dias aqui em nosso país, depois do “vazamento” do vídeo do jornalista Willian Waack. Nas imagens, o debochado sorriso dá o tom do descaso, do sarcasmo e do descrédito que se dá ao racismo no Brasil.

Mas, ele não sorriu sozinho: muitas pessoas expressam seu apoio a ele e, houve até quem publicasse por aí que o mesmo estava sendo “crucificado” injustamente, afinal “quem nunca fez uma piada de mal gosto?”

Nossa sociedade mascara o racismo com o sorriso. Sim: embutido na ideia de que o brasileiro é um povo cordial e alegre, aprendemos a esconder o nosso preconceito, transformando-o em piada.

Para a pesquisadora Sandra Leal de Melo Dahia (2008), o riso tem uma importante função psíquico e social, capaz de contribuir para o encobrimento e também para a consolidação do racismo.

O discurso e o ódio

O discurso jocoso parece ser uma das possibilidades peculiares ao brasileiro de resolver conflitos identitários na vivência de suas relações raciais. Por meio do riso, o brasileiro encontra uma via intermediária para extravasar seu racismo latente, contornando a censura e a reflexão crítica sobre seu conteúdo e sobre o alcance de satisfação simbólica que o riso propicia, ao mesmo tempo em que ele não compromete sua auto representação de não racista. (DAHIA, 2008, p.698)

Em nossa cultura, as piadas são frequentes e estão presentes até mesmo no sermão de domingo. Rir, tal como afirma Sandra Dahia, é a forma que encontramos para amenizar as angustias da vida. Entretanto, será que o riso proposto em nossa sociedade e nos ambientes eclesiais, seja no sermão de domingo ou no aconselhamento pastoral não são formas de mostrar a nossa conivência e naturalização do racismo? Quantas vezes também não utilizamos desse recurso sem perceber (ou percebendo propositalmente),  que o mesmo poderia intimidar ou silenciar pessoas de nossa comunidade que sofrem cotidianamente com esse tipo de prática?

Lembrei-me das palavras do profeta Isaias ao seu povo: Não tenhais medo do riso dos humanos e por seu sarcasmo não vos deixai abater” (Is 51.7)

Quanta angustia vivia o povo no período dessa profecia: tempo de exílio, crise e opressão. Mas o profeta convoca o povo a buscar força e entusiasmo na sua história, olhando para seus antepassados. Rememorando a caminhada, e “levantando os olhos”, pois não é o riso do opressor que irá apagar nossas conquistas, a nossa dança, nem tampouco quem somos, como somos e quantos somos.

E o clamor por justiça, tão presente no texto, nos lembra que a profecia não está restrita ao passado, mas trata-se de uma necessidade atual e constante, para que nós também alcancemos a dignidade e a integridade que “é luz para toda a gente” (Is 51.4).

Por que nós, religiosos, insistimos em tolerar, ou nos silenciamos, diante de uma opressão camuflada de humor?

Enquanto ignoramos o escárnio e fingimos que nada de mal aconteceu, além de uma “piada ruim”, nossos filhos continuam morrendo, vítimas do racismo, nossas filhas continuam sendo “hipersexualizadas, vistas como “mulatas, da cor do pecado”. Continuamos no subemprego, ou ganhando menos que as pessoas brancas. Ainda que façamos o mesmo trabalho; continuamos sendo minoria nas universidades e seguimos fazendo esse jogo de “manutenção” da sociedade escravagista.

Uma sociedade que insiste em dizer que vivemos em uma democracia racial.

Pecado estrutural

É preciso denunciar o pecado estrutural. Isaías convoca o povo a “levantar os olhos”, olhar além dos limites e das opressões vigentes. É preciso crer num tempo de transformação, no qual a denúncia e o anúncio de novos tempos caminhem lado a lado. Gerando transformações e reparações.

Denunciar e não temer aos insultos e as risadas dos opressores é primordial para que possamos nos manter firmes em nossa marcha por dignidade e vida abundante. Nesse mês da consciência negra, sinto que essa profecia nos desafia a olhar para o que vive e o que viveu o movimento negro até aqui: outrora riam de Zumbi,  de Dandara,  de Tereza de Benguela, de Luiz Gama, de Machado de Assis, de Pixinguinha, de Carolina de Jesus e de tantas outras pessoas pretas. Riram de mim e até de você.

Mas, aqui estamos: olhando pra cima, questionando esse riso e construindo a nossa história!

“É coisa de preto!” – essa foi a frase que motivou o riso do opressor. Pois eu prefiro o riso negro, aquele profetizado por Dona Ivone Lara. E que segue acompanhado de “um abraço” companheiro/a, de comunidade que tem fé na vida,  e que  crê, na liberdade e na felicidade.

Coisa de preto. Coisa de preta.
Coisa de quem (r)existe!

Fonte: Texto de Lídia Maria de Lima, professora de Teologia da Universidade Metodista de SP, teóloga e jornalista. Estou/Sou pastora metodista. Estou fazendo um curso de Teologia Feminista na Universidade Bíblica Latinoamericana, e encantada com a teologia feminista negra, que já era um tema que tenho pesquisado para a vida.

Referências:

  • DAHIA, Sandra Leal de Melo. Riso, preconceito racial e aliança inconsciente: uma leitura possível. Riso, preconceito racial e aliança inconsciente: uma leitura possível, 2007.
  • SAGRADA ESCRITURA. Bíblia de Tradução Ecumênica, TEB, São Paulo: Loyola, 1994.