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Uma nota sobre 2020 ou de como falar de corda em casa de enforcado

Uma nota sobre 2020 ou de como falar de corda em casa de enforcado
27 de dezembro de 2020 Comunicação

Romero Venâncio *

 

“…ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser…”
Thiago de Mello
Muito se escreverá sobre 2020 no Brasil. Contos, Crônicas, Romances, Ensaios ou mesmo Teses. Por que? foi um ano atípico para o mundo e, em particular, para o Brasil. Falar com propriedade sobre esse ano será tarefa de quem o viveu com sofrimento, sinceridade e realismo. E serão nestas três palavras que passo a fazer essa breve nota e sem pretensão ou ilusão de dizer muito e menos ainda achar que direi tudo. Numa nota, por natureza, se fala pouco.
Com Sofrimento. Sempre voltarei a pensar no ano 2020 como um ano que sofri…E muito. Por mim e por tantos/tantas que conheço e que não conheci. Sabem que falo da pandemia. Covid 19 é o símbolo deste ano. É sempre cruel ter a morte rondando todo o tempo sua vida. Mas é muito duro ver pessoas morrendo quando se podia ter evitado tal morte. Qualquer discurso sobre covid19 no Brasil em 2020 passa pelo governo mais incompetente da história republicana: fisiológico, provinciano, autoritário, clientelista, cruel e de extrema direita. As populações indígenas vivem um verdadeiro genocídio enquanto esse governo “governar”. Desemprego, fome, racismo parece uma cultura que tá sendo incorporada ao nosso cotidiano. Ter a pandemia de um vírus letal junto com um governo bolsonaro foi uma conspiração diabólica sem precedentes em política nesse país. Quando um governo torna ridículo e retira a seriedade da palavra “vacina” em plena pandemia!!!, é que chegamos ao fundo… que triste.
Com Sinceridade. Não vejo como o fim das esquerdas o ano de 2020. Vejo como a falência de um projeto de esquerda alimentado desde a década de 80 e que teve seu ponto alto nos governos liderados pelo PT. E essa particular derrota, não ajuda em nada a possível unidade de ação ou de algumas alianças pragmáticas dessas mesmas esquerdas. Essa derrota acumulou ressentimentos, mágoas, invejas… Essa esquerda que veio dos anos 80 e que chegou ao estado paulatinamente através dos parlamentos, quando perdeu os carguinhos ficou mais furiosa… Sinceramente, com uma esquerda dessa, tínhamos que projeto? mas eu goste ou não dela, meu sangue tá unido ao dela… Esquerda não é palavra sagrada, por isto será (e já tá sendo) transformada. Atentemos!
Com Realismo. Confesso que não tenho ilusões quanto a 2021 que tá na porta. Muda-se o calendário, mas a realidade continua. Auto-ajuda ou otimismo tolo não muda o real. O reforça tal qual. Esse falatório relambido de fim de ano vestido de branco é a bobagem de sempre ou uma espécie de cobertura de chantilly num bolo de merda. Precisamos (e precisaremos mais do que nunca) enfrentarmos o real como real (esse termo aqui não é o do Lacan). Temos que enfrentar o que vivemos e como vivemos de maneira sóbria e com bastante realismo (mesmo que em alguns momentos exijamos o impossível). Aquela história de “meu delírio é a experiência com coisas reais”. Uma coisa tenho convicção: o destino desse país não pode ser a extrema direita, o fascismo ou essas coisas odiosas que vemos governar o Brasil… Nada na vida se conquista de maneira decente que não seja pela luta.

 

*Professor da Universidade Federal de Sergipe e assessor do CEBI Sergipe